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Saúde

Demência e Alzheimer: genética não é a única causa

Redação Informe 360

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Doenças neurológicas degenerativas como a demência e o Alzheimer tem causas um tanto quanto misteriosas. O  fator principal levado em conta nas pesquisas é a genética, mas um novo estudo conseguiu ir além e descobriu circunstâncias que podem aumentar o risco e também diminuir as chances de desenvolver essas doenças.

A pesquisa europeia publicada na Jama Neurology foi conduzida pelo departamento de Psiquiatria e Neuropsicologia da Universidade de Maastricht, na Holanda, e teve participação de outras instituições, como a Universidade de Oxford. Os cientistas usaram dados do UK Biobank, que reúne informações de saúde de mais de 500 mil pacientes britânicos.

Os pesquisadores não diferenciam os tipos de demência. Foram analisadas apenas pessoas que não tinham desenvolvido doenças neurológicas quando fizeram o cadastro e o foco foi em pacientes com menos de 65 anos.

Essa idade é importante pois é o que define a demência precoce. Foi então que os pesquisadores analisaram o histórico dos pacientes, vendo o que eles tinham em comum e o que não tinham e quais fatores poderiam ser considerados como de risco para o desenvolvimento da demência. As informações são da Folha de S.Paulo.

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“A demência de início precoce tem um impacto muito sério, porque as pessoas afetadas geralmente ainda têm emprego, filhos e uma vida ocupada”, disse Stevie Hendriks, líder do estudo. “Muitas vezes presume-se que a causa seja genética, mas para muitas pessoas não sabemos exatamente qual é a causa”.

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Como era esperado, e citado no começo do texto, o principal fator de risco para o Alzheimer foi o genético. Mas outros fatores também chamaram a atenção, desde o histórico de saúde, como depressão, doenças do coração e diabetes, até a vulnerabilidade social e baixa escolaridade.

“Já sabíamos, através de pesquisas sobre pessoas que desenvolvem demência em idades mais avançadas, que existe uma série de fatores de risco modificáveis”, acrescentou. “Este estudo mostra que existem vários fatores modificáveis que também estão associados à demência de início precoce”.

Idoso com Alzheimer sentado em poltrona olhando para janela
Idoso com Alzheimer sentado em poltrona olhando para janela (Imagem: Ground Picture/Shutterstock)

A pesquisa concluiu que:

  • Pacientes como doenças que afetam o metabolismo como diabetes e problemas cardíacos têm mais chances de desenvolverem demência;
  • Quem tem graus mais altos de escolaridades podem ter um sistema cognitivo mais desenvolvido, o que pode reduzir as chances dessas doenças;
  • Um ponto curioso foi o consumo de álcool. Enquanto um consumo moderado está ligado a um risco mais baixo de demência, mas não há nenhum fator ligado às bebidas que aumente o risco;
  • De acordo com os pesquisadores, esse último dado ainda precisa de mais detalhes, já que pessoas saudáveis pela ausência de outras doenças podem consumir álcool até uma idade mais avançada.

“Descobrimos que tanto a deficiência de vitamina D como os níveis elevados de proteína C reativa (PCR) estavam associados ao aumento do risco de demência de início precoce”, acrescentou a equipe. “Foi sugerido que a vitamina D atua como um neuroesteroide que protege contra processos neurodegenerativos. Notavelmente, a PCR só foi significativamente associada à demência de início precoce quando a vitamina D foi incluída no modelo”.

Dos 356.052 participantes incluídos, 197.036 (55,3%) eram mulheres, e a idade média (DP) no início do estudo era de 54,6 (7,0) anos. Durante 2.891.409 pessoas-ano de acompanhamento, foram observados 485 casos incidentes de DIP (251 de 485 homens [51,8%]), produzindo uma taxa de incidência de 16,8 por 100.000 pessoas-ano (IC 95%, 15,4-18,3).

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Saúde

Por que alguns tipos de câncer estão aumentando entre adultos mais jovens

Redação Informe 360

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Alguns tipos de câncer, tradicionalmente mais associados a pessoas mais velhas, estão sendo diagnosticados com maior frequência em adultos jovens em diferentes países. O fenômeno aparece com mais clareza em tumores como colorretal e mama, mas não significa que todos os cânceres estejam aumentando nessa população.

A explicação também não parece estar em um único fator. Pesquisadores investigam uma combinação de predisposição individual, condições metabólicas, hábitos, exposições ambientais e fatores que podem atuar desde fases anteriores da vida.

Na literatura científica, “câncer de início precoce” costuma designar tumores diagnosticados antes dos 50 anos, embora os estudos usem diferentes subdivisões de idade. Uma das análises mais abrangentes sobre o tema foi publicada em 2025 por pesquisadores do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos (NCI), que analisaram 33 tipos de câncer.

O estudo encontrou aumento da incidência de 14 deles em pelo menos uma das faixas etárias abaixo dos 50 anos entre 2010 e 2019. Ao mesmo tempo, 19 tipos apresentaram queda entre os mais jovens. Considerando todos os cânceres em conjunto, a taxa de incidência não aumentou entre pessoas abaixo dos 50 anos. A mortalidade por todos os cânceres também não apresentou crescimento entre as faixas etárias jovens analisadas.

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Os maiores aumentos absolutos de casos de início precoce nos Estados Unidos foram registrados para câncer de mama feminino, colorretal, rim e útero. Em 2019, os pesquisadores estimaram cerca de 4.834 casos adicionais de câncer de mama, 2.099 de colorretal, 1.793 de rim e 1.209 de útero em comparação com o número esperado caso as taxas de 2010 tivessem permanecido estáveis.

