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Saúde

Por que o Brasil é chave para entender a longevidade extrema

Redação Informe 360

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O Brasil pode ocupar um papel central nas pesquisas globais sobre longevidade extrema, segundo um novo artigo científico liderado pela geneticista Mayana Zatz, da Universidade de São Paulo (USP). Publicado nesta terça-feira (6) na revista Genomic Psychiatry, o estudo analisa dados genômicos de supercentenários brasileiros e aponta que a diversidade genética do país ainda é pouco explorada, apesar do alto potencial científico.

O trabalho reúne evidências de pesquisas em andamento com um grupo único de pessoas que ultrapassaram os 110 anos de idade, incluindo supercentenários validados e antigos detentores de recordes mundiais de longevidade. Entre eles está o homem vivo mais velho do mundo, atualmente com 113 anos.

A análise reforça que populações miscigenadas, como a brasileira, podem revelar mecanismos biológicos de proteção ainda invisíveis em bancos de dados genéticos mais homogêneos.

Alguns dos seres humanos mais velhos do mundo são brasileiros (Imagem: Photobac / Shutterstock.com)

Diversidade genética como diferencial científico

De acordo com os autores, um dos principais entraves para compreender por que alguns indivíduos vivem muito além da média está na falta de representatividade genética nos grandes estudos internacionais. Bases de dados genômicos costumam ser dominadas por populações europeias, o que limita a identificação de variantes protetoras presentes em grupos miscigenados.

Mateus Vidigal de Castro, primeiro autor do artigo e pesquisador do Centro de Pesquisa sobre o Genoma Humano e Células-Tronco da USP, afirma que esse cenário é especialmente problemático em estudos sobre longevidade. Segundo ele, supercentenários de populações miscigenadas podem carregar variantes genéticas únicas, que passam despercebidas em amostras mais homogêneas.

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DNA
Variantes genéticas únicas em populações miscigenadas podem ajudar a entender melhor a longevidade (Imagem: ismagilov / iStock)

A formação populacional brasileira envolve séculos de miscigenação, desde a colonização portuguesa, passando pela migração forçada de cerca de 4 milhões de africanos escravizados, até ondas posteriores de imigração europeia e japonesa. Estudos genômicos anteriores já identificaram milhões de variantes genéticas inéditas em brasileiros, muitas delas ausentes em bases globais de referência.

Um grupo raro de supercentenários

O artigo descreve um estudo longitudinal em andamento que acompanha mais de 160 centenários brasileiros, incluindo 20 supercentenários validados, distribuídos por diferentes regiões do país. O grupo reúne pessoas com trajetórias sociais, culturais e ambientais bastante diversas.

Entre os participantes esteve a freira Inah Canabarro Lucas, reconhecida como a pessoa mais velha do mundo até sua morte, em abril de 2025, aos 116 anos. O grupo também inclui os dois homens mais longevos do planeta em registros recentes: um que morreu aos 112 anos e outro que segue vivo aos 113.

Um aspecto destacado pelos pesquisadores é que alguns desses supercentenários permaneciam lúcidos e independentes em atividades básicas da vida diária no momento do contato com a equipe científica. Muitos viveram grande parte da vida em regiões com acesso limitado a serviços de saúde modernos, o que amplia o interesse em investigar fatores de resiliência além de intervenções médicas.

Famílias longevas ajudam a separar genética e ambiente

Casos de longevidade familiar também chamaram a atenção dos pesquisadores. Um dos exemplos citados envolve uma mulher de 110 anos que tem três sobrinhas com idades entre 100 e 106 anos. A mais velha delas, hoje com 106, foi campeã de natação aos 100 anos.

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Segundo o artigo, esse tipo de agrupamento familiar reforça evidências anteriores de que irmãos de centenários têm probabilidade muito maior de também atingir idades extremas. Para os autores, essas famílias oferecem uma oportunidade rara de investigar como fatores genéticos e epigenéticos se combinam na chamada herança poligênica da resiliência.

O que torna os supercentenários biologicamente diferentes?

