Saúde
Câncer de pulmão: comprimido diário mantém doença avançada controlada por 7 anos

Um comprimido tomado uma vez ao dia conseguiu manter o câncer de pulmão avançado sob controle por sete anos em mais da metade dos pacientes que participaram de um estudo clínico. O resultado, considerado inédito para a doença, foi obtido com o lorlatinibe, medicamento desenvolvido para combater tumores que apresentam alteração genética específica.
Publicado em setembro de 2026 na revista científica Annals of Oncology, o estudo é atualização de sete anos do ensaio clínico de fase 3 CROWN. Os resultados mostram que 55% dos pacientes tratados com lorlatinibe permaneceram vivos e sem progressão da doença após esse período.
O levantamento acompanhou 296 pessoas com câncer de pulmão de não pequenas células avançado e positivo para a alteração genética ALK. Desse total, 149 receberam lorlatinibe e 147 foram tratadas com crizotinibe, outro medicamento utilizado contra esse subtipo de tumor.
No grupo que recebeu o tratamento mais recente, a mediana de sobrevida livre de progressão ainda não havia sido alcançada após sete anos de acompanhamento. Já entre os pacientes tratados com crizotinibe, esse indicador foi de apenas 9,1 meses. A probabilidade de permanecer vivo e sem progressão da doença após sete anos foi de 3% nesse segundo grupo.
Os pesquisadores também calcularam redução de 81% no risco de progressão da doença ou morte entre os pacientes que receberam lorlatinibe, na comparação com o crizotinibe.
O resultado representa avanço importante no tratamento do câncer de pulmão avançado. Entretanto, o medicamento não funciona para todos os pacientes e ainda enfrenta obstáculos de acesso no Brasil.
Medicamento ataca alteração genética específica
- O lorlatinibe é um exemplo do que os oncologistas chamam de terapia-alvo: medicamentos desenvolvidos para combater alterações genéticas específicas que estimulam o crescimento de tumores;
- No caso do câncer de pulmão, uma dessas alterações envolve o gene ALK. Em aproximadamente 3% a 5% dos casos de câncer de pulmão de não pequenas células, ocorre um rearranjo nesse gene, que leva à produção de proteína anormal responsável por enviar sinais contínuos de crescimento e multiplicação às células;
- O lorlatinibe atua bloqueando essa proteína e interrompendo o mecanismo que favorece o desenvolvimento do tumor.
Uma das características importantes do medicamento é sua capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica, estrutura que protege o cérebro e dificulta a entrada de diversas substâncias, inclusive alguns medicamentos.
Isso é relevante porque pacientes com câncer de pulmão avançado podem desenvolver metástases cerebrais. O lorlatinibe foi projetado para atuar também nesses casos, além de combater mecanismos de resistência que podem comprometer a eficácia de tratamentos anteriores.
Os resultados de sete anos reforçam esse potencial. No estudo CROWN, não foram registrados novos episódios de progressão intracraniana depois dos primeiros 30 meses de tratamento com lorlatinibe.
Entre os pacientes que chegaram ao fim dos dois primeiros anos sem progressão da doença, a probabilidade estimada de continuarem vivos e sem avanço do câncer no sétimo ano foi de 79%.
Resultado representa mudança histórica no tratamento
O avanço chama atenção quando comparado às alternativas disponíveis em gerações anteriores.
Durante décadas, a quimioterapia era uma das principais opções para tratar o câncer de pulmão avançado. Com o desenvolvimento dos inibidores de ALK, os médicos passaram a contar com medicamentos mais direcionados, capazes de prolongar o controle da doença.
Segundo o oncologista Gustavo Schvartsman, do Hospital Sírio-Libanês, a evolução pode ser observada nos resultados obtidos ao longo das diferentes gerações de medicamentos.
“Nunca alguém passava de cinco anos sem a doença progredir quando só existia quimioterapia. Com os inibidores de primeira geração, foi para 5% ou 10% dos pacientes; com a segunda geração, 20% a 30%; agora chegamos a 55%. O avanço é muito grande e vemos um passo enorme no dia a dia do paciente”, afirmou ao g1.
O oncologista Stephen Stefani também destacou a importância do acompanhamento prolongado para avaliar a eficácia do tratamento. “A diferença de eficácia se torna muito gritante quando você vê essa análise de sete anos e é um resultado relevante para o paciente”, avaliou.
Matheus Henrique Dias, biomédico e pesquisador de medicamentos contra o câncer na Holanda, também considera os resultados promissores. “Para quem tem essa mutação específica, vai ser de fato uma mudança grande”, afirmou.
Apesar do entusiasmo, há uma ressalva: os dados de sobrevida global ainda não estão maduros. Isso significa que o estudo ainda não acumulou o número de mortes necessário para realizar a análise definitiva desse indicador.
Portanto, os resultados demonstram um controle prolongado da doença, mas não permitem afirmar que o medicamento representa uma cura para o câncer de pulmão avançado.
Leia mais:
- China apresenta novo medicamento experimental para tratar câncer de pulmão
- Adenocarcinoma de pulmão: o que é a doença detectada no Papa Leão XIV
- Anvisa aprova novo remédio contra câncer de pulmão; Brasil é o 2º país a liberar terapia

