Saúde
Quais os riscos de um transplante de órgão?

O transplante de órgão é um procedimento cirúrgico extremamente importante e, muitas vezes, necessário para salvar vidas. Ele consiste na reposição de um órgão (como pulmão, coração, pâncreas, rim ou fígado) ou de tecidos, como ossos, medula óssea e córneas, de um doador vivo ou falecido para um paciente doente.
Neste conteúdo, você verá que, assim como todo procedimento cirúrgico, o transplante de órgão tem alguns riscos. Entretanto, saiba que o texto a seguir não deve ser interpretado para desmotivar pacientes que precisam de transplantes ou sugerir que os procedimentos são ruins. Transplantes são importantes e salvam vidas.
Além disso, todos os riscos são minimizados por conta de diversos cuidados que são tomados pelos profissionais de saúde. O Brasil é referência mundial na área de transplantes e tem o maior sistema público de transplantes do mundo. A rede pública oferece aos pacientes assistência integral e gratuita, com exames preparatórios, acompanhamento, cirurgia e medicamentos pós-transplante.
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5 riscos de um transplante de órgão
A seguir, você confere 5 coisas que podem acontecer em um transplante de órgão. Inclusive, existem alguns casos raros ocorridos com pacientes no Brasil.
1. Rejeição do órgão transplantado

Logo após o transplante, é possível que o paciente comece a sentir sintomas de rejeição do órgão. Isso também pode ocorrer semanas, meses ou até anos depois.
O paciente pode sofrer com uma rejeição aguda assim que recebe o novo órgão, tendo calafrios, febre, fadiga, náusea e alterações bruscas na pressão arterial. Há também a possibilidade de a pessoa desenvolver uma rejeição crônica, que ocorre mais tarde e causa problemas contínuos de baixo nível ao órgão doado.
2. Infecção

Toda pessoa que passa por uma cirurgia corre o risco de sofrer com uma infecção. Pacientes transplantados não são diferentes. Eles podem sofrer infecções em decorrência da própria cirurgia, do uso de imunossupressores, do mau funcionamento do órgão transplantado ou de distúrbios que afetam o sistema imunológico.
As infecções que podem afetar pacientes transplantados são as mesmas que qualquer outra pessoa se recuperando de uma cirurgia pode ter, como infecções do local, no órgão recebido, trato urinário ou pneumonia. Há também riscos de parasitas, vírus, fungos e bactérias. Para evitar que isso aconteça, a maioria das pessoas transplantadas toma remédios antimicrobianos.
3. Câncer

Recentemente um caso raro de câncer acometeu um homem transplantado em São Paulo. Trata-se de Geraldo Vaz Junior, de 58 anos. Ele passou por um transplante de fígado e após meses do procedimento, foi diagnosticado com um câncer no órgão. Ao realizar exame de DNA, descobriu que as células cancerígenas não lhe pertenciam.
Conforme o Manual dos Transplantes (2022), do Ministério da Saúde, todo doador apto deve passar por uma triagem clínica, de imagem e laboratorial para descartar infecções e neoplasias transmissíveis (tipos de câncer). Se houver suspeita de tumor, o órgão é descartado de forma imediata.
Todavia, não existe um método que tenha a capacidade de eliminar o risco da doença por completo, pois células malignas microscópicas não são possíveis de ser detectadas.
No caso do Geraldo, ele recebeu o transplante no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Ao ser questionado pelo G1 sobre o caso, o hospital afirmou que “participa do Sistema Nacional de Transplantes (SNT) como centro transplantador, recebe os órgãos já analisados tecnicamente pela Central Estadual de Transplantes e realiza exclusivamente o procedimento cirúrgico, seguindo os protocolos estabelecidos pelo SNT. A organização atua em conformidade com a legislação brasileira e segue as melhores práticas internacionais em todos os seus processos assistenciais”.
4. HIV

Outro caso raro foi o de infecção por HIV em seis pacientes no Rio de Janeiro em 2024. Acontece que dois doadores realizaram exame de sangue em um laboratório privado na Baixada Fluminense e os resultados foram falsos negativos.
Isso pode acontecer devido a um erro laboratorial ou à “janela imunológica” de duas a três semanas entre a exposição a um agente infeccioso e a produção de anticorpos necessários para a detecção nos testes. Apesar do risco, é muito raro que pessoas que receberam órgãos contraiam a doença.
5. Doença do enxerto contra o hospedeiro

