Saúde
Covid-19: mudança de previsão e isolamento por mais 3 meses; vírus até julho

O secretário de vigilância em saúde do Ministério da Saúde, Wanderson de Oliveira, disse que ainda não há informações disponíveis para afirmar quando, efetivamente, ocorrerá o pico dos casos de contaminação e mortes pela covid-19 nos cinco Estados mais afetados pela doença no País: São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará, Pernambuco e Amazonas.
Questionado pelo assunto, Oliveira disse que a curva de crescimento de casos aponta que o comportamento do vírus tem variado entre esses Estados e que a única informação que pode garantir hoje é que o período mais crítico da doença será conhecido entre maio, junho e julho.
“Quando nós avaliamos o número de óbito, é uma conclusão de duas, três semanas atrás. A situação no Amazonas, Ceará e Pernambuco seguem uma tendência de padrão muito similar, de doenças respiratórias nessas regiões”, disse Oliveira. São Paulo e Rio já apresentam padrões mais distintos. Não posso dizer quando seria o pico da pandemia”, comentou.
Até março, o Ministério da Saúde afirmava para o País se preparar para um pico da doença entre o fim de abril e início de maio. O fato é que esse período chegou e os casos e mortes estão em franco crescimento. Estados como Maranhão e Pará, que não figuram entre os cinco mais afetados, estão com medidas de fechamento total (lockdown) em andamento. Os Estados mais afetados estão ampliando suas medidas de restrição de circulação de pessoas.
“Ainda não dá pra dizer quando chegaria o pico da crise. O isolamento social reduz a curva de casos. Ainda não sabemos em que data exata isso ocorrerá. O que posso dizer é que será entre maio, junho e julho, não tenho duvida”, disse. Fonte: Terra
Saúde
Dia D de vacinação é realizado neste sábado em todo o país

Crianças e adolescentes menores de 15 anos devem comparecer a uma unidade básica de saúde (UBS) ou a qualquer ponto de vacinação em todo o país neste sábado (22) para o Dia D da Campanha de Multivacinação. O objetivo é atualizar a caderneta vacinal.![]()
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Em pronunciamento em cadeia nacional de rádio e televisão nesta sexta-feira (21), o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, convocou as famílias a participarem da campanha.
“O Brasil tem unido forças para recuperar as coberturas vacinais do calendário infantil”, disse o ministro.
Pela primeira vez, a campanha conta com a vacina pneumocócica 20-valente (pneumo 20), que amplia a proteção contra doenças causadas pelo pneumococo, incluindo pneumonias e meningites. O imunizante é indicado para crianças menores de 5 anos.
Quais vacinas estarão disponíveis na campanha?
Durante o Dia D, as seguintes vacinas poderão ser aplicadas (conforme faixa etária, histórico vacinal e indicação):
- BCG;
- hepatite B;
- penta (DTP/Hib/HB);
- poliomielite (VIP);
- rotavírus humano;
- pneumocócica conjugada 10-valente e 20-valente;
- meningocócica C;
- influenza;
- covid-19;
- febre amarela;
- meningocócica ACWY;
- tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola);
- varicela;
- DTP;
- hepatite A;
- dT;
- HPV4;
- dengue tetravalente.
Sarampo
Diante do aumento de casos de sarampo na Região das Américas e do registro de casos importados no Brasil, o ministério mantém a estratégia de vacinação indiscriminada contra a doença para pessoas de 6 meses a 59 anos em Guarulhos (SP), em São Bernardo do Campo (SP) e na capital paulista.
O ministro destacou que o Brasil tem registrado casos da doença vindos de outros países e alertou para a necessidade de manter a vigilância.
“Por isso, toda a atenção das famílias e do SUS é necessária para impedir que o sarampo volte a circular no Brasil”, afirmou Padilha.
Dados da pasta mostram que, de 3 a 14 de agosto, mais de 529,8 mil doses da vacina tríplice viral foram aplicadas nos três municípios. Desse total, 87,2 mil doses foram destinadas a crianças de 5 a 11 anos – o equivalente a 16,5% das aplicações.
Balanço
A campanha começou no início do mês e segue até 1º de setembro, com a oferta de 20 doses do Calendário Nacional de Vacinação que protegem contra doenças como meningites, tuberculose e cânceres associados à infecção pelo HPV.