Efeitos colaterais ainda preocupam especialistas
O desempenho do lorlatinibe também precisa ser analisado considerando os efeitos adversos.
Na atualização de sete anos do estudo CROWN, eventos adversos de grau 3 ou 4 foram registrados em 77% dos pacientes que receberam o medicamento. Na maioria dos casos, esses eventos não significam necessariamente que foram provocados diretamente pelo tratamento.
A análise também mostrou que 34% dos participantes precisaram reduzir a dose do medicamento em algum momento. Ainda assim, a eficácia de longo prazo foi semelhante entre pacientes que passaram por redução de dose e aqueles que não precisaram dessa alteração.
Outro aspecto importante envolve os efeitos no sistema nervoso central. Dados de segurança reunidos em diferentes estudos clínicos indicam que esse tipo de reação pode ocorrer em 52% dos pacientes que recebem lorlatinibe.
Entre as manifestações estão alterações cognitivas, mudanças de humor, problemas de fala, distúrbios do sono e, em alguns casos, sintomas psiquiátricos mais graves.
Na análise específica de cinco anos do estudo CROWN, efeitos no sistema nervoso central foram registrados em 42% dos participantes tratados com lorlatinibe. A maioria foi classificada como leve ou moderada.
Para Matheus Henrique Dias, o avanço científico precisa ser acompanhado de atenção à qualidade de vida dos pacientes. “A gente vê que ainda há alguns pontos que precisam ser considerados. É importante que as pessoas vivam, mas é muito importante que elas continuem sendo, em boa medida, elas mesmas”, afirmou.
Paciente brasileira recupera perspectiva de futuro
Uma das pessoas que vivem os efeitos do tratamento é Paula Piteri. Ela tinha 38 anos quando descobriu, em 2020, que um nódulo no pulmão era câncer. Na época, tinha acabado de se tornar mãe e levava vida saudável, sem histórico de tabagismo. A descoberta aconteceu durante um exame de rotina.
Inicialmente, Paula não realizou o sequenciamento genético do tumor. Ela passou por cirurgia para retirar a lesão e acreditou que estaria livre da doença. Entretanto, em 2025, recebeu um novo diagnóstico: o câncer havia voltado. “Foi um choque, eu sou mãe de três crianças e isso podia mudar minha vida completamente”, contou.
Atualmente, Paula utiliza lorlatinibe, fornecido pelo plano de saúde. O medicamento está previsto na cobertura da saúde suplementar para as indicações contempladas pelas regras da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
“É muito bom ter perspectiva, saber que eu tenho vida para viver. Eu quero fazer parte disso e viver por muitos anos ainda”, afirmou.
Medicamento custa R$ 37 mil por mês e não está disponível no SUS
Apesar dos resultados promissores, o acesso ao lorlatinibe ainda é um desafio no Brasil.
Antes mesmo de iniciar o tratamento, o paciente precisa identificar se o tumor apresenta a alteração genética ALK. Isso exige exames moleculares que nem sempre estão disponíveis na rede pública ou são facilmente acessíveis por meio dos planos de saúde.
Para Gustavo Schvartsman, existe dificuldade em garantir que diagnóstico e tratamento caminhem juntos. “Não adianta fazer o teste num sistema em que o remédio não vai estar disponível. E não adianta ter o remédio se o paciente não conseguiu o diagnóstico correto”, resumiu.
O preço também representa um obstáculo. Segundo a tabela de preços de medicamentos, uma caixa com 30 comprimidos pode chegar a aproximadamente R$ 37 mil.
Considerando um tratamento contínuo durante sete anos, o custo ultrapassaria R$ 3,1 milhões por paciente, sem considerar eventuais reajustes ou descontos.
A incorporação do lorlatinibe ao Sistema Único de Saúde (SUS) chegou a ser analisada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). Em maio de 2025, porém, o Ministério da Saúde publicou decisão contrária à disponibilização do medicamento para pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células com alteração ALK em estágio localmente avançado ou metastático, na primeira linha de tratamento.
A decisão também rejeitou a incorporação do alectinibe, enquanto aprovou o brigatinibe para essa indicação.
A justificativa da comissão envolveu a relação entre os custos e os benefícios clínicos das terapias avaliadas. Segundo o relatório, os valores apresentados não atingiram os critérios de custo-efetividade considerados adequados para o SUS.
Com isso, pacientes que precisam do lorlatinibe dependem de cobertura por planos de saúde, aquisição particular ou decisões judiciais para conseguir acesso ao tratamento pela rede pública.
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Anvisa aprova 5 novas canetas de GLP-1 para diabetes e obesidade

