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Saúde

O que acontece se você comer mais proteína do que o recomendado?

Redação Informe 360

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A proteína é um dos nutrientes mais falados quando o assunto é alimentação saudável, principalmente por aqueles que buscam aumentar massa muscular, emagrecer ou ter mais disposição no dia a dia.

Ela é essencial para a construção e reparação dos tecidos, produção de hormônios e fortalecimento do sistema imunológico. Porém, ainda que seu papel seja indispensável, o consumo exagerado pode causar problemas, e não trazer apenas benefícios como muitos acreditam.

Diferente de carboidratos e gorduras, que o corpo consegue armazenar em forma de glicogênio ou tecido adiposo, a proteína não tem uma “reserva” específica. Isso significa que, quando ingerida em excesso, ela precisa ser transformada ou eliminada, o que pode sobrecarregar órgãos como fígado e rins.

Além disso, o consumo elevado de proteína, principalmente de origem animal, pode vir acompanhado de gorduras saturadas, colesterol e até aditivos prejudiciais, dependendo da fonte.

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Sendo assim, entender qual é a quantidade certa de proteína para o seu corpo, e o que acontece quando passamos desse limite, é fundamental para manter a saúde em equilíbrio. Na matéria abaixo, explicamos como a proteína funciona, quais são os riscos do consumo exagerado, os impactos que isso pode trazer a longo prazo e como evitar esses problemas. Veja!

ilustração com diversos tipos de carnes, vegetais, laticinios
As proteínas são compostas por aminoácidos, que são como “tijolos” usados pelo corpo para formar músculos, órgãos, tecidos, produzir enzimas e hormônios. (Imagem: macrovector/Freepik)

O que acontece com quem come mais proteína do que o recomendado?

As proteínas são compostas por aminoácidos, que são como “tijolos” usados pelo corpo para formar músculos, órgãos, tecidos, produzir enzimas e hormônios. Sem proteína suficiente, o corpo não consegue regenerar seus músculos ou sustentar processos vitais.

Fontes animais como carnes, ovos e leite, e vegetais, como leguminosas, grãos, oleaginosas, fornecem diferentes perfis de aminoácidos, fibras e nutrientes auxiliares.

Quando consumimos proteína, ela é digerida no trato gastrointestinal, quebrada em aminoácidos, absorvida e usada pelas células conforme a necessidade do corpo, que não armazena proteína em excesso como “reserva” da mesma forma que faz com carboidratos ou gorduras. Então, quando o consumo excede a demanda, algo precisa ser feito com o excedente.

Esse excedente pode ser usado como fonte de energia, se transformando em glicose ou gordura, ou eliminado como resíduos nitrogenados, como ureia, que vão para os rins para serem excretados pela urina. Esse processo acaba exigindo trabalho adicional dos rins, do fígado e do sistema metabólico.

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Além disso, o tipo de proteína que você consome importa bastante, já que as de origem animal costumam vir junto de gordura saturada e colesterol, enquanto proteínas vegetais têm fibras, antioxidantes e perfil mais “suave” para o corpo.

mesa com salmão, peito de frango, queijos, cogumelos e outros alimentos que possuem proteina
Se alguém ingere mais proteína do que seu corpo consegue usar de forma saudável, ultrapassando cerca de 2g por kg de peso corporal para uma pessoa saudável, por exemplo, surgem os riscos. (Imagem: freepik/Freepik)

O que é proteína demais?

Se alguém ingere mais proteína do que seu corpo consegue usar de forma saudável, ultrapassando cerca de 2g por kg de peso corporal para uma pessoa saudável, por exemplo, surgem os riscos. Um dos principais impactos é a sobrecarga nos rins, que costumam filtrar os resíduos nitrogenados produzidos pela quebra da proteína.

Por exemplo, um adulto com 70 kg poderia consumir no máximo 140 g de proteínas – lembrando que isso não é a mesma coisa do que comer um bife bovino com 140 g, afinal, a carne não é constituída apenas de proteína.

Quando recebem muito mais desse resíduo do que o normal, precisam se esforçar mais, o que, ao longo do tempo, pode levar a danos ou acelerar problemas renais existentes. Outro efeito possível é o aumento do risco de pedras nos rins, chamados de cálculos, já que concentrações maiores de minerais e compostos podem facilitar a cristalização.