Até a última quarta-feira (18), o Ministério da Saúde havia distribuído mais de 180 milhões de doses para garantir a vacinação em todo o país ao longo do ano. Vacinas contra a influenza, o sarampo (tríplice viral) e a poliomielite foram as mais aplicadas.
Ao convocar a população para o Dia D, Padilha também alertou para os riscos da desinformação sobre vacinas.
“Não deixem que as notícias falsas coloquem em risco a saúde das nossas crianças”, finalizou.
Agencia Brasil
Saúde
IA descobre doenças antes dos médicos? Saiba onde a tecnologia funciona

A inteligência artificial (IA) ajuda a organizar dados e arquivos em hospitais. Mas também atua na prevenção de doenças. Entre as frentes da medicina nas quais essa tecnologia funciona, estão: análise de exames de imagem e o cruzamento de dados em prontuários eletrônicos.
O principal benefício é o ganho de tempo. Identificar alterações invisíveis ao olho humano e antecipar riscos horas antes dos primeiros sintomas, por exemplo, ajuda médicos a agirem de forma preventiva. Essa agilidade é o fator que pode evitar sequelas e salvar vidas.
A janela ocular e o rastreio de doenças invisíveis
A oftalmologia é uma das áreas da medicina onde o uso prático da inteligência artificial está mais avançado. Em exames de retinografia, que fotografam o fundo do olho, os programas conseguem analisar as imagens em menos de um minuto, sem a necessidade de um médico presente na sala.
Na atenção primária à saúde, a ferramenta funciona como uma triagem automática que separa os exames sem alterações daqueles que apresentam sinais de lesões graves, como a retinopatia diabética.
Em entrevista ao Olhar Digital, a médica oftalmologista Marina Crespo Soares, especialista em retina pela Unicamp, explica que essa automação transforma o modelo de atendimento numa estratégia preventiva.
Ao analisar milhares de fotos de forma rápida e padronizada, o sistema identifica os pacientes de maior risco que precisam de atendimento prioritário. Essa organização da fila reduz o tempo de espera e evita a perda da visão, sobretudo em regiões com escassez de especialistas.

O avanço desse rastreamento digital tem respaldo de entidades médicas e pesquisas científicas feitas mundo afora. Relatórios da Academia Americana de Oftalmologia, por exemplo, apontam que softwares autorizados pela FDA (a Anvisa dos EUA) identificam a retinopatia diabética com taxas de sensibilidade que variam entre 92% e 96%.
Além disso, um estudo publicado na revista Nature, conduzido por pesquisadores do Google, mostrou que sistemas de IA conseguem analisar históricos e exames para auxiliar médicos em decisões complexas durante a investigação de doenças.
Apesar da alta precisão matemática, reconhecer uma marca na foto da retina não é o mesmo que fechar um diagnóstico. A doutora Soares pondera que definir o tratamento exige interpretar a história clínica do paciente, pedir exames complementares e considerar a realidade social do indivíduo.
Certamente, o limite entre a inteligência artificial e o especialista não é uma fronteira fixa, mas uma linha em movimento: enquanto a tecnologia amplia a capacidade de enxergar, permanece humana a responsabilidade de compreender e decidir.
Doutora Marina Crespo Soares, médica oftalmologista pela Unicamp, em entrevista ao Olhar Digital.
Ou seja: em vez de substituir o profissional, a tecnologia atua como uma ferramenta para reduzir a carga analítica repetitiva. Ao processar os dados iniciais e organizar as prioridades, a IA libera tempo para o especialista focar na consulta, na escuta e no cuidado direto com o paciente.
Assim, o fluxo de atendimento ganha velocidade, enquanto a decisão final permanece sob o controle humano.
Da UTI às fronteiras do julgamento humano
Enquanto a visão computacional analisa exames de imagem, o processamento de dados atua nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) varrendo prontuários em tempo real.
Em entrevista ao Olhar Digital, o médico cardiologista e intensivista Sergio Naves explica que os sistemas hospitalares acumulam históricos, frequências cardíacas e pressões arteriais o tempo todo. Mas esses arquivos acabavam parados no computador sem uso prático.
Com a entrada de algoritmos treinados para cruzar essas tabelas de informações, a instituição passa a transformar dados brutos em alertas preventivos. Essa capacidade de leitura contínua permite antecipar complicações graves antes de sintomas ficarem visíveis na beira do leito.