O estudo também encontrou aumento de melanoma, câncer do colo do útero, estômago, mieloma e tumores de ossos e articulações em pelo menos uma faixa etária jovem. Nove dos 14 tipos que aumentaram entre pessoas mais jovens também apresentaram crescimento em pelo menos um grupo etário mais velho.

Outros cinco — melanoma, câncer do colo do útero, estômago, mieloma e câncer de ossos e articulações — tiveram aumento em alguma faixa jovem, mas não entre os grupos mais velhos analisados. Segundo os pesquisadores do NCI, as causas provavelmente são específicas de cada tipo de câncer e podem envolver fatores de risco que se tornaram mais comuns em idades mais jovens, mudanças no rastreamento ou na detecção e alterações na classificação ou no diagnóstico.

Ilustração de células cancerosas humanas
A incidência de alguns tipos de câncer, como colorretal e mama, aumentou em determinadas faixas etárias mais jovens, mas o fenômeno não ocorre com todos os tumores – Imagem: Anusorn Nakdee/Shutterstock

Colorretal é um dos casos mais bem documentados

Entre os tumores que chamam atenção, o câncer colorretal é provavelmente o exemplo mais consistente de aumento em adultos jovens. Uma análise publicada no The Lancet Oncology avaliou dados de 50 países e territórios e encontrou aumento da incidência entre pessoas de 25 a 49 anos em 27 deles.

Em 20 desses locais, o crescimento entre os jovens foi exclusivo dessa faixa etária ou aconteceu em ritmo mais rápido do que entre os adultos mais velhos. Em 23 dos 50 países e territórios, a tendência recente ficou estável.

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“O câncer colorretal é provavelmente um dos exemplos mais bem documentados desse aumento de câncer entre adultos jovens”, afirma Maria Ignez Braghiroli, oncologista especializada em câncer colorretal da Oncologia D’Or de São Paulo.

Historicamente, segundo a médica, a doença é muito mais frequente depois dos 50 anos. Ainda assim, ela chama atenção para uma mudança na curva entre os mais jovens: “O risco absoluto continua sendo maior em pessoas mais velhas, e o número total de casos também é maior nessa população. O que chama a atenção nos jovens é a mudança da curva e a velocidade do crescimento.”

O padrão de diferentes gerações também chamou a atenção dos pesquisadores. Um estudo publicado no JNCI Cancer Spectrum, com dados de 35 países, encontrou evidências de efeito de coorte de nascimento em várias populações. Quando pessoas nascidas em décadas diferentes apresentam riscos diferentes ao chegar à mesma idade, pesquisadores podem investigar se alguma característica da experiência dessas gerações — como alimentação, condições metabólicas ou exposições ambientais — influenciou o risco ao longo da vida.

O efeito de coorte, por si só, não identifica qual exposição seria responsável. Ele indica que as diferenças entre gerações podem estar relacionadas a algo que mudou ao longo da vida dessas populações.

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Fatores conhecidos explicam apenas parte

Entre os fatores associados ao câncer colorretal estão histórico familiar e síndromes hereditárias, além de obesidade, alterações metabólicas, consumo de álcool e determinados padrões alimentares. Estudos também apontam relações com sedentarismo e outras características do estilo de vida.

A obesidade é uma das associações investigadas. Em um estudo com mais de 85 mil mulheres, aquelas com obesidade apresentaram quase o dobro do risco de desenvolver câncer colorretal antes dos 50 anos em comparação com mulheres de peso considerado adequado. O estudo identificou uma associação entre o excesso de peso e o risco, mas não permite concluir que a obesidade seja, sozinha, responsável pelo aumento populacional do câncer colorretal precoce.

A alimentação também aparece nas pesquisas. Maria Ignez Braghiroli cita estudos que relacionam dietas com pouca fibra e maior participação de alimentos altamente processados, carnes processadas e bebidas açucaradas ao risco de câncer colorretal. Ela também menciona pesquisas que encontraram associação entre o consumo de bebidas adoçadas durante a adolescência e maior risco posterior da doença.

Mas a médica ressalta que não é possível transformar esses fatores em uma explicação única. “Esses fatores explicam apenas parte do fenômeno”, afirma.

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Segundo ela, pacientes jovens, fisicamente ativos, sem obesidade, histórico familiar ou síndrome genética conhecida também desenvolvem a doença. “Portanto, provavelmente estamos diante de uma combinação de exposições.”

Entre as possibilidades investigadas estão metabolismo, microbioma intestinal, uso de determinados medicamentos, exposições ambientais e fatores que podem começar a atuar muito cedo na vida.

O risco pode começar a ser construído muito antes do diagnóstico

Uma das hipóteses que ganhou força é a de que algumas exposições relevantes para o desenvolvimento do câncer aconteçam durante a infância ou adolescência, muito antes de aparecerem os primeiros sintomas.

No câncer colorretal, estudos associaram excesso de peso no fim da adolescência ou início da vida adulta a maior risco posterior. Também foram encontradas associações entre maior consumo de bebidas açucaradas durante a adolescência e câncer colorretal antes dos 50 anos.

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Esses resultados não provam, isoladamente, que uma exposição específica seja responsável pelo aumento dos casos. Eles ajudam, porém, a indicar períodos da vida que podem ser importantes para a formação do risco.

O microbioma intestinal é uma das frentes mais recentes dessa pesquisa. Algumas cepas de Escherichia coli presentes no intestino produzem colibactina, uma substância capaz de provocar danos no DNA.