De acordo com um estudo recente, também há indícios de impactos negativos no sistema cardiovascular, mostrando que consumir mais de 22% das calorias diárias em proteína pode ativar vias que favorecem a formação de placas nas artérias, a aterosclerose, via resposta inflamatória em células imunes como macrófagos.

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Além disso, dietas muito ricas em proteína muitas vezes deixam de lado fibras, carboidratos e outros nutrientes importantes, o que pode causar constipação, irregularidades digestivas, desequilíbrios nutricionais e falta de energia.

O fígado também sofre um pouco com isso, uma vez que o excesso de proteína pode ser convertido em gordura e causar acúmulo hepático ou estresse no metabolismo hepático, ainda mais se outros nutrientes estiverem deficientes.

Outro ponto importante é que o consumo exagerado de proteína de origem animal, principalmente de carnes vermelhas e processadas, está associado a risco aumentado de certos tipos de câncer, como cólon e próstata, possivelmente por compostos presentes nesses alimentos, como ferro, nitratos, gordura saturada.

Além disso, o excesso proteico pode afetar os ossos, já que, por conta da acidez gerada pela metabolização de certas proteínas ricas em aminoácidos de enxofre, o corpo pode usar cálcio dos ossos, o que poderia comprometer a densidade óssea a longo prazo.

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Há também a possibilidade de uma espécie de “intoxicação por proteína”, quando a dieta é extremamente desequilibrada e praticamente só contém esse elemento, sem carboidratos e gorduras suficientes. Isso causa cansaço, náusea, desorientação e sérios impactos metabólicos.

ilustração de diversos tipos de alimentos que possuem proteinas
(Imagem: brgfx/Freepik)

Quem está mais vulnerável e quando esse excesso é mais perigoso?

Pessoas que já possuem doenças renais crônicas, hipertensão, problemas hepáticos ou pré-disposição a cálculos renais precisam ter muito mais atenção ao consumo elevado de proteína. Para quem já tem alteração na função renal, a alta ingestão proteica pode acelerar o dano.

Além disso, idosos também podem ter risco aumentado, uma vez que seus rins e metabolismo já são menos eficientes, então o excesso de proteína pode gerar desequilíbrios mais facilmente.

Já atletas e praticantes de musculação costumam consumir mais proteína, e mesmo que precisem de valores maiores, ainda há um limite, já que ultrapassar esse valor repetidamente não gera ganho proporcional extra e pode trazer os malefícios citados.

musculação
Imagem: Kitreel/Shutterstock

Geralmente, indivíduos saudáveis toleram melhor um consumo elevado por períodos moderados, mas a exposição constante e prolongada ao exagero aumenta riscos cumulativos.

Outra situação de risco é o uso excessivo de suplementos proteicos sem acompanhamento. Esses produtos podem oferecer doses concentradas que são muito acima do que o corpo pode aguentar.

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Como evitar os efeitos negativos e usar proteína com equilíbrio

Antes de tudo, o ideal é calcular suas necessidades individuais de proteína com base em peso corporal, nível de atividade, idade e saúde, o que deve ser feito por um profissional.

De forma geral, para uma pessoa comum, as recomendações variam entre 0,8 a 1,5g por kg de peso, dependendo do estilo de vida. Para atletas ou quem quer aumentar massa muscular, são usados valores mais elevados, mas ainda assim há limite seguro, sendo que alguns especialistas sugerem não ultrapassar 2g/kg.

Algumas dicas:

  • Prefira fontes de proteína mais saudáveis como carnes magras, peixes, ovos, laticínios com menor gordura, leguminosas, grãos integrais e oleaginosas;
  • Misturar proteína animal e vegetal ajuda a ter mais fibras, vitaminas e compostos benéficos;
  • Distribua a proteína ao longo do dia em várias refeições, para que o corpo possa aproveitá-la melhor, em vez de consumir tudo de uma vez;
  • Mantenha uma hidratação adequada. O excesso de proteína gera mais resíduos nitrogenados que precisam de água para serem eliminados, então beber bastante líquido ajuda aliviar a carga nos rins;
  • Evite dietas extremas ou monoalimentares, como as que priorizam exclusivamente a proteína, pois elas privam o corpo de outros nutrientes essenciais e criam desequilíbrios;
  • Faça um acompanhamento profissional com nutricionistas ou médicos que podem monitorar a função renal, exames de sangue e orientar ajustes conforme sua resposta ao consumo.
vegetais e carnes sobre uma mesa de madeira
Misturar proteína animal e vegetal ajuda a ter mais fibras, vitaminas e compostos benéficos. (Imagem: freepik/Freepik)