“Já existem algoritmos que detectam sepse seis horas antes e a instabilidade hemodinâmica de cinco a 15 minutos antes dos sinais clínicos convencionais”, diz o médico da Unicamp.

No entanto, o uso da IA no ambiente hospitalar ainda enfrenta gargalos. O especialista alerta que modelos com baixa precisão ou com calibração inadequada para a população atendida geram altas taxas de alarmes falsos.
Um artigo publicado na revista científica BMJ Innovations confirma esse risco. E aponta que disparos incorretos e repetitivos do sistema sobrecarregam os profissionais de saúde. Isso gera a chamada “fadiga de alertas”, que pode fazer a equipe ignorar emergências reais.
Além das falhas de calibragem, existem tarefas médicas que os programas de computador não conseguem executar. O algoritmo calcula a probabilidade matemática de um problema acontecer, mas não descobre a causa exata da doença nem faz a síntese do diagnóstico.
Ponderar riscos no estado do paciente e decidir qual remédio ou procedimento aplicar continua a exigir o raciocínio, a experiência e a presença do profissional da saúde na beira do leito.
A fronteira entre o código e a medicina fica ainda mais evidente diante de escolhas éticas e humanas. Naves ressalta que a IA não possui capacidade para conduzir decisões delicadas de fim de vida, tampouco pode responder legalmente pelo tratamento.
O modelo ideal seria uma parceria entre a inteligência artificial, que analisa dados, e o julgamento clínico, porque este envolve ética e o aspecto humano da relação entre médico e paciente.
Doutor Sergio Naves, médico cardiologista e intensivista, em entrevista ao Olhar Digital.
Seja no fundo do olho ou no leito da UTI, a inteligência artificial se consolida como um poderoso filtro de dados. Ela acelera a prevenção e aponta perigos ocultos, mas deixa a decisão final, a ética e o cuidado integral onde eles sempre deveriam estar: no olhar humano do médico.
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Saúde
Por que alguns tipos de câncer estão aumentando entre adultos mais jovens

Alguns tipos de câncer, tradicionalmente mais associados a pessoas mais velhas, estão sendo diagnosticados com maior frequência em adultos jovens em diferentes países. O fenômeno aparece com mais clareza em tumores como colorretal e mama, mas não significa que todos os cânceres estejam aumentando nessa população.
A explicação também não parece estar em um único fator. Pesquisadores investigam uma combinação de predisposição individual, condições metabólicas, hábitos, exposições ambientais e fatores que podem atuar desde fases anteriores da vida.
Na literatura científica, “câncer de início precoce” costuma designar tumores diagnosticados antes dos 50 anos, embora os estudos usem diferentes subdivisões de idade. Uma das análises mais abrangentes sobre o tema foi publicada em 2025 por pesquisadores do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos (NCI), que analisaram 33 tipos de câncer.
O estudo encontrou aumento da incidência de 14 deles em pelo menos uma das faixas etárias abaixo dos 50 anos entre 2010 e 2019. Ao mesmo tempo, 19 tipos apresentaram queda entre os mais jovens. Considerando todos os cânceres em conjunto, a taxa de incidência não aumentou entre pessoas abaixo dos 50 anos. A mortalidade por todos os cânceres também não apresentou crescimento entre as faixas etárias jovens analisadas.
Os maiores aumentos absolutos de casos de início precoce nos Estados Unidos foram registrados para câncer de mama feminino, colorretal, rim e útero. Em 2019, os pesquisadores estimaram cerca de 4.834 casos adicionais de câncer de mama, 2.099 de colorretal, 1.793 de rim e 1.209 de útero em comparação com o número esperado caso as taxas de 2010 tivessem permanecido estáveis.
O estudo também encontrou aumento de melanoma, câncer do colo do útero, estômago, mieloma e tumores de ossos e articulações em pelo menos uma faixa etária jovem. Nove dos 14 tipos que aumentaram entre pessoas mais jovens também apresentaram crescimento em pelo menos um grupo etário mais velho.