Em um estudo publicado em 2025 na Nature, pesquisadores analisaram 981 genomas de tumores colorretais de 11 países, incluindo o Brasil. As assinaturas mutacionais associadas à colibactina foram 3,3 vezes mais comuns em tumores diagnosticados antes dos 40 anos do que naqueles diagnosticados depois dos 70.

O resultado é uma pista particularmente interessante porque não se limita a uma associação estatística entre um comportamento e o câncer. Os pesquisadores encontraram no genoma dos tumores uma assinatura compatível com um processo mutagênico específico.

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O trabalho sugere que exposições a bactérias produtoras de colibactina no início da vida podem contribuir para a incidência de câncer colorretal de início precoce, mas não demonstra que essa exposição seja, sozinha, responsável pelo crescimento dos casos.

Há uma distinção importante: o estudo analisou tumores de pessoas que já desenvolveram câncer e identificou marcas compatíveis com determinados processos mutagênicos. Ele não acompanhou indivíduos desde a infância para demonstrar quando ocorreu a exposição às bactérias produtoras de colibactina.

Por isso, a hipótese de uma exposição precoce é apoiada por evidências moleculares, mas ainda não constitui uma explicação completa para a tendência epidemiológica. Para Braghiroli, essa possibilidade abre uma questão ainda em investigação:

Uma das grandes perguntas atuais é justamente se o câncer que diagnosticamos aos 35 ou 40 anos começou biologicamente muito antes do que imaginávamos.

Maria Ignez Braghiroli, oncologista especializada em câncer colorretal

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A pesquisa ainda precisa determinar quais exposições poderiam produzir esse tipo de alteração, em que momento da vida elas seriam mais importantes e como diferentes fatores podem atuar em conjunto.

Mama mostra que o fenômeno não se limita ao intestino

O câncer de mama feminino é outro tumor que aparece entre aqueles com aumento de incidência em determinadas faixas etárias jovens. No estudo do NCI, foi o câncer que apresentou o maior aumento absoluto estimado entre os casos de início precoce nos Estados Unidos, com cerca de 4.834 casos adicionais em 2019 em comparação com o número esperado com base nas taxas de 2010.

Há também evidências brasileiras. Um estudo publicado em 2026 na Revista Brasileira de Cancerologia analisou a incidência de câncer entre pessoas de 20 a 39 anos em duas regiões do estado de São Paulo: o município de São Paulo e a região de Barretos. A pesquisa avaliou dados de incidência de 2002 a 2018 e de mortalidade de 2000 a 2020.

Os resultados foram diferentes entre as duas localidades. Em Barretos, houve aumento significativo da incidência de câncer de mama entre mulheres de 20 a 39 anos, com variação percentual anual de 5,91%, e de câncer do colo do útero, de 8,96%.

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Entre homens, a incidência de câncer colorretal aumentou 5,75% ao ano. Em São Paulo, a incidência de câncer de mama aumentou 0,5% ao ano, enquanto o colorretal permaneceu estável entre homens e mulheres.

Os dados mostram por que não é possível afirmar que exista um aumento generalizado de câncer entre adultos jovens em todo o Brasil. O estudo foi realizado em duas localidades específicas e encontrou comportamentos diferentes entre elas. Os resultados apontam tendências para alguns tumores que merecem investigação, mas não podem ser extrapolados diretamente para o país inteiro.

No caso do câncer de mama, uma explicação baseada apenas no aumento do rastreamento também tem limitações.

“A gente já tem vários dados mostrando o aumento da incidência nas mulheres jovens”, afirma Laura Testa, médica especializada em câncer de mama da Oncologia D’Or de São Paulo. Segundo ela, estudos de diferentes centros brasileiros identificaram aumento tanto entre mulheres de 40 a 50 anos quanto entre aquelas com menos de 40.

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A faixa abaixo dos 40 anos não é alvo do rastreamento mamográfico populacional. No Brasil, o Ministério da Saúde recomenda rastreamento mamográfico a cada dois anos para mulheres de 50 a 74 anos. Mulheres de 40 a 49 anos podem realizar o exame por demanda, após orientação sobre benefícios e riscos, mas essa faixa não faz parte do programa de rastreamento populacional sistemático.

Por isso, a ampliação do acesso à mamografia para mulheres de 40 a 49 anos, por si só, não parece suficiente para explicar tendências anteriores ou o aumento observado entre mulheres abaixo dos 40 anos.

Fatores de risco conhecidos não fecham a conta

O câncer de mama tem fatores de risco conhecidos, entre eles características reprodutivas, obesidade, sedentarismo e consumo de álcool. Mas a força dessas associações varia conforme a idade.

Testa explica que obesidade e sedentarismo são fatores de risco bem estabelecidos para câncer de mama, especialmente após a menopausa. Para as pacientes mais jovens, porém, não existe a mesma clareza sobre quanto esses fatores contribuem especificamente para o aumento observado nessa faixa etária. Já o álcool apresenta uma associação mais consistente.

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O consumo de álcool aumenta o risco de câncer de mama em todas as idades, quanto maior o consumo, maior o risco.

Laura Testa, médica especializada em câncer de mama

Outra possibilidade investigada é a exposição, desde a infância, a diferentes substâncias potencialmente carcinogênicas. Testa cita agrotóxicos e plásticos, mas faz uma ressalva importante sobre o nível de evidência: “A gente entende que isso é potencialmente nocivo, mas a gente não tem uma comprovação científica que eles estão atrelados a esse aumento.”