Imagem: shutterstock_Chay_Tee
Essa doença pode acontecer quando os glóbulos brancos (o enxerto) do doador atacam os tecidos do receptor (o hospedeiro). Quando ocorre, é em pessoas que recebem transplante de células-tronco, mas também há casos em pacientes que recebem transplantes de intestino delgado e fígado.
Entre os sintomas estão erupção cutânea, icterícia, febre, dores abdominais, diarreia, vômitos, perda de peso e elevação do risco de infecção. Apesar do risco de morte, é possível tratar essa doença.
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Saúde
Seu médico usa IA? CFM criou regras para isso; entenda o que muda para você

A inteligência artificial (IA) avança a passos largos em muitas áreas. Uma delas é a medicina. Em fevereiro de 2026, o Conselho Federal de Medicina publicou regras para o uso da tecnologia na área. Essas regras começaram a valer em 26 de agosto.
O objetivo da resolução do CFM nº 2.454/2026 é balizar o uso da tecnologia para que ela funcione como instrumento de apoio ao trabalho médico.
O Olhar Digital conversou com especialistas da área para entender (e te explicar) as regras recentes. Confira abaixo os destaques.
‘Ponto central da resolução é: a IA apoia o médico, mas decisão é sempre humana’, diz especialista
No que diz respeito aos profissionais da saúde, a resolução estabelece que a autonomia e a responsabilidade do médico permanecem integrais.
Isso significa que a IA jamais pode substituir a decisão clínica final. O médico é o responsável por diagnósticos, tratamentos e prescrições.

Aliás, o profissional tem o direito de recusar ou parar de usar ferramentas de IA que considere inadequadas ou ineficazes. E deve registrar no prontuário do paciente sempre que usar essa tecnologia.
“A Resolução CFM nº 2.454/2026 é o primeiro marco brasileiro que define regras claras para o uso de inteligência artificial na medicina”, diz Karlyse Claudino Belli, especialista em IA aplicada à saúde, em entrevista ao Olhar Digital.
“E seu ponto central é simples: a IA apoia o médico, mas a decisão é sempre humana”, acrescenta Belli, que também é Chief Business Data Officer (CBDO) da iHealth.
Para especialista, a resolução viabiliza três garantias para você: “o direito de saber quando a IA participou do seu atendimento, o direito de recusar seu uso e maior garantia de que diagnósticos e tratamentos continuam sendo comunicados por uma pessoa, não por um algoritmo”.
Níveis de risco
Para organizar a aplicação da IA na medicina, a resolução classifica níveis de risco. São eles:
- Baixo: Aplicações com impacto mínimo ou inexistente sobre a saúde e direitos dos pacientes. Não exercem influência decisória direta em diagnósticos ou tratamentos, atuando em tarefas operacionais ou administrativas (como agendamento de consultas ou gestão logística);
- Médio: Ferramentas que apresentam potencial de impacto adverso, mas que é totalmente mitigável pela supervisão humana ativa e controles de segurança. Apoiam decisões clínicas e operacionais importantes sem agir de forma autônoma;
- Alto: Aplicações com elevado potencial de causar danos físicos, psíquicos ou morais aos indivíduos, ou impactos relevantes à saúde pública. Incluem sistemas que influenciam diretamente decisões médicas críticas ou que atuam em contextos de alta vulnerabilidade e situações de vida ou morte;
- Inaceitável: Categoria atribuída a sistemas cujos riscos ou características violam diretamente preceitos éticos e legais da prática médica.
“Bem aplicada, a IA tende a reduzir erros por omissão e a devolver ao médico tempo para a escuta”, diz Karlyse Belli.
“A resolução do CFM existe justamente para que esse ganho aconteça sem que a relação médico-paciente seja terceirizada”, finaliza a especialista.
Robôs humanoides com IA podem superar humanos na medicina, segundo médico
O doutor Miguel Sabino, professor na Escola Paulista de Medicina (EPM) e coordenador do comitê científico da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), contou ao Olhar Digital como tem sido o avanço da IA na área.
Para o especialista, a tecnologia tem “utilidades fundamentais” na área hoje em dia.