Outros cinco — melanoma, câncer do colo do útero, estômago, mieloma e câncer de ossos e articulações — tiveram aumento em alguma faixa jovem, mas não entre os grupos mais velhos analisados. Segundo os pesquisadores do NCI, as causas provavelmente são específicas de cada tipo de câncer e podem envolver fatores de risco que se tornaram mais comuns em idades mais jovens, mudanças no rastreamento ou na detecção e alterações na classificação ou no diagnóstico.

Colorretal é um dos casos mais bem documentados
Entre os tumores que chamam atenção, o câncer colorretal é provavelmente o exemplo mais consistente de aumento em adultos jovens. Uma análise publicada no The Lancet Oncology avaliou dados de 50 países e territórios e encontrou aumento da incidência entre pessoas de 25 a 49 anos em 27 deles.
Em 20 desses locais, o crescimento entre os jovens foi exclusivo dessa faixa etária ou aconteceu em ritmo mais rápido do que entre os adultos mais velhos. Em 23 dos 50 países e territórios, a tendência recente ficou estável.
“O câncer colorretal é provavelmente um dos exemplos mais bem documentados desse aumento de câncer entre adultos jovens”, afirma Maria Ignez Braghiroli, oncologista especializada em câncer colorretal da Oncologia D’Or de São Paulo.
Historicamente, segundo a médica, a doença é muito mais frequente depois dos 50 anos. Ainda assim, ela chama atenção para uma mudança na curva entre os mais jovens: “O risco absoluto continua sendo maior em pessoas mais velhas, e o número total de casos também é maior nessa população. O que chama a atenção nos jovens é a mudança da curva e a velocidade do crescimento.”
O padrão de diferentes gerações também chamou a atenção dos pesquisadores. Um estudo publicado no JNCI Cancer Spectrum, com dados de 35 países, encontrou evidências de efeito de coorte de nascimento em várias populações. Quando pessoas nascidas em décadas diferentes apresentam riscos diferentes ao chegar à mesma idade, pesquisadores podem investigar se alguma característica da experiência dessas gerações — como alimentação, condições metabólicas ou exposições ambientais — influenciou o risco ao longo da vida.
O efeito de coorte, por si só, não identifica qual exposição seria responsável. Ele indica que as diferenças entre gerações podem estar relacionadas a algo que mudou ao longo da vida dessas populações.
Fatores conhecidos explicam apenas parte
Entre os fatores associados ao câncer colorretal estão histórico familiar e síndromes hereditárias, além de obesidade, alterações metabólicas, consumo de álcool e determinados padrões alimentares. Estudos também apontam relações com sedentarismo e outras características do estilo de vida.
A obesidade é uma das associações investigadas. Em um estudo com mais de 85 mil mulheres, aquelas com obesidade apresentaram quase o dobro do risco de desenvolver câncer colorretal antes dos 50 anos em comparação com mulheres de peso considerado adequado. O estudo identificou uma associação entre o excesso de peso e o risco, mas não permite concluir que a obesidade seja, sozinha, responsável pelo aumento populacional do câncer colorretal precoce.
A alimentação também aparece nas pesquisas. Maria Ignez Braghiroli cita estudos que relacionam dietas com pouca fibra e maior participação de alimentos altamente processados, carnes processadas e bebidas açucaradas ao risco de câncer colorretal. Ela também menciona pesquisas que encontraram associação entre o consumo de bebidas adoçadas durante a adolescência e maior risco posterior da doença.
Mas a médica ressalta que não é possível transformar esses fatores em uma explicação única. “Esses fatores explicam apenas parte do fenômeno”, afirma.
Segundo ela, pacientes jovens, fisicamente ativos, sem obesidade, histórico familiar ou síndrome genética conhecida também desenvolvem a doença. “Portanto, provavelmente estamos diante de uma combinação de exposições.”
Entre as possibilidades investigadas estão metabolismo, microbioma intestinal, uso de determinados medicamentos, exposições ambientais e fatores que podem começar a atuar muito cedo na vida.
O risco pode começar a ser construído muito antes do diagnóstico
Uma das hipóteses que ganhou força é a de que algumas exposições relevantes para o desenvolvimento do câncer aconteçam durante a infância ou adolescência, muito antes de aparecerem os primeiros sintomas.
No câncer colorretal, estudos associaram excesso de peso no fim da adolescência ou início da vida adulta a maior risco posterior. Também foram encontradas associações entre maior consumo de bebidas açucaradas durante a adolescência e câncer colorretal antes dos 50 anos.