A especialista também destaca que a proporção de mulheres jovens com alterações hereditárias é maior, mas que mesmo nesse grupo a maioria dos casos não apresenta uma alteração genética que explique o diagnóstico.

A genética aumenta o risco de alguns indivíduos, mas não explica o aumento populacional

Quando um câncer aparece muito cedo, a possibilidade de predisposição hereditária passa a receber mais atenção. Idade jovem ao diagnóstico é um dos sinais que podem levar à investigação genética, assim como múltiplos tumores na mesma pessoa, repetição de determinados tipos de câncer entre familiares e algumas combinações específicas de tumores na família.

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moléculas de DNA
Alterações genéticas podem influenciar o risco de desenvolver determinados tipos de câncer, mas a predisposição hereditária não explica sozinha o aumento de alguns tumores entre adultos mais jovens – Imagem: Connect world /Shutterstock

Rodrigo Guindalini, coordenador da Oncogenética da Oncologia D’Or e do relacionamento médico da Patologia Molecular da Rede D’Or, explica que a proporção de casos hereditários é maior entre pacientes jovens.

No câncer de mama, por exemplo, ele estima que a chance de um caso ser hereditário seja de cerca de 10% quando o diagnóstico ocorre por volta dos 55 anos. Quando a paciente tem 30 ou 35 anos, essa proporção sobe para aproximadamente 25%.

Isso significa que os casos hereditários ficam proporcionalmente mais concentrados entre pacientes jovens, e não que estejam aumentando na população.

Isso não quer dizer que os casos de cânceres hereditários estão aumentando. Isso é um erro que a gente não pode cometer na informação da população.

Rodrigo Guindalini, especialista em Oncogenética e Oncologia Clínica

Entre as síndromes hereditárias relevantes estão a síndrome de câncer de mama e ovário associada a alterações nos genes BRCA1 e BRCA2, a síndrome de Lynch e a síndrome de Li-Fraumeni, ligada ao gene TP53.

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Guindalini também ressalta que fatores hereditários não conseguem, sozinhos, explicar o aumento populacional observado. “A causa de predisposição genética não consegue justificar isoladamente o aumento de risco significativo de casos em adultos jovens.”

No câncer colorretal, a literatura mostra que síndromes hereditárias e histórico familiar são importantes fatores de risco para casos de início precoce, mas a maioria desses tumores é considerada esporádica, sem uma predisposição hereditária conhecida capaz de explicar o diagnóstico.

O próprio tumor pode revelar pistas

A genética também entra na história de outra maneira. Cada tumor acumula alterações no DNA ao longo de seu desenvolvimento, e estudos genômicos indicam que alguns cânceres diagnosticados em pessoas jovens podem apresentar características moleculares diferentes daqueles encontrados em pacientes mais velhos.

Segundo Rodrigo Guindalini, pacientes jovens podem apresentar menor carga mutacional tumoral global e diferenças na frequência das chamadas mutações driver, alterações que ajudam a conduzir o desenvolvimento do câncer.

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Em sua avaliação, essas diferenças indicam que tumores do mesmo tipo podem apresentar características biológicas distintas conforme a idade do paciente.

“Parece que sim. Há uma diferença genômica entre esses tumores, e isso vem sendo cada vez mais identificado nos estudos de coortes de jovens e idosos.”

Isso não significa que exista uma característica molecular única de todos os cânceres de início precoce. As diferenças dependem do tipo de tumor. Mas elas podem ajudar pesquisadores a investigar por que determinadas doenças surgem antes do esperado e quais processos biológicos estão envolvidos.

No câncer colorretal, por exemplo, o estudo publicado na Nature encontrou diferentes padrões de mutação conforme idade e localização geográfica. Algumas assinaturas ainda têm causa desconhecida, enquanto as associadas à colibactina foram mais frequentes em tumores de pacientes jovens.

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Incidência maior não significa necessariamente mais câncer em geral

Há ainda uma distinção importante entre aumento da incidência de determinados tumores e aumento da ocorrência de câncer de maneira geral.

O estudo do NCI encontrou crescimento de 14 tipos de câncer em pelo menos uma faixa etária abaixo dos 50 anos, mas queda em 19 outros. No conjunto, a incidência de todos os cânceres não aumentou entre os mais jovens. A mortalidade por todos os cânceres também não apresentou crescimento significativo nas faixas jovens analisadas.

Para alguns tumores, porém, a situação é diferente. Os pesquisadores observaram aumento da mortalidade por câncer colorretal e uterino em determinadas faixas etárias jovens. No caso do colorretal, isso acrescenta uma preocupação que não pode ser explicada simplesmente por mais diagnósticos.

Ainda assim, mudanças na detecção podem contribuir para algumas tendências. O NCI cita alterações nas recomendações de rastreamento, avanços em exames, maior vigilância de pessoas de alto risco e mudanças na classificação ou no diagnóstico como possíveis fatores que precisam ser considerados para cada tumor.

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A questão, portanto, não é escolher entre “há mais câncer” e “estamos apenas diagnosticando mais”. Dependendo do tumor e da faixa etária, as duas coisas podem contribuir em proporções diferentes.

Afinal, por que alguns cânceres estão aparecendo mais cedo?

As evidências disponíveis apontam para uma explicação multifatorial, mas com diferenças importantes entre os tipos de câncer.

No colorretal, existe uma tendência internacional bem documentada de aumento entre adultos jovens. Obesidade, alterações metabólicas, álcool, alimentação e sedentarismo estão associados ao risco, mas não explicam todos os casos. O efeito de coorte sugere que mudanças nas exposições ao longo da vida podem ter participação, enquanto estudos genômicos sobre colibactina oferecem uma pista molecular sobre como exposições a bactérias produtoras dessa substância podem deixar marcas no DNA de tumores diagnosticados décadas depois.