“Talvez há uns anos, um médico, recebendo um paciente, ao examiná-lo, ao fazer algumas hipóteses de diagnóstico, tivesse que consultar livros, consultar outros colegas quando tivesse alguma dúvida a respeito daquele diagnóstico”, começa Sabino.
“Hoje, com a inteligência artificial, realmente há uma resposta imediata. Não é 100% segura, mas é bastante confiável – desde que aquele profissional que está fazendo aquela solicitação saiba como fazê-la e saiba como interpretá-la”, diz o médico.
“A IA também ajuda muito na redação de documentos na área médica, principalmente (volto a insistir) quando supervisionada e depois relida pelo profissional daquela área”, acrescenta Sabino.
“A inteligência artificial faz com que o tempo daquele profissional seja usado de maneira muito mais racional”, observa.
Para o futuro, Sabino vislumbra um cenário que “parece ficção científica, mas não é”.
“A gente vê a evolução de robôs humanoides, vê a grande utilidade que já se tem de robôs dirigidos por seres humanos em alguns procedimentos cirúrgicos. Isso é uma grande evolução do ponto de vista técnico”, diz o especialista.
“Eu acredito que a associação de um robô humanoide com uma inteligência artificial já bem elaborada pode realmente, a médio prazo, gerar uma máquina que vá poder fazer hoje atividades em vários campos, inclusive na medicina e até na cirurgia, que possam substituir um técnico humano”, afirma.
O especialista fez duas ressalvas no seu comentário. A primeira: “os cuidados do ponto de vista de privacidade e de identidade têm que ser totalmente considerados e preservados”.
A segunda: “A gente não pode esquecer que nós somos seres humanos e temos essa coisa de querer ser acolhidos e ser bem tratados. Nossa humanidade nos exige isso. E acho que a gente não pode se desvincular totalmente disso.”
O médico imagina um futuro tão tecnológico que parece ficção científica. Mas alerta que “não podemos nos desumanizar”.
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Nove medicamentos contra o câncer chegam ao SUS; veja lista comentada por especialista

Nove novos medicamentos de alta tecnologia para o tratamento de câncer passaram a ser distribuídos pelo Ministério da Saúde na rede pública em todo o Brasil. A medida integra um plano do governo federal para ampliar o acesso a terapias oncológicas no país.
De acordo com a pasta, os medicamentos contemplam 13 indicações clínicas, incluindo tratamentos para tipos de câncer de grande incidência, como os de mama, próstata e pulmão, além de linfomas. A expectativa inicial é beneficiar mais de 116 mil pacientes em 20 unidades de saúde de 17 estados. Até o fim do ano, a distribuição deverá alcançar toda a rede pública.