Esses resultados não provam, isoladamente, que uma exposição específica seja responsável pelo aumento dos casos. Eles ajudam, porém, a indicar períodos da vida que podem ser importantes para a formação do risco.
O microbioma intestinal é uma das frentes mais recentes dessa pesquisa. Algumas cepas de Escherichia coli presentes no intestino produzem colibactina, uma substância capaz de provocar danos no DNA.
Em um estudo publicado em 2025 na Nature, pesquisadores analisaram 981 genomas de tumores colorretais de 11 países, incluindo o Brasil. As assinaturas mutacionais associadas à colibactina foram 3,3 vezes mais comuns em tumores diagnosticados antes dos 40 anos do que naqueles diagnosticados depois dos 70.
O resultado é uma pista particularmente interessante porque não se limita a uma associação estatística entre um comportamento e o câncer. Os pesquisadores encontraram no genoma dos tumores uma assinatura compatível com um processo mutagênico específico.
O trabalho sugere que exposições a bactérias produtoras de colibactina no início da vida podem contribuir para a incidência de câncer colorretal de início precoce, mas não demonstra que essa exposição seja, sozinha, responsável pelo crescimento dos casos.
Há uma distinção importante: o estudo analisou tumores de pessoas que já desenvolveram câncer e identificou marcas compatíveis com determinados processos mutagênicos. Ele não acompanhou indivíduos desde a infância para demonstrar quando ocorreu a exposição às bactérias produtoras de colibactina.
Por isso, a hipótese de uma exposição precoce é apoiada por evidências moleculares, mas ainda não constitui uma explicação completa para a tendência epidemiológica. Para Braghiroli, essa possibilidade abre uma questão ainda em investigação:
Uma das grandes perguntas atuais é justamente se o câncer que diagnosticamos aos 35 ou 40 anos começou biologicamente muito antes do que imaginávamos.
Maria Ignez Braghiroli, oncologista especializada em câncer colorretal
A pesquisa ainda precisa determinar quais exposições poderiam produzir esse tipo de alteração, em que momento da vida elas seriam mais importantes e como diferentes fatores podem atuar em conjunto.
Mama mostra que o fenômeno não se limita ao intestino
O câncer de mama feminino é outro tumor que aparece entre aqueles com aumento de incidência em determinadas faixas etárias jovens. No estudo do NCI, foi o câncer que apresentou o maior aumento absoluto estimado entre os casos de início precoce nos Estados Unidos, com cerca de 4.834 casos adicionais em 2019 em comparação com o número esperado com base nas taxas de 2010.
Há também evidências brasileiras. Um estudo publicado em 2026 na Revista Brasileira de Cancerologia analisou a incidência de câncer entre pessoas de 20 a 39 anos em duas regiões do estado de São Paulo: o município de São Paulo e a região de Barretos. A pesquisa avaliou dados de incidência de 2002 a 2018 e de mortalidade de 2000 a 2020.
Os resultados foram diferentes entre as duas localidades. Em Barretos, houve aumento significativo da incidência de câncer de mama entre mulheres de 20 a 39 anos, com variação percentual anual de 5,91%, e de câncer do colo do útero, de 8,96%.
Entre homens, a incidência de câncer colorretal aumentou 5,75% ao ano. Em São Paulo, a incidência de câncer de mama aumentou 0,5% ao ano, enquanto o colorretal permaneceu estável entre homens e mulheres.
Os dados mostram por que não é possível afirmar que exista um aumento generalizado de câncer entre adultos jovens em todo o Brasil. O estudo foi realizado em duas localidades específicas e encontrou comportamentos diferentes entre elas. Os resultados apontam tendências para alguns tumores que merecem investigação, mas não podem ser extrapolados diretamente para o país inteiro.
No caso do câncer de mama, uma explicação baseada apenas no aumento do rastreamento também tem limitações.
“A gente já tem vários dados mostrando o aumento da incidência nas mulheres jovens”, afirma Laura Testa, médica especializada em câncer de mama da Oncologia D’Or de São Paulo. Segundo ela, estudos de diferentes centros brasileiros identificaram aumento tanto entre mulheres de 40 a 50 anos quanto entre aquelas com menos de 40.