No câncer de mama, há evidências de aumento entre mulheres jovens em diferentes populações e também sinais no Brasil, mas os fatores de risco conhecidos não explicam claramente a mudança observada nessa faixa etária. Álcool, características reprodutivas, fatores metabólicos e predisposição genética influenciam o risco individual, enquanto o papel de determinadas exposições ambientais ao longo da vida ainda está sendo estudado.

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A genética ajuda a explicar uma parte dos casos, principalmente quando existe uma síndrome hereditária, mas não explica o aumento populacional. Mudanças na detecção também podem influenciar as estatísticas, embora não pareçam suficientes para explicar todas as tendências observadas, especialmente quando o aumento aparece em populações fora das faixas tradicionais de rastreamento ou quando a mortalidade também cresce.

A resposta mais consistente disponível hoje, portanto, não aponta para uma causa única. Alguns fatores que aumentam o risco de câncer já são conhecidos, mas eles não explicam sozinhos por que determinados tumores passaram a aparecer com maior frequência em pessoas mais jovens.

As evidências mais recentes apontam para uma combinação de predisposição individual e exposições acumuladas ao longo da vida, incluindo fatores metabólicos, comportamentais e ambientais. O peso de cada elemento parece variar conforme o tipo de câncer, e identificar essa combinação é uma das principais questões ainda abertas na pesquisa sobre câncer de início precoce.

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Saúde

Dorme 8 horas e ainda acorda cansado? Entenda o que pode estar acontecendo

Redação Informe 360

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Dormir oito horas por noite costuma ser associado a uma boa noite de sono. Mas o número, sozinho, não é suficiente para dizer se o descanso foi adequado. Uma pessoa pode passar oito horas na cama e ainda acordar sem disposição porque o sono foi fragmentado, sofreu influência de substâncias como o álcool, aconteceu em um horário pouco alinhado ao relógio biológico ou foi afetado por algum distúrbio.

A Academia Americana de Medicina do Sono (AASM) e a Sleep Research Society recomendam que adultos durmam pelo menos sete horas por noite regularmente. O consenso das entidades também considera qualidade, horário, regularidade e ausência de distúrbios como componentes de um sono saudável.

“Não existe um número mágico de horas de sono para todos os indivíduos”, afirma Lúcio Huebra, neurologista, médico do sono e membro do Conselho Administrativo da Academia Brasileira do Sono. Segundo ele, existe uma variação individual na necessidade de sono e, além da quantidade, é preciso considerar também a qualidade e a regularidade.

O que acontece durante essas 8 horas também importa

Ao avaliar o sono, Huebra aponta três aspectos: a quantidade de horas, considerando a necessidade individual; a qualidade, que envolve a facilidade para iniciar e manter o sono; e a maneira como a pessoa acorda e passa o dia, observando fatores como fadiga, sonolência, atenção e concentração.

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O horário também entra nessa avaliação. Cláudia Moreno, professora titular da Faculdade de Saúde Pública da USP e coordenadora do Núcleo de Cronobiologia do Sono da Academia Brasileira do Sono, explica que o chamado relógio biológico faz parte de um sistema de temporização circadiana que organiza funções do corpo ao longo do dia. O ciclo de luz e escuridão participa dessa sincronização e ajuda a organizar os períodos de sono e vigília.

A continuidade do sono é outro ponto. Durante a noite, é normal haver despertares, muitos deles tão breves que não chegam a ser percebidos. “Todos apresentamos alguns despertares noturnos. A ideia de que o sono acontece em um único bloco contínuo é uma ilusão”, diz Huebra. Segundo o especialista, a fragmentação se torna relevante quando prejudica a continuidade do sono.

Estudos experimentais também indicam que manter o mesmo tempo total de sono não elimina os efeitos da fragmentação. Em um estudo com adultos saudáveis, interrupções repetidas reduziram o estado de alerta e prejudicaram uma tarefa de atenção no dia seguinte.

Esse tipo de fragmentação nem sempre é percebido pela própria pessoa. “A percepção do sono é muito individual e, por vezes, muito distante da realidade”, afirma Huebra. Ele cita pacientes com apneia grave que acreditam dormir bem, mas apresentam múltiplos eventos de dificuldade respiratória e fragmentação do sono durante a polissonografia.

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A forma como a pessoa se sente ao acordar também precisa ser interpretada com cuidado. Huebra diferencia sonolência, cansaço e a sensação de estar “grogue” logo após despertar. Segundo ele, a sonolência está relacionada à permanência da pressão de sono, enquanto o cansaço pode indicar um sono não reparador. Já a dificuldade para começar as atividades logo depois de acordar é chamada de inércia do sono.

A inércia do sono pode acontecer de forma normal, especialmente quando o despertar ocorre durante o sono profundo. Por isso, alguns minutos de dificuldade para engrenar não significam, por si só, que algo esteja errado.

Álcool e apneia podem atrapalhar a qualidade do sono

O que acontece antes de dormir também pode interferir no descanso. O álcool é um exemplo. “O álcool é um depressor do sistema nervoso central, inicialmente pode até apresentar um efeito sedativo e levar a algum grau de sonolência”, explica.