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Saúde

Canetas emagrecedoras expõem o preço da desigualdade na saúde

Redação Informe 360

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As canetas emagrecedoras ganharam espaço no tratamento da obesidade, mas o preço ainda deixa esses medicamentos fora do alcance de muitos brasileiros. Segundo a Deutsche Welle (DW), a barreira financeira pesa especialmente sobre as populações de baixa renda, que também apresentam maior incidência da doença.

Sem condições de manter o tratamento, pacientes podem desistir ou buscar produtos no mercado ilegal. Hoje, nenhuma caneta emagrecedora está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS).

emagrecimento
A queda da patente da semaglutida abriu espaço para remédios mais baratos, mas o tratamento ainda pesa no orçamento de muitos pacientes. Imagem: Panuwat Dangsungnoen/iStock

Medicamentos mais eficazes, mas caros

Dados mais recentes do Vigitel, do Ministério da Saúde, apontam que 25,7% dos adultos brasileiros enfrentam um quadro de obesidade. A doença pode causar outros problemas, como diabetes, câncer e dificuldades cardiovasculares.

Os medicamentos mais novos apresentam resultados superiores aos tratamentos antigos. Enquanto estes costumavam levar à perda de 5% a 10% do peso corporal, remédios que simulam a ação do GLP-1, como Wegovy e Ozempic, podem chegar a 17%. Com a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, o índice pode alcançar 22%.

O acesso, porém, continua limitado. Um levantamento da NielsenIQ Brasil mostrou que as canetas estão presentes em cerca de 5% dos lares brasileiros. Em 84% deles, os medicamentos provocam impacto alto ou moderado no orçamento mensal.

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Para o endocrinologista Paulo Miranda, coordenador do Departamento Internacional da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SEBM), a desigualdade no acesso é uma preocupação mundial. “É preciso haver a inclusão dessas medicações dentro de um custo aceitável para o público que pode se beneficiar desses tratamentos.”

Semaglutida ficou mais barata

A queda da patente da semaglutida abriu espaço para novos fabricantes e ajudou a reduzir os preços. Em junho, chegou às farmácias a primeira caneta brasileira com esse princípio ativo, a Ozivy, produzida pela EMS. Outros cinco medicamentos à base de semaglutida também tiveram registros aprovados pela Anvisa.

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O Ministério da Saúde afirma que o aumento da concorrência deve provocar uma redução significativa dos preços. Especialistas citam quedas de até R$ 1 mil mensais em alguns tratamentos.

A tirzepatida, no entanto, continua mais cara. Os tratamentos com Mounjaro partem de R$ 1,5 mil e chegam a R$ 3 mil por mês.

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Se não cabe no orçamento, é melhor nem começar, porque, de fato, se você suspender, a tendência é o peso retornar para o inicial.

Rachel Teixeira, endocrinologista, à DW.

Ela também alerta que o tratamento não deve ser encarado como uma despesa temporária.

Canetas dos medicamentos Ozempic Mounjaro e WeGovy
Antes de começar um tratamento, o custo mensal é um ponto importante. A interrupção das canetas pode fazer o peso voltar ao nível inicial. – Imagem: KK Stock/Shutterstock

O risco do mercado ilegal

O combate à obesidade não depende apenas dos medicamentos. Acompanhamento nutricional e atividade física também fazem parte do tratamento e podem elevar os custos. Para Bruno Gualano, presidente do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), o acesso a uma rotina saudável também é desigual.

  • Alimentação saudável pode custar mais;
  • Atividade física depende do acesso a espaços adequados;
  • O tratamento medicamentoso pode ser contínuo;
  • O preço pode levar pacientes a abandonar a terapia;
  • Produtos ilegais não oferecem garantia de qualidade e segurança.