A faixa abaixo dos 40 anos não é alvo do rastreamento mamográfico populacional. No Brasil, o Ministério da Saúde recomenda rastreamento mamográfico a cada dois anos para mulheres de 50 a 74 anos. Mulheres de 40 a 49 anos podem realizar o exame por demanda, após orientação sobre benefícios e riscos, mas essa faixa não faz parte do programa de rastreamento populacional sistemático.
Por isso, a ampliação do acesso à mamografia para mulheres de 40 a 49 anos, por si só, não parece suficiente para explicar tendências anteriores ou o aumento observado entre mulheres abaixo dos 40 anos.
Fatores de risco conhecidos não fecham a conta
O câncer de mama tem fatores de risco conhecidos, entre eles características reprodutivas, obesidade, sedentarismo e consumo de álcool. Mas a força dessas associações varia conforme a idade.
Testa explica que obesidade e sedentarismo são fatores de risco bem estabelecidos para câncer de mama, especialmente após a menopausa. Para as pacientes mais jovens, porém, não existe a mesma clareza sobre quanto esses fatores contribuem especificamente para o aumento observado nessa faixa etária. Já o álcool apresenta uma associação mais consistente.
O consumo de álcool aumenta o risco de câncer de mama em todas as idades, quanto maior o consumo, maior o risco.
Laura Testa, médica especializada em câncer de mama
Outra possibilidade investigada é a exposição, desde a infância, a diferentes substâncias potencialmente carcinogênicas. Testa cita agrotóxicos e plásticos, mas faz uma ressalva importante sobre o nível de evidência: “A gente entende que isso é potencialmente nocivo, mas a gente não tem uma comprovação científica que eles estão atrelados a esse aumento.”
A especialista também destaca que a proporção de mulheres jovens com alterações hereditárias é maior, mas que mesmo nesse grupo a maioria dos casos não apresenta uma alteração genética que explique o diagnóstico.
A genética aumenta o risco de alguns indivíduos, mas não explica o aumento populacional
Quando um câncer aparece muito cedo, a possibilidade de predisposição hereditária passa a receber mais atenção. Idade jovem ao diagnóstico é um dos sinais que podem levar à investigação genética, assim como múltiplos tumores na mesma pessoa, repetição de determinados tipos de câncer entre familiares e algumas combinações específicas de tumores na família.

Rodrigo Guindalini, coordenador da Oncogenética da Oncologia D’Or e do relacionamento médico da Patologia Molecular da Rede D’Or, explica que a proporção de casos hereditários é maior entre pacientes jovens.
No câncer de mama, por exemplo, ele estima que a chance de um caso ser hereditário seja de cerca de 10% quando o diagnóstico ocorre por volta dos 55 anos. Quando a paciente tem 30 ou 35 anos, essa proporção sobe para aproximadamente 25%.
Isso significa que os casos hereditários ficam proporcionalmente mais concentrados entre pacientes jovens, e não que estejam aumentando na população.
Isso não quer dizer que os casos de cânceres hereditários estão aumentando. Isso é um erro que a gente não pode cometer na informação da população.
Rodrigo Guindalini, especialista em Oncogenética e Oncologia Clínica
Entre as síndromes hereditárias relevantes estão a síndrome de câncer de mama e ovário associada a alterações nos genes BRCA1 e BRCA2, a síndrome de Lynch e a síndrome de Li-Fraumeni, ligada ao gene TP53.
Guindalini também ressalta que fatores hereditários não conseguem, sozinhos, explicar o aumento populacional observado. “A causa de predisposição genética não consegue justificar isoladamente o aumento de risco significativo de casos em adultos jovens.”
No câncer colorretal, a literatura mostra que síndromes hereditárias e histórico familiar são importantes fatores de risco para casos de início precoce, mas a maioria desses tumores é considerada esporádica, sem uma predisposição hereditária conhecida capaz de explicar o diagnóstico.
O próprio tumor pode revelar pistas
A genética também entra na história de outra maneira. Cada tumor acumula alterações no DNA ao longo de seu desenvolvimento, e estudos genômicos indicam que alguns cânceres diagnosticados em pessoas jovens podem apresentar características moleculares diferentes daqueles encontrados em pacientes mais velhos.
Segundo Rodrigo Guindalini, pacientes jovens podem apresentar menor carga mutacional tumoral global e diferenças na frequência das chamadas mutações driver, alterações que ajudam a conduzir o desenvolvimento do câncer.