Pessoa dorme na cama segurando uma garrafa de bebida alcoólica
O álcool pode causar sonolência inicialmente, mas também alterar a arquitetura do sono – Imagem: StockLab / Shutterstock

O especialista afirma que o álcool tem efeito inibidor sobre o sono REM. Ele também explica que o relaxamento muscular provocado pela substância pode aumentar a instabilidade respiratória, com roncos mais frequentes e intensos e, em pessoas suscetíveis, piora ou surgimento de apneia obstrutiva do sono.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2024, com 27 estudos, encontrou alterações na arquitetura do sono após o consumo de álcool, incluindo atraso no início do sono REM e redução de sua duração. Os efeitos sobre o REM apareceram inclusive após doses consideradas baixas, enquanto os resultados para tempo total de sono, eficiência e tempo acordado depois de adormecer foram mais incertos.

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O efeito do álcool, segundo Huebra, não fica restrito ao momento em que a pessoa adormece. “Outro aspecto relevante em relação ao consumo do álcool próximo ao horário de dormir é que ele é metabolizado em poucas horas, assim, no meio da noite, há um rebote daquela mensagem inicialmente inibitória, deixando o cérebro hiperexcitado, levando à fragmentação do sono, pesadelos, sono agitado.” Ele também menciona um potencial efeito diurético, que pode aumentar o volume urinário e os despertares ao longo da noite.

A apneia obstrutiva do sono é outro exemplo de como oito horas na cama não necessariamente correspondem a oito horas de sono contínuo. O distúrbio envolve episódios recorrentes de obstrução das vias aéreas superiores durante o sono e pode provocar fragmentação do descanso. Ronco, pausas respiratórias observadas por outra pessoa e sonolência durante o dia estão entre os sinais descritos na literatura.

A pessoa pode não perceber essas interrupções. É justamente o que aparece na explicação de Huebra sobre pacientes com apneia grave que relatam dormir bem, apesar de apresentarem eventos respiratórios e fragmentação identificados em exames.

Paciente é monitorado durante exame do sono com sensores e equipamentos
Exames do sono podem identificar alterações respiratórias e outros eventos que ocorrem durante a noite – Imagem: Kittyfly / Shutterstock

Quando há suspeita de apneia, a investigação é feita por avaliação médica e exames específicos. A AASM considera a polissonografia o exame padrão para o diagnóstico em adultos quando existe preocupação clínica com o distúrbio. Em determinadas situações, o teste domiciliar de apneia pode ser utilizado em adultos sem condições complicadoras e com sinais compatíveis.

Acordar cansado, portanto, não significa automaticamente ter apneia. A investigação considera o conjunto de sintomas, histórico e características do sono.

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O horário do sono também faz diferença

A duração adequada não significa que qualquer horário seja equivalente. Segundo Moreno, o sistema de temporização circadiana é sincronizado pelo ciclo claro-escuro e ajuda o organismo a organizar funções ao longo do dia. Para a especialista, esse processo participa da alternância entre sono e vigília.

Por isso, “o sono também tem que ocorrer em horários em que o organismo está preparado para dormir”, afirma Moreno. Ela explica que o sono realizado durante a noite tem uma estrutura diferente daquele realizado durante o dia e lembra que existem diferenças individuais entre pessoas mais matutinas e mais vespertinas.

A regularidade entra nessa equação. Um consenso da National Sleep Foundation publicado em 2023 concluiu que manter consistência nos horários de início e término do sono é importante para saúde, segurança e desempenho.

Ilustração de relógio representando o ciclo circadiano entre dia e noite
O sistema de temporização circadiana ajuda a organizar os ciclos de sono e vigília ao longo do dia – Imagem: kanyanat wongsa / Shutterstock

Uma revisão sistemática publicada em 2020 analisou 41 estudos, com 92.340 participantes, e encontrou associações entre maior variabilidade nos horários de sono e diferentes desfechos de saúde. Os autores ressaltaram, porém, que não foi possível estabelecer um limite universal para definir quanto de variação seria excessivo e que a qualidade da evidência variou entre os resultados analisados.

Uma forma prática de visualizar essa diferença é o chamado jet lag social. Moreno define o fenômeno como a diferença entre os horários de dormir e acordar durante a semana e nos fins de semana. “Jet lag social não é uma doença. Jet lag social é um fenômeno”, afirma.

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A luz também participa da sincronização do relógio biológico. Moreno destaca que a exposição à luz durante a manhã ajuda nessa regulação e sinaliza ao organismo que o dia começou.

À noite, a exposição à luz artificial também pode interferir nessa sincronização. Segundo Moreno, telas e outras fontes de luz artificial com quantidade importante de luz azul podem afetar o sistema de temporização circadiana, mas o efeito depende do horário, da iluminância e da duração da exposição.

Para quem dorme oito horas e acorda sem disposição com frequência, o número de horas é apenas um dos pontos a observar. É preciso considerar também a qualidade e a continuidade do descanso, os horários em que o sono acontece, a regularidade da rotina e a presença de sinais de algum distúrbio.

“Eventualmente podemos acordar cansados se as condições de sono daquela noite não foram ideais. Mas a sensação frequente de sono não reparador sempre demanda atenção e deve ser investigada”, afirma Huebra.

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Saúde

O que acontece com o corpo quando você fica tempo demais sentado?

Redação Informe 360

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Para quem trabalha diante do computador, passa horas estudando ou dirige por longos períodos, ficar sentado durante boa parte do dia pode parecer inevitável. A falta prolongada de movimento, porém, não afeta apenas o gasto de energia: ela também altera a atividade dos músculos, a circulação nas pernas e a forma como o organismo lida com a glicose.

