Saúde
Anvisa aprova novo medicamento para Alzheimer em fase inicial

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou um novo medicamento para o tratamento do Alzheimer no Brasil. O aval foi concedido ao lecanemabe, comercializado sob o nome Leqembi pelas farmacêuticas Biogen e Eisai.
O fármaco integra uma nova geração de anticorpos que conseguem retardar, de forma modesta, a progressão da doença. Ainda não há previsão para o lançamento do medicamento no país.

A aprovação foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) no final de dezembro. O Leqembi recebeu autorização para o tratamento de pacientes adultos com comprometimento cognitivo leve e demência leve decorrentes da doença de Alzheimer, ou seja, em sua fase inicial.
Para que o tratamento seja indicado, é necessário que o paciente tenha a formação das placas da proteína amiloide no cérebro — patologia associada ao Alzheimer e principal alvo do medicamento — confirmada por testes.
Além disso, o paciente não pode portar a mutação no gene APOE-e4, que aumenta o risco de desenvolvimento da doença, mas, também, eleva a probabilidade de efeitos colaterais graves relacionados ao uso do fármaco.
O que é o medicamento aprovado pela Anvisa contra o Alzheimer
- O Leqembi é um anticorpo monoclonal antiamiloide, assim como o Kisunla (donanemabe), medicamento da farmacêutica Eli Lilly aprovado no Brasil em abril do ano passado, também indicado para o estágio inicial do Alzheimer;
- Ambos são considerados os primeiros tratamentos a modificar efetivamente a evolução da doença, ao demonstrarem redução no ritmo da perda cognitiva entre os pacientes;
- O medicamento atua ligando-se às placas da proteína amiloide e promovendo sua eliminação do entorno dos neurônios. A administração é feita por meio de infusão intravenosa, uma vez a cada duas semanas, em ambiente hospitalar, com duração aproximada de uma hora;
- Nos estudos clínicos, o tratamento com o Leqembi foi realizado ao longo de 18 meses. Ao final desse período, observou-se uma redução de 27% no ritmo da perda cognitiva dos pacientes;
- Quando os dados foram publicados, em 2022, foi a primeira vez que um medicamento demonstrou interferir diretamente na evolução da doença.
“A nova aprovação do Leqembi no Brasil é importante porque ele faz parte dessa nova classe de medicamentos para Alzheimer e já havia sido aprovado pelas agências regulatórias dos Estados Unidos e da União Europeia [UE]. Junto com o donanemabe, é o que traz o melhor benefício para os pacientes até agora. Não é a cura, mas proporciona um atraso da progressão do quadro clínico do paciente”, afirma, ao O Globo, o neurocientista Mychael Lourenço, professor do Instituto de Bioquímica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que pesquisa Alzheimer.
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Alto custo
Apesar do benefício considerado modesto, outros fatores podem dificultar a adesão ao tratamento, como o alto custo e o risco de efeitos colaterais graves. Ainda não há definição de preço no Brasil, já que a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) precisa estabelecer o valor máximo. Nos Estados Unidos, o tratamento custa cerca de US$ 26,5 mil (R$ 142,8 mil, na conversão direta).
O Kisunla, que já pode ser encontrado em alguns laboratórios e hospitais brasileiros, é vendido por cerca de R$ 24 mil por mês, ultrapassando R$ 200 mil anuais. O medicamento apresenta eficácia levemente superior à do Leqembi, com redução da perda cognitiva de até 35% ao longo de 18 meses nos estudos clínicos.
“Certamente os dois não são medicamentos que estarão disponíveis no SUS por enquanto, são muito caros. Imagino que um parecer para a incorporação seria negativo pelo custo, por não ser indicado para todas as pessoas e não curar a doença”, avalia o professor da UFRJ.
Além do custo, ambos os medicamentos exigem indicação e administração por profissionais especializados, além de acompanhamento rigoroso para minimizar os riscos de efeitos adversos. Entre as reações mais comuns observadas nos estudos estão hemorragias cerebrais, problemas relacionados à infusão e dores de cabeça. Em alguns casos, foram registrados edemas no cérebro, que podem ser graves.
“Esses edemas podem não resultar em nada, causar apenas uma dor de cabeça, mas em alguns casos graves podem levar ao óbito. Então, a triagem clínica tem que ser feita com muito cuidado. O paciente precisa fazer testes, exames de imagens, para entender o risco. Portanto, não é um medicamento de indicação geral para todo paciente com Alzheimer. É uma prescrição específica, alguns pacientes são contraindicados”, explica Lourenço.
O neurocientista ressalta ainda que a maioria dos testes clínicos desses medicamentos foi realizada nos Estados Unidos e na Europa, com populações geneticamente mais homogêneas do que a brasileira. Por isso, ele considera importante avaliar a eficácia e a segurança desses tratamentos especificamente na população do Brasil.