Em entrevista ao Olhar Digital, a oncologista Maria Ignez Braghiroli, especialista em tumores do trato digestivo da Oncologia D’Or e integrante do Grupo de Tumores Gastrointestinais do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), explicou o impacto da incorporação dos novos medicamentos ao Sistema Único de Saúde (SUS), suas indicações e os cuidados necessários durante o tratamento.
Entre eles, estão o abemaciclibe, utilizado no tratamento do câncer de mama, e o pazopanibe, indicado para casos avançados de câncer renal. São terapias que podem ampliar as opções de tratamento, mas exigem acompanhamento médico e cuidados específicos durante o uso.
O abemaciclibe age sobre proteínas envolvidas na multiplicação das células tumorais, como explica Maria Ignez. “O abemaciclibe é um medicamento que inibe algumas proteínas responsáveis por estimular a multiplicação dessas células tumorais. E, ao bloquear essas proteínas, ele ajuda a impedir que as células continuem se proliferando. Ele é usado em um tipo de câncer de mama com receptor de hormônio positivo.”
Segundo a médica, o tratamento costuma ser combinado à terapia hormonal e, por ser administrado por via oral, permite que o paciente tome o medicamento em casa, desde que respeite os horários e as doses prescritos. A frequência habitual é de duas tomadas diárias, embora o esquema possa variar de acordo com cada caso.
“Como efeito colateral mais frequente, ele pode provocar diarreia, especialmente nas primeiras semanas. Por isso é preciso ter o acompanhamento próximo do oncologista. Como todas as outras medicações, ele pode causar cansaço e há pessoas que têm um pouco de enjoo”, alerta a oncologista.
Sobre o pazopanibe, Maria Ignez explica que sua ação interfere nos mecanismos que favorecem o crescimento do tumor e a formação de vasos sanguíneos responsáveis por fornecer oxigênio e nutrientes às células cancerígenas.
“O pazopanibe é uma terapia-alvo, que foi liberada pelo SUS para o tratamento do câncer de células renais. Ele é um anti-angiogênico, isto é, bloqueia os sinais que favorecem o crescimento tumoral e a formação de novos vasos, de modo a inibir o fornecimento de nutrientes para as células tumorais”, explica Braghiroli.
O tratamento requer monitoramento regular, principalmente por causa de possíveis alterações na pressão arterial e na função hepática. A hipertensão pode surgir até mesmo em pessoas que não apresentavam o problema antes de iniciar a medicação, enquanto alterações no fígado podem ser identificadas por exames de sangue periódicos.
“Também pode aumentar o risco de sangramento, o que merece atenção da pessoa que já tem predisposição a isso. Apesar de tudo, é uma opção que geralmente tem uma tolerância razoável, principalmente quando comparado com as quimioterapias habituais usadas em outro contexto”, acrescenta a oncologista.
Outra mudança envolve o trastuzumabe, medicamento já utilizado no tratamento de determinados tumores de mama e que agora passa a contemplar também casos específicos de câncer de estômago e da junção entre o estômago e o esôfago.
A indicação está relacionada à presença de uma proteína chamada HER2, cuja amplificação ocorre em uma parcela dos tumores gástricos. Braghiroli explica que a eficácia do medicamento nesse contexto começou a ser investigada em estudos publicados há mais de uma década.
“O trastuzumabe foi utilizado inicialmente para o tratamento de tumores de mama que tinham amplificação de uma proteína chamada HER2. Como essa amplificação ocorre entre 10% a 15% dos tumores de estômago, um estudo publicado em 2010 mostrou seu benefício para o tratamento de tumores de estômago.”
Desde então, o trastuzumabe passou a ser aprovado, em combinação com a quimioterapia, para tumores específicos que apresentam essa característica molecular. A pesquisa também avança na avaliação de novas combinações terapêuticas. Um estudo publicado em 2023 mostrou o benefício de se associar imunoterapia a esta combinação. Este ano, outras drogas com o mesmo alvo já se mostram superiores.
“Hoje existem alguns avanços nesse cenário como a eventual adição da imunoterapia e outras drogas com este mesmo alvo, que têm sido estudadas. Para o SUS, é um avanço, já que essa medicação já é de eficácia comprovada há certo tempo”, afirma a médica.
Quais são os nove medicamentos incorporados ao SUS?
A lista divulgada pelo Ministério da Saúde reúne tratamentos para diferentes tipos de câncer, com indicações que dependem das características do tumor e do estágio da doença:
- Trastuzumabe: indicado para câncer de estômago ou da junção esofagogástrica.
- Abemaciclibe: utilizado no tratamento do câncer de mama em estágio inicial ou avançado.
- Acetato de lanreotida: indicado para determinados tumores neuroendócrinos.
- Pazopanibe: voltado ao câncer renal metastático de células claras.
- Rituximabe: empregado no tratamento da leucemia linfocítica crônica e de determinados linfomas.
- Abiraterona: indicada para câncer de próstata resistente ou sensível à castração.
- Gefitinibe: utilizado como tratamento inicial de determinados casos de câncer de pulmão de células não pequenas.