Esse comportamento é chamado de comportamento sedentário. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define o termo como qualquer comportamento durante a vigília em que a pessoa permanece sentada, reclinada ou deitada e gasta até 1,5 MET de energia. Comportamento sedentário e inatividade física não são sinônimos: uma pessoa pode fazer exercícios regularmente e, ainda assim, passar muitas horas do restante do dia sentada.

No Brasil, uma análise da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 estimou que 30,1% dos adultos relataram seis horas ou mais por dia de comportamento sedentário. O dado foi obtido por autorrelato, portanto não corresponde a uma medição direta do tempo que cada participante permaneceu sentado.

O que acontece com o corpo quando passamos horas sentados?

Um dos efeitos pode aparecer nas pernas. Quando caminhamos, a contração dos músculos da panturrilha e da coxa ajuda a impulsionar o sangue de volta ao coração. Durante longos períodos sentados, esses músculos permanecem muito menos ativos.

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“O coração é o principal músculo de bombeamento sanguíneo pelo nosso corpo, mas existem outros corações, entre aspas, que auxiliam o coração no retorno venoso”, explica André Pêgas, fisioterapeuta e osteopata e CEO da clínica Doutor Hérnia. Segundo ele, a musculatura da panturrilha e da coxa auxilia o retorno do sangue dos membros inferiores para o coração e, quando esses músculos ficam sem se contrair, esse retorno pode ficar prejudicado.

Mulher em pé alongando os braços em um escritório ao lado de uma mesa com computador.
Interromper períodos prolongados sentado com movimento é uma das estratégias para reduzir o tempo sedentário ao longo do dia – Imagem: Wasana Kunpol / Shutterstock

É nesse contexto que algumas pessoas podem perceber as pernas ou os tornozelos mais inchados depois de um período prolongado sentadas. Estudos experimentais também indicam que permanecer sentado por algumas horas pode provocar alterações temporárias na função dos vasos sanguíneos das pernas. Uma meta-análise encontrou redução da dilatação mediada pelo fluxo nos membros inferiores após 120 e 180 minutos de sedentarismo contínuo.

A falta de movimento também interfere na atividade dos grandes músculos. “Quando ficamos muitas horas sentados, principalmente sem movimentar as pernas, os grandes músculos do corpo entram em um estado de baixa atividade”, afirma Anderson Clayton Sant’Anna, médico do esporte e nutrólogo, integrante da plataforma médica INKI e médico do Paraná Clube. Segundo ele, isso reduz o gasto de energia e a utilização de glicose pelos músculos, com efeito especialmente relevante depois das refeições.

Por que a glicose também é afetada

Os músculos esqueléticos são importantes para retirar glicose da circulação. A contração muscular aumenta a entrada de glicose nas células, enquanto a falta prolongada de movimento reduz esse estímulo.

“O músculo é um dos principais responsáveis por retirar a glicose do sangue”, explica Sant’Anna. Quando a pessoa permanece praticamente imóvel por horas, esse estímulo diminui. Depois de uma refeição, segundo o médico, o organismo pode precisar de uma resposta maior de insulina para controlar a glicose. Ele ressalta, porém, que algumas horas sentado não significam que a pessoa desenvolverá diabetes. O problema está principalmente na exposição repetida e prolongada ao comportamento sedentário, especialmente quando há pouca atividade física no restante do dia.

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A literatura experimental ajuda a separar as alterações que aparecem rapidamente dos efeitos que podem estar relacionados à saúde no longo prazo. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 reuniu 53 estudos, dos quais 39 entraram na análise quantitativa. Em comparação com permanecer sentado continuamente, interromper o período com pequenas atividades reduziu a resposta pós-prandial de glicose e insulina. Entre os protocolos estudados, as pausas com caminhada apresentaram os maiores efeitos.

Isso não significa, contudo, que já esteja demonstrado que essas pausas, isoladamente, previnam diabetes ou outras doenças no longo prazo. A maior parte desses estudos avaliou respostas agudas, principalmente as alterações de glicose e insulina depois das refeições.

O que sabemos sobre os efeitos no longo prazo?

Quando a análise passa das alterações observadas em algumas horas para os desfechos que aparecem depois de anos, a natureza da evidência muda. Estudos observacionais encontram associações entre maiores volumes de comportamento sedentário e maior risco de problemas cardiovasculares, diabetes tipo 2 e mortalidade. A OMS recomenda, por isso, limitar o tempo sedentário e substituí-lo por atividade física de qualquer intensidade.

“É difícil afirmar que o ato de sentar ‘causa’ a doença de forma isolada”, afirma o cardiologista Firmino Haag, coordenador da Cardiologia do Hospital Albert Sabin (HAS). Para ele, o comportamento sedentário cria condições fisiológicas que podem contribuir para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares ao longo do tempo.

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Haag também afirma que as evidências científicas mostram uma associação consistente entre passar longos períodos sentado e maior risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e mortalidade por todas as causas. Ao mesmo tempo, ele ressalta que a ciência ainda busca definir com precisão como o tempo sentado se relaciona com esses riscos e aponta a dificuldade de separar esse comportamento de outros fatores, como alimentação e genética.

Por isso, não é adequado transformar os resultados epidemiológicos em uma regra como “depois de determinado número de horas sentado a pessoa começa a correr risco”. A OMS recomenda limitar o comportamento sedentário, mas não estabelece um limite diário universal de horas sentado que possa ser considerado seguro para todos os adultos.

Quem faz exercício também precisa se movimentar ao longo do dia?

Sim. Fazer atividade física regularmente e passar muitas horas sentado são comportamentos que podem coexistir.