Apesar das limitações e dos desafios envolvidos, Lourenço destaca que os novos fármacos representam avanços relevantes após anos sem alternativas terapêuticas inovadoras para o Alzheimer.
“Do ponto de vista biológico, eles mostram que a ciência está no caminho certo para criar novos tratamentos. Fico otimista porque temos vivido avanços importantes nos últimos anos e acredito que vamos produzir cada vez melhores medicamentos e cada vez mais rápido”, conclui.
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Saúde
Sarampo: bebê morre nos EUA em meio a surto com mais de 400 casos

Um bebê morreu após contrair sarampo no estado de Wisconsin, nos Estados Unidos. A morte foi confirmada nesta quinta-feira (5) pelo Departamento de Serviços de Saúde local e está relacionada a um surto da doença no sudoeste do Estado. É o primeiro óbito por sarampo registrado na região desde 1990.
As autoridades não divulgaram a idade exata da criança nem outros detalhes sobre o caso. Segundo o departamento de saúde, a decisão busca preservar a privacidade da família. O legista responsável apontou o sarampo como causa imediata da morte.
O caso ocorre em meio ao avanço da doença em Wisconsin. Até 3 de novembro, o Estado havia registrado 431 infecções em 13 condados, o maior número em mais de 35 anos. Nove pessoas precisaram ser hospitalizadas por complicações.
Um dado chama a atenção: 428 dos 431 casos foram identificados em pessoas não vacinadas. A Secretaria Estadual de Saúde também alertou que os números podem não representar toda a extensão da circulação do vírus, já que nem todos os infectados procuram atendimento médico ou realizam testes.
Sarampo avança nos Estados Unidos
- O surto de Wisconsin faz parte de cenário mais amplo de aumento de casos nos Estados Unidos. A doença voltou a ganhar força no país depois de décadas de controle, com registros de surtos em diferentes estados;
- Em Wisconsin, a maior parte das infecções está concentrada em surto que envolve os condados de Grant, Iowa, Lafayette e Vernon. Até 3 de novembro, essas localidades somavam 362 casos confirmados e outros seis prováveis;
- O condado de Chippewa também enfrenta surto separado, com 44 casos confirmados. Outras infecções foram identificadas em diferentes regiões do Estado, algumas relacionadas a viagens para fora de Wisconsin;
- A morte do bebê é um dos óbitos associados ao sarampo registrados nos Estados Unidos em 2026. O número divulgado pelas autoridades estaduais é maior que a contagem oficial do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês), que utiliza critérios próprios para incluir mortes em seus levantamentos.

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Vacina é principal forma de prevenção
O sarampo é doença viral altamente contagiosa, transmitida pelo ar e por partículas respiratórias. A infecção pode provocar febre, tosse, coriza, conjuntivite e manchas vermelhas na pele. Em casos graves, pode causar pneumonia e inflamação do cérebro, com risco de morte.
Crianças pequenas, gestantes e pessoas com o sistema imunológico enfraquecido estão entre os grupos mais vulneráveis a complicações.
A principal forma de prevenção é a vacina tríplice viral, conhecida pela sigla MMR nos Estados Unidos, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola. Duas doses oferecem aproximadamente 97% de proteção contra o sarampo.
O Departamento de Serviços de Saúde de Wisconsin informou que distribuiu duas mil doses da vacina a departamentos locais de saúde desde 1º de agosto. No mesmo período, mais de 42 mil doses foram aplicadas por profissionais de saúde em todo o Estado.
As autoridades recomendam que moradores verifiquem se estão com a vacinação em dia. Pessoas que tiveram contato com alguém infectado devem permanecer em casa e procurar orientação médica. Quem apresentar febre e manchas na pele, especialmente após possível exposição ao vírus, deve telefonar antes de ir a uma clínica ou hospital, para evitar expor outras pessoas.
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Saúde
Anvisa aprova Wegovy em comprimido para obesidade no Brasil