Sem dinheiro para o tratamento regular, algumas pessoas recorrem a canetas contrabandeadas. A prática é condenada pela Anvisa, já que não há garantia sobre procedência, pureza, transporte ou armazenamento.

Para especialistas, ampliar o acesso aos tratamentos é essencial para evitar que pacientes fiquem entre o alto custo dos medicamentos e o risco de produtos irregulares.

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Saúde

Homem volta a escrever após seis anos com ajuda de implante

Redação Informe 360

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Depois de seis anos sem conseguir movimentar o corpo do pescoço para baixo, Dong Hui voltou a segurar uma caneta e escrever o próprio nome. O resultado veio após o uso de um implante cerebral chamado NEO.

O caso, publicado em artigo do The Conversation, mostra como interfaces cérebro-computador começam a deixar os centros de pesquisa e ganhar espaço na medicina para auxiliar pessoas com lesões no sistema nervoso.

implante cerebral neuralink
Da pesquisa aos hospitais: interfaces cérebro-computador começam a mudar o tratamento de lesões no sistema nervoso. Imagem: Legally Cute / Shutterstock

Implante cria nova ponte entre cérebro e movimentos

Dong Hui sofreu uma lesão medular aos 33 anos que interrompeu a comunicação entre o cérebro e o restante do corpo. Os comandos para movimentar as mãos continuavam sendo enviados, mas não conseguiam chegar aos músculos.

Após uma cirurgia para receber o NEO e onze meses de reabilitação, ele conseguiu realizar novamente uma tarefa simples, mas simbólica: escrever. Primeiro registrou seu nome e depois acrescentou a palavra “Obrigado”.

Segundo Kemel A. Ghotme, neurocirurgião pediatra e professor de neurociência translacional da Universidade de La Sabana, na Colômbia, o extraordinário não foi apenas o fato de ele ter voltado a escrever, mas a maneira como conseguiu fazer isso.

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Desenvolvido pela empresa chinesa Neuracle Technology em parceria com pesquisadores da Universidade de Tsinghua, em Pequim, o implante registra a atividade do córtex motor. A inteligência artificial analisa esses sinais e aprende a interpretar as intenções de movimento do usuário.

Como funciona a tecnologia NEO

As interfaces cérebro-computador funcionam como uma alternativa para contornar falhas na comunicação entre cérebro e corpo. O sistema capta diretamente os sinais cerebrais e os transforma em comandos para equipamentos externos.

No caso de Dong Hui, esses comandos ajudaram a controlar uma luva robótica durante a reabilitação. A ideia dos pesquisadores, porém, vai além: combinar sinais do cérebro com estímulos sensoriais para estimular a capacidade do sistema nervoso de se reorganizar.

Entre os principais diferenciais do NEO estão:

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  • Captura da atividade cerebral na superfície da dura-máter.
  • Menor invasividade em comparação com implantes inseridos no tecido cerebral.
  • Uso de inteligência artificial para interpretar comandos motores.
  • Aprovação para uso clínico em pessoas com tetraplegia que atendam aos critérios estabelecidos.
A tecnologia não busca apenas mover máquinas: ela tenta recuperar conexões perdidas entre cérebro e corpo. Imagem: Magic mine / Shutterstock

Tecnologia chega mais perto dos hospitais

O principal marco do NEO é que uma interface cérebro-computador invasiva deixou de ser apenas uma experiência científica e passou a ser reconhecida como dispositivo médico comercial.

Estamos diante de uma das mais profundas reviravoltas conceituais da medicina contemporânea.

Kemel A. Ghotme, neurocirurgião pediatra e professor de neurociência translacional da Universidade de La Sabana, em artigo no The Conversation.

Leia mais:

Apesar do avanço, a tecnologia também levanta novas perguntas: quem terá controle sobre os dados cerebrais? Como proteger essas informações? E como garantir que esse tipo de tratamento esteja disponível para quem precisa?

A história de Dong Hui mostra que o impacto dessas soluções vai além dos laboratórios. Para uma pessoa que perdeu movimentos básicos, recuperar a capacidade de escrever uma palavra pode representar uma mudança enorme na relação com o mundo.