Haag chama atenção para pessoas que fazem exercícios, mas permanecem sentadas durante grande parte do restante do dia. Para ele, o exercício é fundamental, mas não deve ser tratado como uma compensação completa para períodos extremos de sedentarismo.

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A própria OMS trata essas duas dimensões de forma complementar. Para adultos, a recomendação é de pelo menos 150 a 300 minutos semanais de atividade aeróbica moderada, ou 75 a 150 minutos de atividade vigorosa, além de atividades de fortalecimento muscular em pelo menos dois dias da semana. A organização também orienta que o tempo sedentário seja limitado e substituído por atividade física.

Levantar da cadeira realmente ajuda?

Os estudos indicam que interromper períodos prolongados de sedentarismo pode melhorar algumas respostas fisiológicas, principalmente no metabolismo da glicose.

A revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 encontrou redução da resposta pós-prandial de glicose e insulina quando períodos prolongados sentados eram interrompidos por pequenas atividades. Entre os protocolos estudados, aqueles que incluíam caminhada apresentaram os maiores efeitos.

Sant’Anna resume o achado da seguinte forma: “Levantar, caminhar alguns minutos, subir uma escada ou realizar alguma atividade leve já pode ajudar.” Para ele, os estudos sugerem que caminhar pode ser mais eficaz do que simplesmente ficar em pé para melhorar a resposta metabólica.

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Uma revisão sistemática e meta-análise comparou justamente ficar em pé com caminhada leve durante períodos prolongados sentados. Os resultados mostraram redução da glicose pós-prandial nas duas estratégias, mas a caminhada teve efeito maior e também reduziu a resposta de insulina.

Isso não significa que ficar em pé seja inútil. O resultado indica que, nos protocolos estudados, caminhar produziu efeitos metabólicos mais consistentes do que permanecer parado em pé.

Existe um intervalo ideal para fazer essas pausas?

Ainda não existe um intervalo universal que possa ser apresentado como regra para todas as pessoas.

Na revisão de 2026, os protocolos que interrompiam o sedentarismo a cada 15 a 20 minutos apresentaram as maiores reduções de glicose e insulina entre as frequências avaliadas. Isso indica que esse intervalo apareceu entre os protocolos com melhores resultados, e não que a ciência tenha estabelecido 15 ou 20 minutos como uma recomendação obrigatória.

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Sant’Anna afirma que os dados apontam para benefícios com interrupções frequentes, mas faz uma ressalva: “Ainda não existe um ‘número mágico’ universal”. Ele cita 30 minutos como uma referência prática para evitar longos períodos contínuos sentado e observa que alguns estudos encontraram resultados melhores com intervalos de 15 a 20 minutos.

André Pêgas, por sua vez, recomenda interromper o período sentado a cada 40 a 50 minutos por cerca de cinco minutos, com movimentos para ativar a musculatura das pernas.

As recomendações diferentes reforçam a cautela necessária: não existe um único protocolo de pausa que possa ser aplicado indistintamente a todos. O ponto em comum entre as evidências é evitar longos períodos contínuos de imobilidade e incorporar mais movimento ao longo do dia.

E as costas?

O sistema musculoesquelético também pode ser afetado pela permanência prolongada na mesma posição, mas a relação entre comportamento sedentário e dor lombar é mais complexa do que simplesmente dizer que “ficar sentado causa dor nas costas”.

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Pêgas destaca fatores como o apoio inadequado da cadeira, a falta de mudança de posição e a menor movimentação da musculatura. “A posição sentada, ela favorece ao encurtamento dos músculos da perna”, afirma. Segundo ele, a imobilidade prolongada e alterações na postura podem contribuir para sobrecargas mecânicas na região lombar.

Revisões da literatura, porém, encontraram resultados heterogêneos sobre a relação entre tempo sentado e dor lombar, o que impede uma conclusão simples de causa e efeito. Uma revisão sistemática sobre comportamento sedentário e dor musculoesquelética encontrou associações em alguns contextos, mas destacou limitações para estabelecer causalidade.

Na prática, isso significa que o objetivo não é encontrar uma posição perfeita para permanecer durante horas, mas alternar posturas e interromper períodos prolongados de imobilidade.

Pessoas caminham em um ambiente de trabalho.
Caminhar durante o dia é uma das formas de interromper períodos prolongados de sedentarismo e incluir mais movimento na rotina – Imagem: SS STD / Shutterstock

O que fazer durante um dia de trabalho sentado?

Não é necessário transformar cada pausa em um treino. O objetivo é reduzir o tempo continuamente imóvel e incluir pequenas oportunidades de movimento ao longo do dia.

Isso pode significar levantar para pegar água, caminhar até outro ambiente, usar uma escada em algumas situações ou simplesmente interromper o período sentado para mudar de posição e movimentar as pernas. Sant’Anna destaca que essas pausas podem ser simples e não precisam substituir uma sessão de exercício.

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Pêgas também recomenda inserir movimentos nas pausas, como caminhar e ativar a musculatura das pernas, mas ressalta que essas interrupções não substituem a prática regular de atividade física. Para ele, as pausas durante o expediente são medidas preventivas, enquanto exercício, fortalecimento e outras formas de atividade devem continuar fazendo parte da rotina.

A recomendação, portanto, não é trocar exercício por pausas nem passar o dia em pé, mas combinar atividade física regular com menos períodos prolongados de imobilidade.

O post O que acontece com o corpo quando você fica tempo demais sentado? apareceu primeiro em Olhar Digital.

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