O artigo reúne descobertas recentes sobre características biológicas associadas à longevidade extrema. Entre elas está a manutenção da atividade do proteassoma em células do sangue, em níveis comparáveis aos de indivíduos muito mais jovens, além de mecanismos de autofagia preservados, que ajudam a eliminar proteínas defeituosas.

Análises de transcriptômica em nível celular também indicaram uma expansão incomum de células T CD4+ citotóxicas, com perfis funcionais normalmente associados a células CD8+. Esse padrão praticamente não aparece em indivíduos mais jovens.

Os autores defendem que o envelhecimento do sistema imunológico em supercentenários não deve ser visto apenas como declínio, mas como um processo de adaptação funcional. O artigo observa ainda diferenças de estilo de vida: ao contrário de uma supercentenária estudada nos Estados Unidos e na Espanha, que seguia dieta mediterrânea, os supercentenários brasileiros relataram ausência de restrições alimentares.

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Sobrevivência à Covid-19 antes das vacinas

Um dos achados mais impressionantes ocorreu durante a pandemia de Covid-19. Três supercentenários brasileiros do grupo estudado sobreviveram à infecção em 2020, antes da disponibilidade de vacinas.

Ilustração de um vírus corporal
Alguns supercentenários brasileiros sobreviveram à infecção da Covid-19 (Imagem: Corona Borealis Studio / Shutterstock.com)

Exames imunológicos mostraram que esses indivíduos desenvolveram altos níveis de anticorpos IgG e neutralizantes contra o SARS-CoV-2, além de proteínas plasmáticas e metabólitos associados à resposta imune inata. Para os pesquisadores, o episódio reforça o papel da resiliência imunológica sistêmica nesse grupo etário extremo.

Brasil no mapa global da longevidade extrema

O artigo destaca que três dos dez homens supercentenários mais longevos do mundo são brasileiros, incluindo o atual recordista vivo. Esse dado ganha relevância porque a longevidade extrema masculina é estatisticamente mais rara, devido a fatores como maior risco cardiovascular e diferenças hormonais e imunológicas.

Entre as mulheres, o Brasil também aparece com destaque: o número de supercentenárias brasileiras entre as 15 mais longevas do mundo supera o de países mais ricos e populosos, como os Estados Unidos.

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Próximos passos da pesquisa

Além do sequenciamento genômico completo, a equipe pretende derivar linhagens celulares de alguns participantes para análises funcionais e estudos multiômicos. O objetivo é identificar variantes protetoras específicas da população brasileira, com potencial impacto em abordagens de medicina de precisão.

O trabalho também prevê colaboração com o grupo da professora Ana Maria Caetano de Faria, da Universidade Federal de Minas Gerais, para aprofundar a análise do perfil imunológico dos participantes.

No artigo, Mayana Zatz faz um apelo direto a consórcios internacionais de genética e longevidade para que ampliem a inclusão de populações miscigenadas ou ofereçam suporte financeiro a estudos conduzidos no Brasil. Para a pesquisadora, diversificar as amostras é essencial para avançar o conhecimento científico e reduzir desigualdades na pesquisa em saúde global.

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Saúde

Obesidade está por trás de 10% das mortes por infecção no mundo – saiba o porquê

Redação Informe 360

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Um estudo divulgado na revista The Lancet aponta que os problemas relacionados à obesidade podem ser ainda mais graves do que se pensava. De acordo com o trabalho, 1 em cada 10 mortes relacionadas a infecções são atribuídas ao excesso de peso.

A doença, que já é considerada uma epidemia nos dias de hoje, pode impactar a resposta imunológica do corpo, tornando as pessoas mais vulneráveis a infecções. Cientistas de diversas partes do mundo estão investigando essa conexão e buscando entender as razões por trás desse fenômeno alarmante.

Trabalho pode ajudar a reduzir número de mortes

Estudos anteriores já mostraram que indivíduos com obesidade tendem a desenvolver complicações mais graves quando contaminados por vírus e bactérias. Agora, com essa nova pesquisa, a preocupação aumenta, buscando soluções que possam ajudar a mitigar esses riscos.

Uma das teorias que está ganhando força sugere que a inflamação crônica associada à obesidade pode prejudicar a eficácia do sistema imunológico. Essa condição cria um ambiente no corpo que pode favorecer a proliferação de infecções.