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Saúde

Como cientistas querem desenvolver vacinas em apenas 100 dias contra a próxima pandemia

Redação Informe 360

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Da divulgação da sequência genética do SARS-CoV-2 até o início da vacinação contra a covid-19 passaram-se 326 dias — um recorde histórico para o desenvolvimento de uma vacina. Agora, cientistas querem reduzir esse intervalo para apenas 100 dias diante da próxima ameaça com potencial pandêmico. A meta faz parte da chamada Missão dos 100 Dias, iniciativa liderada pela Coalition for Epidemic Preparedness Innovations (CEPI) e adotada por líderes do G7 e do G20 para acelerar a resposta global a novas epidemias.

O objetivo não é colocar uma vacina pronta no braço da população em pouco mais de três meses. A proposta é que, em até 100 dias após a identificação de um novo patógeno, cientistas consigam desenvolver um candidato vacinal, obter as autorizações iniciais necessárias e iniciar sua fabricação em escala, encurtando o tempo de resposta antes que um surto se transforme em pandemia.

Para a infectologista Luana Araújo, médica especialista em doenças infecciosas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestre em Saúde Pública pela Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, a meta só se tornou plausível porque tecnologias como as plataformas de RNA mensageiro (mRNA) já vinham sendo desenvolvidas muito antes da pandemia de covid-19.

O que é a Missão dos 100 Dias?

A Missão dos 100 Dias foi lançada em 2021, depois que a pandemia de covid-19 mostrou que, embora o desenvolvimento de vacinas pudesse ser acelerado como nunca antes, ainda não era rápido o suficiente para impedir que um novo vírus se espalhasse pelo planeta. A iniciativa, coordenada pela Coalition for Epidemic Preparedness Innovations (CEPI), busca transformar esse aprendizado em uma estratégia permanente de preparação para futuras pandemias.

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A proposta vai além de desenvolver uma vacina em tempo recorde. Para cumprir a meta, é preciso acelerar todas as etapas da resposta: identificar rapidamente um novo patógeno, compartilhar seu sequenciamento genético, adaptar plataformas vacinais já existentes, realizar os testes iniciais e iniciar a produção em escala.

Cronômetro é segurado por um pesquisador usando equipamento de proteção em laboratório, representando a corrida contra o tempo para desenvolver vacinas.
A Missão dos 100 Dias busca reduzir o tempo entre a identificação de um novo patógeno e o desenvolvimento de um candidato vacinal – Imagem: Halawi / Shutterstock

Luana Araújo explica que essa estratégia parte justamente da possibilidade de antecipar parte do trabalho antes mesmo do surgimento da próxima ameaça.

A ideia é que, da identificação e do sequenciamento do patógeno até a gente ter uma vacina disponível, a gente consiga fazer isso nesse período bastante desafiador dos 100 dias.

Luana Araújo, especialista em doenças infecciosas

Na avaliação da especialista, essa mudança permite que pesquisadores desenvolvam previamente plataformas e tecnologias que poderão ser adaptadas rapidamente quando um novo agente infeccioso surgir.

Por que agora é possível pensar em uma vacina em 100 dias

Quando as primeiras vacinas contra a covid-19 começaram a ser aplicadas, muita gente teve a impressão de que elas haviam sido criadas do zero em poucos meses. Na prática, porém, o desenvolvimento só foi possível porque décadas de pesquisa já haviam produzido as plataformas tecnológicas que serviram de base para os imunizantes.

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Para Luana Araújo, esse é justamente o principal aprendizado incorporado pela Missão dos 100 Dias. Em vez de esperar que uma nova pandemia comece para iniciar todas as pesquisas, cientistas passaram a desenvolver previamente plataformas que possam ser adaptadas rapidamente quando um novo patógeno for identificado. “Isso nos traz uma mudança de preparação para o futuro, que talvez permita que a gente desenvolva até certo ponto algumas tecnologias e deixe aquilo na manga”, afirma ela.

O principal exemplo citado pela infectologista são as vacinas de RNA mensageiro (mRNA). Segundo ela, embora tenham se tornado conhecidas durante a pandemia de covid-19, essas plataformas já vinham sendo estudadas havia décadas. Quando o SARS-CoV-2 surgiu, pesquisadores precisaram adaptar uma tecnologia que já existia, em vez de iniciar todo o processo do zero.