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a versão em comprimido do Wegovy (semaglutida), desenvolvido pela Novo Nordisk. É o primeiro medicamento oral da classe dos agonistas de GLP-1 liberado no país para o tratamento da obesidade e do sobrepeso.
A nova apresentação é administrada uma vez ao dia, em dose de 25 mg, e oferece uma alternativa à aplicação semanal por caneta injetável. A autorização foi publicada no Diário Oficial da União, após pedido apresentado pela farmacêutica em 30 de janeiro deste ano.

Como a semaglutida age e quais foram os resultados dos testes
A semaglutida imita a ação do GLP-1, hormônio liberado pelo intestino após as refeições. Ele sinaliza ao cérebro que o organismo já recebeu alimento, reduzindo a fome, e retarda o esvaziamento do estômago, prolongando a sensação de saciedade.
A administração oral exige uma dose maior porque parte da substância é destruída no estômago antes de chegar à corrente sanguínea. Por isso, o comprimido utiliza 25 mg diários, enquanto a dose semanal de manutenção da caneta é de 2,4 mg.
No principal estudo clínico que embasou a aprovação, publicado na revista científica The New England Journal of Medicine, os participantes que tomaram o comprimido perderam, em média, 13,6% do peso corporal em 64 semanas. No grupo que recebeu placebo, a redução foi de 2,2%. Segundo os autores, o resultado se aproxima do observado com a versão injetável.
Com a aprovação do Wegovy em comprimido, o Brasil passa a contar com duas apresentações orais de semaglutida da Novo Nordisk, mas com indicações diferentes. Enquanto o novo medicamento é destinado ao tratamento da obesidade e do sobrepeso, o Rybelsus é utilizado no controle da diabetes tipo 2.
A chegada do Wegovy em comprimido às farmácias, no entanto, ainda depende da definição de preço. A Novo Nordisk informou que o valor não foi estabelecido e que a previsão é disponibilizar o medicamento no mercado brasileiro no próximo trimestre.
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Saúde
Câncer de pâncreas: vacina experimental consegue ativar células de defesa em 99% dos pacientes

Uma vacina experimental contra o câncer de pâncreas conseguiu estimular uma resposta imunológica em quase todos os pacientes que participaram de um ensaio clínico. O imunizante, chamado camupepimut, foi desenvolvido para ensinar o organismo a reconhecer sete mutações do gene KRAS, alterações associadas a aproximadamente 90% dos casos de adenocarcinoma ductal pancreático.
Os resultados foram apresentados em estudo publicado na revista científica Nature Medicine. A pesquisa foi conduzida por cientistas ligados à Mayo Clinic, nos Estados Unidos, e investigou se a vacina poderia ajudar a eliminar células cancerígenas que eventualmente permanecem no organismo mesmo depois de cirurgia e quimioterapia.
O câncer de pâncreas é conhecido por sua agressividade e pela dificuldade de tratamento. Um dos principais desafios é a possibilidade de a doença retornar mesmo depois de intervenções médicas, já que as células cancerígenas podem se espalhar rapidamente.
Nesse contexto, a proposta do imunizante é preparar o sistema imunológico para identificar alterações específicas das células tumorais e reagir contra elas.
Como funciona a vacina contra o câncer de pâncreas?
- A camupepimut foi projetada para estimular o organismo a reconhecer sete mutações diferentes do gene KRAS. Essas alterações são encontradas em cerca de 90% dos casos de adenocarcinoma ductal pancreático e desempenham papel importante no crescimento do câncer;
- Uma característica da tecnologia é a capacidade de direcionar os componentes da vacina aos linfonodos, estruturas fundamentais para o funcionamento da resposta imunológica;
- Para isso, os pesquisadores ligaram os ingredientes do imunizante a uma molécula de gordura que se conecta à albumina, proteína presente no sangue. A albumina funciona como transportadora e ajuda a levar esses componentes até os linfonodos;
- A intenção é estimular as células de defesa a reconhecer as mutações do KRAS e atacar células que apresentem essas alterações.
O que mostrou o ensaio clínico?
O estudo de fase 2 envolveu 144 pacientes com câncer de pâncreas associado a mutações no KRAS. Todos haviam passado por cirurgia e quimioterapia e, naquele momento, não apresentavam sinais detectáveis da doença.
Os participantes foram divididos aleatoriamente em dois grupos: 96 receberam a vacina experimental, enquanto os outros 48 permaneceram sob observação, sem receber o imunizante.
O principal resultado positivo apareceu na resposta imunológica. Quase 99% dos pacientes vacinados desenvolveram resposta aumentada de células T contra as mutações do KRAS.
Essas células são um tipo de glóbulo branco que desempenha papel importante na defesa do organismo, inclusive no reconhecimento e combate a células anormais.