- TSH recombinante: empregado na preparação de pacientes com câncer diferenciado de tireoide para tratamento com iodo radioativo.
- Sunitinibe: indicado para câncer renal metastático e tumores estromais gastrointestinais (GIST) avançados.
Bloqueio hormonal avançado contra o câncer de próstata
A abiraterona atua sobre um dos principais mecanismos envolvidos na progressão do câncer de próstata: o estímulo hormonal. Como a testosterona favorece o crescimento de muitas dessas células tumorais, reduzir sua produção pode ajudar a controlar a doença.
“A abiraterona reduz a produção deste hormônio pelo organismo, inclusive nos locais em que não são completamente bloqueados pelos tratamentos hormonais convencionais. Esse mecanismo de ação ajuda a diminuir o estímulo para o crescimento das células do câncer da próstata, possibilitando o controle da doença por mais tempo e aumentando o tempo de vida dos pacientes que fazem uso dessa medicação.”
Segundo a especialista, o medicamento costuma ser utilizado quando o bloqueio hormonal convencional deixa de controlar adequadamente a doença. Seu emprego nesse cenário já está bem estabelecido na prática clínica. “Esse tratamento geralmente é utilizado quando as formas de bloqueio hormonal convencional já falharam. É uma medicação que tem também um uso já muito bem estabelecido nesse contexto”.
Exames ajudam a definir quais pacientes podem receber os medicamentos
Nem todos os tratamentos da lista são adequados para qualquer pessoa com determinado tipo de câncer. Em alguns casos, a indicação depende da identificação de alterações genéticas ou de proteínas específicas nas células tumorais, o que torna os exames laboratoriais parte fundamental da decisão terapêutica.
É o caso do gefitinibe, utilizado contra determinados tumores de pulmão. Embora seja uma opção estabelecida há anos, o medicamento é indicado somente quando o tumor apresenta uma alteração no gene EGFR, que pode torná-lo sensível à terapia. “Trata-se de um medicamento que tem seu papel bem estabelecido há algum tempo. Ele não é indicado para todos os subtipos de câncer pulmonar e sim para aqueles, cujos tumores têm uma alteração no gene EGFR”.
A identificação dessa alteração é feita por meio de um teste molecular realizado em uma amostra do tumor coletada durante a investigação diagnóstica. O resultado ajuda a determinar se o gefitinibe é uma opção adequada para aquele paciente.
SUS também amplia rastreamento do câncer de intestino
Além da oferta de medicamentos, o Ministério da Saúde começou a distribuir 400 mil testes imunoquímicos fecais para estados e capitais brasileiras. A iniciativa integra a ampliação das ações de prevenção e diagnóstico precoce do câncer de intestino.
O rastreamento é voltado a homens e mulheres de 50 a 75 anos e busca identificar sinais que justifiquem uma investigação complementar. O teste detecta pequenas quantidades de sangue nas fezes, mesmo quando não são visíveis a olho nu. Esse sinal pode estar associado a pólipos – lesões que, em alguns casos, podem evoluir para câncer – ou a tumores já existentes.
A identificação precoce permite encaminhar os pacientes para exames complementares e, quando necessário, iniciar o tratamento. Entre as estratégias de rastreamento estão a pesquisa de sangue oculto nas fezes e a colonoscopia, exame que permite visualizar o interior do intestino e retirar determinados pólipos.
“Diversas sociedades médicas, tanto nacionais quanto internacionais, recomendam o rastreamento para o câncer de intestino, porque é uma estratégia capaz de prevenir o desenvolvimento da doença por meio da retirada do pólipo. Existem algumas formas de rastreamento, como a colonoscopia e a pesquisa de sangue oculto nas fezes”, explica a médica.
O teste imunoquímico fecal funciona como uma etapa inicial dessa investigação. Quando o resultado é positivo, o paciente deve ser encaminhado para uma colonoscopia, que permite identificar a origem do sangramento e avaliar a presença de lesões que exijam tratamento.
“O teste imunoquímico fecal é uma estratégia de rastreamento que tenta identificar quantidades pequenas de sangue nas fezes, mesmo quando não são visíveis aos nossos olhos. Se der positivo, o indivíduo é direcionado para a colonoscopia”, detalha Maria Ignez.
Outras medidas também estão em andamento na rede pública. Entre elas, estão a implementação do rastreamento do câncer do colo do útero com testes de DNA e o custeio federal de cirurgias oncológicas videotorácicas, realizadas por meio de pequenas incisões. A técnica pode favorecer uma recuperação mais rápida em comparação com procedimentos que exigem cortes maiores.
A ampliação dessas iniciativas, porém, depende de que a oferta de medicamentos, exames e procedimentos se traduza em atendimento efetivo. Garantir que os pacientes tenham acesso aos recursos indicados e consigam manter o acompanhamento ao longo de todas as etapas do tratamento continua sendo um dos principais desafios do SUS.
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Saúde
Mulher tem convulsões só na menstruação e lesão some após tratamento