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obesidade

Excesso de peso pode prejudicar resposta imunológica do organismo (Imagem: grinvalds/iStock)

Portanto, entender essa dinâmica é crucial para criar estratégias de saúde pública que ajudem a prevenir complicações relacionadas à obesidade.

Além disso, os pesquisadores estão se perguntando se as vacinas têm a mesma eficácia em indivíduos com excesso de peso. Essa dúvida é ainda mais pertinente considerando o contexto atual, onde a vacinação se tornou uma prioridade global.

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Desafio global

  • A ligação entre obesidade e mortes por infecções representa um desafio significativo para a saúde global.
  • À medida que os cientistas continuam a desvendar os mecanismos por trás dessa relação, novas informações podem surgir.
  • E estes dados são considerados fundamentais para possibilitar intervenções mais eficazes para proteger os grupos mais vulneráveis.
  • Para isso, no entanto, novos estudos são necessários.

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Saúde

Remédio que dispensa jejum é mais potente que semaglutida oral, diz estudo na Lancet

Redação Informe 360

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Um novo medicamento experimental chamado orforgliprona, da Eli Lilly, demonstrou resultados significativos para adultos que enfrentam a obesidade e o diabetes tipo 2. Em testes que duraram 72 semanas, os pacientes que utilizaram a substância conseguiram reduzir o peso corporal em até 9,6%.

Os dados, publicados na revista científica The Lancet, mostram que o remédio foi muito mais eficiente que o placebo. A grande vantagem prática é que se trata de uma pílula oral que não exige restrições de horário para comer ou beber água, o que torna o tratamento muito mais simples de seguir no dia a dia. 

Além de emagrecer, o medicamento, que pertence à classe dos agonistas do receptor de GLP-1, ajudou a controlar o açúcar no sangue e melhorou indicadores da saúde do coração.

Orforgliprona supera semaglutida oral no controle do diabetes

Um estudo, chamado ACHIEVE-3, comparou diretamente o novo fármaco com a semaglutida oral (famosa versão em comprimido de tratamentos para diabetes) em 1.698 adultos. Durante um ano, os participantes tomaram doses diárias de 12 mg ou 36 mg de orforgliprona, ou doses de 7 mg ou 14 mg de semaglutida, sempre acompanhados de mudanças no estilo de vida.

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Durante um ano, os participantes tomaram doses diárias de orforgliprona ou de semaglutida (Imagem: brizmaker/Shutterstock)

Os números mostram uma vantagem clara: a dose de 36 mg da orforgliprona promoveu uma perda de peso de 8,9 kg, enquanto a semaglutida de 14 mg ficou em 5 kg. Isso significa que o medicamento experimental foi 73,6% mais potente para emagrecer do que o concorrente já disponível no mercado. No controle da glicose, a orforgliprona também venceu, reduzindo a hemoglobina glicada em 2,2%, contra 1,4% da semaglutida.

No entanto, o tratamento exige atenção aos efeitos colaterais. Assim como outros remédios da mesma família, a orforgliprona causa náuseas, diarreia e vômitos, principalmente no início do ajuste das doses. Um ponto de alerta é que o número de pessoas que desistiram do tratamento por não suportarem esses efeitos foi maior no novo medicamento (entre 8,7% e 9,7%) do que na semaglutida (cerca de 4,5% a 4,9%).

Apesar do desconforto gástrico, a substância trouxe melhorias no colesterol e na pressão arterial dos voluntários. Quanto à segurança, as mortes registradas durante os testes globais não tiveram relação comprovada com o uso do remédio. A fabricante Eli Lilly agora aguarda a decisão do FDA, a Anvisa dos Estados Unidos, para liberar o uso contra a obesidade no próximo trimestre. O pedido para o tratamento específico de diabetes tipo 2 deve ficar para o fim de 2026.

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Saúde

Cientistas criam polímero que “descarta” proteínas do câncer

Redação Informe 360

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Pesquisadores da Universidade Northwestern, nos Estados Unidos, desenvolveram uma estratégia para eliminar proteínas associadas ao câncer que resistem às abordagens tradicionais de tratamento. Em vez de tentar bloquear sua atividade, a proposta é direcioná-las ao sistema interno de descarte das células, promovendo sua degradação e, como consequência, a morte das células tumorais.