A resposta também demonstrou persistência. Após 46 semanas do início do estudo, 95,5% dos participantes ainda apresentavam respostas detectáveis de células T contra as mutações investigadas. Entretanto, houve uma ressalva importante: a vacina não demonstrou melhorar significativamente a sobrevida livre da doença.
No grupo que recebeu o imunizante, esse período foi de 23,8 meses, em média. Entre os participantes que ficaram apenas sob observação, o resultado foi de 21,2 meses. A diferença foi considerada pequena e não apresentou significância estatística.
Portanto, embora a vacina tenha provocado uma resposta imunológica expressiva, ainda não há evidências suficientes para afirmar que ela reduz o risco de retorno do câncer.
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Pesquisadores identificam possíveis fatores de resposta
A equipe também encontrou algumas pistas sobre quais pacientes poderiam se beneficiar mais da estratégia. Uma delas envolve o DNA tumoral circulante (ctDNA), pequenos fragmentos de material genético liberados pelas células cancerígenas na corrente sanguínea.
Os pacientes que não apresentavam ctDNA detectável no início do estudo permaneceram livres da doença por mais tempo após receber a vacina, em comparação com aqueles que apresentavam esses fragmentos.
Outro fator observado foi a realização de radioterapia. Participantes que não haviam passado por esse tratamento apresentaram maior quantidade de linfócitos, o que pareceu favorecer a resposta ao imunizante.
Os resultados podem ajudar os pesquisadores a aperfeiçoar a vacina e identificar quais pacientes teriam maior probabilidade de responder ao tratamento.
Ben George, principal autor do estudo e oncologista da Mayo Clinic, afirmou ao IFL Science que a resposta imunológica é um sinal importante para compreender os efeitos biológicos da vacina e orientar os próximos testes.
Segundo ele, foi possível gerar resposta robusta contra as mutações do KRAS em praticamente todos os pacientes avaliados.
Próximos passos da pesquisa
Apesar dos resultados iniciais, a camupepimut ainda precisa passar por avaliações adicionais. Os pesquisadores esperam utilizar as informações obtidas no ensaio de fase 2 para aprimorar o imunizante e desenvolver um estudo clínico maior, de fase 3.
A vacina também não é a única estratégia experimental em investigação contra o câncer de pâncreas. Outra abordagem utiliza a tecnologia de RNA mensageiro (mRNA) para desenvolver imunizantes personalizados destinados a pacientes com formas agressivas da doença.
A necessidade de novas alternativas é significativa. Segundo os dados apresentados no artigo, a incidência global do câncer de pâncreas mais que dobrou nas últimas três décadas, passando de aproximadamente 196 mil novos casos em 1990 para mais de 510 mil em 2022.
Por enquanto, a camupepimut representa possibilidade promissora de estimular as defesas do organismo contra alterações genéticas associadas ao tumor. Mas a confirmação de seus benefícios clínicos dependerá dos próximos estágios de pesquisa.
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