Uma mulher de 41 anos passou a sofrer convulsões que ocorriam exclusivamente durante a menstruação. Após anos de investigação, médicos suspeitaram de endometriose no cérebro, depois que exames identificaram uma lesão no hipocampo, região ligada à memória.
O caso chamou a atenção dos pesquisadores porque as crises cessaram após tratamento hormonal e a lesão desapareceu em uma ressonância de 2026. A hipótese, porém, ainda não foi confirmada por biópsia.
Lesão desapareceu após tratamento hormonal
As primeiras crises ocorreram em fevereiro de 2019. Durante os episódios, a paciente perdia parcial ou totalmente a consciência, ficava com o olhar parado e apresentava confusão e falhas de memória depois das convulsões.
Ela não relatava sintomas comuns da endometriose, como cólicas intensas e dor pélvica cíclica. Seis meses depois, começou a anotar as datas das crises e da menstruação. O diário revelou que os episódios aconteciam apenas durante o sangramento menstrual.
Uma ressonância magnética feita em agosto de 2019 identificou uma alteração no hipocampo direito. Os médicos investigaram possibilidades como malformação cerebral, infecção e tumor, mas os exames não esclareceram a origem do problema. Os medicamentos antiepilépticos também não conseguiram controlar as crises.
Em 2020, outra ressonância revelou um nódulo de aproximadamente um centímetro, com características que poderiam indicar sangramento antigo. Essa descoberta levou os médicos a considerar a endometriose entre as hipóteses.
A paciente começou a tomar dienogeste e desogestrel em 2021. Os dois hormônios são utilizados no tratamento da endometriose. As convulsões cessaram, e os antiepilépticos foram suspensos três meses depois. Em março de 2026, uma nova ressonância já não mostrava a lesão.
O caso foi publicado em 11 de setembro no Journal of Clinical Medicine, por pesquisadores da Universidade de Medicina e Farmácia Grigore T. Popa, na Romênia.
Como o ciclo menstrual pode influenciar as crises
A epilepsia catamenial é caracterizada pela concentração das crises em determinadas fases do ciclo menstrual. Segundo a literatura citada pelos pesquisadores, ela afeta entre um terço e metade das mulheres em idade fértil que têm epilepsia.
A relação envolve a ação dos hormônios sobre os neurônios. O estrogênio pode aumentar sua excitabilidade, enquanto a progesterona ajuda a inibir a atividade cerebral. Perto da menstruação, a queda desse segundo hormônio pode favorecer crises em mulheres suscetíveis.
Essa relação, por si só, não indica endometriose. A doença ocorre quando tecido semelhante ao endométrio, que reveste o interior do útero, cresce fora da cavidade uterina. Ainda não se sabe ao certo como esse tecido poderia chegar ao cérebro. Entre as hipóteses estão o transporte de células pelos vasos sanguíneos ou linfáticos e a permanência de células deslocadas durante o desenvolvimento embrionário.
Diagnóstico continua sem confirmação
A endometriose cerebral é extremamente rara. Os pesquisadores encontraram apenas oito casos descritos em estudos anteriores e, até onde sabem, nenhum apresentava uma lesão claramente localizada no hipocampo, como a observada nesta paciente.
A raridade do quadro e a localização da alteração dificultaram a confirmação do diagnóstico. Os médicos consideraram arriscado retirar uma amostra do tecido para biópsia, exame que permitiria verificar se a lesão era realmente formada por tecido semelhante ao endométrio. Por isso, outras explicações continuam possíveis, incluindo um tumor de crescimento lento, uma inflamação ou alterações provocadas pelas próprias crises epilépticas.
O ginecologista Marcos Tcherniakovsky, diretor de comunicação da Sociedade Brasileira de Endometriose, explica que a doença deixou de ser considerada exclusivamente pélvica e passou a ser compreendida como uma condição crônica, inflamatória e sistêmica. Isso significa que suas manifestações podem ocorrer em diferentes partes do organismo, embora o acometimento cerebral seja excepcional.
No caso da paciente, a resposta ao tratamento hormonal reforçou a suspeita, mas não resolveu a questão. O ginecologista e cirurgião Gustavo Leme ressalta que o ponto escuro observado na ressonância de 2020 poderia indicar a presença de ferro deixado por um sangramento antigo. Esse sinal, porém, não é exclusivo da endometriose e não permite confirmar a origem da lesão.
Há outro dado relevante: o tratamento hormonal foi interrompido em setembro de 2025, e as crises não haviam voltado no acompanhamento relatado. Em março de 2026, uma nova ressonância, realizada sem o uso dos hormônios, também não mostrou a alteração identificada nos exames anteriores.
Mesmo com essa evolução, os pesquisadores não conseguiram estabelecer a causa do desaparecimento da lesão e do fim das convulsões. A melhora pode estar relacionada ao controle de um possível foco de endometriose no cérebro ou à interrupção das oscilações hormonais que desencadeavam as crises. Sem a confirmação por análise do tecido, as duas explicações permanecem em aberto.
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