Em sua avaliação, essas diferenças indicam que tumores do mesmo tipo podem apresentar características biológicas distintas conforme a idade do paciente.
“Parece que sim. Há uma diferença genômica entre esses tumores, e isso vem sendo cada vez mais identificado nos estudos de coortes de jovens e idosos.”
Isso não significa que exista uma característica molecular única de todos os cânceres de início precoce. As diferenças dependem do tipo de tumor. Mas elas podem ajudar pesquisadores a investigar por que determinadas doenças surgem antes do esperado e quais processos biológicos estão envolvidos.
No câncer colorretal, por exemplo, o estudo publicado na Nature encontrou diferentes padrões de mutação conforme idade e localização geográfica. Algumas assinaturas ainda têm causa desconhecida, enquanto as associadas à colibactina foram mais frequentes em tumores de pacientes jovens.
Incidência maior não significa necessariamente mais câncer em geral
Há ainda uma distinção importante entre aumento da incidência de determinados tumores e aumento da ocorrência de câncer de maneira geral.
O estudo do NCI encontrou crescimento de 14 tipos de câncer em pelo menos uma faixa etária abaixo dos 50 anos, mas queda em 19 outros. No conjunto, a incidência de todos os cânceres não aumentou entre os mais jovens. A mortalidade por todos os cânceres também não apresentou crescimento significativo nas faixas jovens analisadas.
Para alguns tumores, porém, a situação é diferente. Os pesquisadores observaram aumento da mortalidade por câncer colorretal e uterino em determinadas faixas etárias jovens. No caso do colorretal, isso acrescenta uma preocupação que não pode ser explicada simplesmente por mais diagnósticos.
Ainda assim, mudanças na detecção podem contribuir para algumas tendências. O NCI cita alterações nas recomendações de rastreamento, avanços em exames, maior vigilância de pessoas de alto risco e mudanças na classificação ou no diagnóstico como possíveis fatores que precisam ser considerados para cada tumor.
A questão, portanto, não é escolher entre “há mais câncer” e “estamos apenas diagnosticando mais”. Dependendo do tumor e da faixa etária, as duas coisas podem contribuir em proporções diferentes.
Afinal, por que alguns cânceres estão aparecendo mais cedo?
As evidências disponíveis apontam para uma explicação multifatorial, mas com diferenças importantes entre os tipos de câncer.
No colorretal, existe uma tendência internacional bem documentada de aumento entre adultos jovens. Obesidade, alterações metabólicas, álcool, alimentação e sedentarismo estão associados ao risco, mas não explicam todos os casos. O efeito de coorte sugere que mudanças nas exposições ao longo da vida podem ter participação, enquanto estudos genômicos sobre colibactina oferecem uma pista molecular sobre como exposições a bactérias produtoras dessa substância podem deixar marcas no DNA de tumores diagnosticados décadas depois.
No câncer de mama, há evidências de aumento entre mulheres jovens em diferentes populações e também sinais no Brasil, mas os fatores de risco conhecidos não explicam claramente a mudança observada nessa faixa etária. Álcool, características reprodutivas, fatores metabólicos e predisposição genética influenciam o risco individual, enquanto o papel de determinadas exposições ambientais ao longo da vida ainda está sendo estudado.
A genética ajuda a explicar uma parte dos casos, principalmente quando existe uma síndrome hereditária, mas não explica o aumento populacional. Mudanças na detecção também podem influenciar as estatísticas, embora não pareçam suficientes para explicar todas as tendências observadas, especialmente quando o aumento aparece em populações fora das faixas tradicionais de rastreamento ou quando a mortalidade também cresce.
A resposta mais consistente disponível hoje, portanto, não aponta para uma causa única. Alguns fatores que aumentam o risco de câncer já são conhecidos, mas eles não explicam sozinhos por que determinados tumores passaram a aparecer com maior frequência em pessoas mais jovens.
As evidências mais recentes apontam para uma combinação de predisposição individual e exposições acumuladas ao longo da vida, incluindo fatores metabólicos, comportamentais e ambientais. O peso de cada elemento parece variar conforme o tipo de câncer, e identificar essa combinação é uma das principais questões ainda abertas na pesquisa sobre câncer de início precoce.
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