Na avaliação de Luana, essa mudança representa uma forma mais eficiente de investir em pesquisa para futuras pandemias. Em vez de concentrar esforços em uma única doença, cientistas passaram a preparar diferentes plataformas capazes de responder a diversos cenários. Como resume a especialista, “isso nos parece hoje mais inteligente, mais lúcido do que investir todos os ovos na mesma cesta.”

Mão com luva segura um frasco identificado como vacina de mRNA em primeiro plano, com equipamentos de laboratório desfocados ao fundo.
Plataformas como as vacinas de RNA mensageiro (mRNA), estudadas havia décadas, são uma das bases da estratégia para acelerar o desenvolvimento de imunizantes contra futuras pandemias – Imagem: Kitsawet Saethao / Shutterstock

Desenvolver a vacina é só parte do desafio

Chegar a um candidato vacinal em 100 dias depende de muito mais do que a tecnologia usada para produzir imunizantes. Antes disso, é preciso identificar rapidamente o novo agente infeccioso, sequenciar seu material genético e compartilhar essas informações para que laboratórios em diferentes partes do mundo possam começar a desenvolver uma resposta.

Para o patologista clínico Carlos Aita, presidente da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML), os avanços obtidos desde a pandemia de covid-19 ajudam justamente a acelerar essas etapas. Segundo ele, houve evolução nas técnicas de biologia molecular para identificação rápida de novos patógenos, na automação dos laboratórios e no desenvolvimento de testes rápidos, tecnologias que hoje fazem parte da rotina da medicina diagnóstica.

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A rapidez também depende da circulação dessas informações. De acordo com Aita, redes integradas de monitoramento permitem identificar padrões de transmissão logo nos primeiros registros de uma nova doença, tornando possível agir antes que o número de casos cresça de forma descontrolada.

Essa integração entre vigilância, diagnóstico e desenvolvimento científico é um dos pilares da Missão dos 100 Dias. A proposta não é apenas produzir uma vacina mais rapidamente, mas reduzir o tempo necessário em todas as etapas da resposta a uma nova ameaça, desde a identificação do patógeno até o início da fabricação dos imunizantes.

Uma vacina em 100 dias depende de todo o sistema de saúde

A meta de desenvolver um candidato vacinal em 100 dias representa uma mudança importante na forma como o mundo se prepara para futuras pandemias. Ainda assim, especialistas destacam que reduzir o tempo de desenvolvimento de uma vacina é apenas parte da resposta. Para que a estratégia funcione, também será necessário fortalecer a vigilância epidemiológica, ampliar a capacidade de diagnóstico, manter redes internacionais de compartilhamento de dados e garantir que os imunizantes possam ser produzidos e distribuídos rapidamente.

Para o sanitarista Gonzalo Vecina Neto, fundador e ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), parte dessa preparação começa antes mesmo de um novo vírus ser identificado. Segundo ele, é necessário manter estruturas permanentes de vigilância capazes de detectar rapidamente alterações no ambiente e na circulação de microrganismos, além de ampliar a capacidade de sequenciamento genético no país.

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Na avaliação do especialista, o Brasil também precisa reduzir sua dependência externa para responder com rapidez a futuras emergências sanitárias. Para isso, defende a continuidade dos investimentos em pesquisa e no desenvolvimento de tecnologias voltadas para diagnósticos, tratamentos e vacinas, além da ampliação da capacidade nacional de produção desses insumos.

Laboratório de pesquisa com computadores exibindo análises de DNA e equipamentos usados no desenvolvimento de novas tecnologias em saúde.
Além do desenvolvimento de vacinas, a Missão dos 100 Dias depende de vigilância epidemiológica, sequenciamento genético e infraestrutura científica para responder rapidamente a novas ameaças. – Imagem: DC Studio / Shutterstock

Luana Araújo avalia que a ciência demonstrou durante a pandemia de covid-19 que é capaz de acelerar o desenvolvimento de novas tecnologias quando há cooperação internacional, financiamento e objetivos comuns. O próximo passo, segundo a infectologista, é transformar essa capacidade científica em uma resposta organizada e acessível para toda a população.

O primeiro desafio é transformar toda essa rapidez tecnológica, toda essa eficiência tecnológica em ação coletiva, numa ferramenta acionável para todo mundo.

Luana Araújo, especialista em doenças infecciosas

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