O estudo foi publicado nesta terça-feira (24) na revista científica Nature Communications. A pesquisa apresenta uma nova classe de polímeros semelhantes a proteínas, chamados de PLPs, capazes de capturar proteínas cancerígenas e conduzi-las à maquinaria celular responsável por degradá-las.

Nova abordagem mira proteínas “indrogáveis”

Como prova de conceito, os cientistas testaram uma classe específica desses polímeros, denominada HYDRACs (HYbrid DegRAding Copolymers), contra duas proteínas consideradas especialmente difíceis de atingir: MYC e KRAS. Ambas estão associadas ao crescimento descontrolado de diversos tipos de câncer e, apesar de décadas de esforços, continuam resistentes à maioria das terapias disponíveis, incluindo pequenas moléculas e anticorpos.

Em culturas celulares, os HYDRACs localizaram e degradaram seletivamente as proteínas MYC e KRAS em diferentes linhagens de células cancerígenas. Em modelos animais com tumores impulsionados por MYC, os polímeros se acumularam nas massas tumorais, reduziram a proliferação celular e interromperam o crescimento do tumor.

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Os HYDRACs são polímeros projetados para se ligar a proteínas associadas ao câncer e levá-las ao sistema de degradação celular, acionando sua destruição por meio do proteassoma após marcação com ubiquitina (Imagem: Wang et al. / Nature Communications)

Segundo Nathan Gianneschi, que liderou o estudo na Northwestern, MYC e KRAS estão presentes em uma grande parcela dos cânceres humanos, frequentemente nos mais agressivos, e as opções terapêuticas eficazes ainda são limitadas. Ele afirma que a equipe desenvolveu uma solução baseada em química de polímeros capaz de conectar proteínas desordenadas ao sistema celular que as degrada, algo que não havia sido demonstrado antes nesses alvos.

Como funcionam os HYDRACs

Diferentemente de terapias que bloqueiam a função de uma proteína, os HYDRACs integram a classe dos degradadores de proteínas direcionados. Em vez de inibir, eles marcam a proteína para destruição. Enquanto degradadores convencionais dependem de pequenas moléculas, cuja eficácia é limitada quando a proteína não possui bolsões de ligação bem definidos, os HYDRACs adotam outra estratégia.

Cada polímero apresenta múltiplas cópias de peptídeos que reconhecem a proteína-alvo e sinais moleculares que recrutam a maquinaria de degradação da célula. De acordo com Gianneschi, o mecanismo funciona como se o polímero tivesse “duas mãos”: uma se liga à proteína e a outra ao sistema de descarte celular, aproximando ambos.

No caso da proteína KRAS, presente em cerca de 25% dos cânceres humanos, incluindo tumores pancreáticos e colorretais, os HYDRACs degradaram diferentes variantes mutadas em células cancerígenas. Os pesquisadores destacam que, como a estratégia elimina a proteína inteira, mutações que normalmente conferem resistência a medicamentos tendem a ter menos impacto.

Camundongos portadores de tumores Luc-MV4-11 receberam injeção de HYDRACs marcados com Cy5.5 e foram monitorados por IVIS ao longo de 72 horas. Os tumores e os HYDRACs foram acompanhados por luminescência e fluorescência (Imagem: Wang et al. / Nature Communications)

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Próximos passos

Embora o foco inicial tenha sido o câncer, a equipe planeja adaptar a tecnologia para proteínas relacionadas a doenças neurodegenerativas, inflamatórias e metabólicas. A empresa derivada da universidade, Grove Biopharma, licenciou a propriedade intelectual e trabalha no avanço da plataforma denominada Bionic Biologics, com o objetivo de acelerar o desenvolvimento terapêutico.

O estudo, intitulado “Heterobifunctional proteomimetic polymers for targeted degradation of MYC and KRAS”, recebeu apoio do Willens Center for Nano Oncology, do International Institute of Nanotechnology e do Liz and Eric Lefkofsky Innovation Research Award.

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