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o registro de cinco novas canetas de GLP-1 para o tratamento de diabetes e obesidade. A autorização foi publicada nesta quinta-feira (29/10), na Resolução nº 4.244/2026, no Diário Oficial da União (DOU).
Com os novos registros, a agência chega a 20 canetas dessa classe aprovadas em 2026. Os medicamentos contêm liraglutida ou semaglutida e são fabricados por empresas indianas.

Quais são as novas canetas aprovadas?
Três medicamentos são indicados para diabetes e dois para obesidade. Confira os produtos, suas indicações e as empresas responsáveis pelos registros e pela fabricação.
- Aribet (liraglutida): indicado para diabetes; registro da Farma Vision Importação e Exportação de Medicamentos Ltda. e fabricação da indiana Biocon.
- Lyrza (liraglutida): indicado para obesidade, associado a exercícios físicos e mudanças na alimentação; registro da Farma Vision e fabricação da Biocon.
- Wylovol (liraglutida): indicado para obesidade, também associado a exercícios físicos e mudanças na alimentação; registro da Farma Vision e fabricação da Biocon.
- Embeltah (semaglutida): indicado para diabetes; registro da Dr. Reddys Farmacêutica do Brasil Ltda. e fabricação da indiana OneSource Specialty.
- Sevema (semaglutida): indicado para diabetes; registro da Aché Laboratórios Farmacêuticos S.A. e fabricação da OneSource Specialty.
Por que a Anvisa priorizou os registros?
A aprovação faz parte de uma estratégia iniciada em agosto de 2025, após solicitação do Ministério da Saúde. A priorização busca atender aos interesses do Sistema Único de Saúde (SUS), no âmbito do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (Ceis), e à necessidade de abastecimento do mercado nacional.
A iniciativa resultou na publicação do Edital de Chamamento nº 12/2025, que estabeleceu prioridade para a análise de medicamentos à base de liraglutida e semaglutida.

O que muda com as aprovações?
As duas substâncias pertencem à classe dos agonistas do receptor de GLP-1. Esses medicamentos imitam a ação de um hormônio produzido pelo intestino, que participa da regulação da glicose no sangue e dos mecanismos de fome e saciedade.
O registro sanitário, porém, não significa que os produtos já estejam disponíveis nas farmácias. As datas de lançamento e os preços de comercialização das cinco canetas não foram informados. No Brasil, os preços máximos dos medicamentos são regulados pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED).
Desde 2025, a venda de medicamentos agonistas do receptor de GLP-1 exige receita médica, que deve ficar retida na farmácia.
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Seu médico usa IA? CFM criou regras para isso; entenda o que muda para você

A inteligência artificial (IA) avança a passos largos em muitas áreas. Uma delas é a medicina. Em fevereiro de 2026, o Conselho Federal de Medicina publicou regras para o uso da tecnologia na área. Essas regras começaram a valer em 26 de agosto.
O objetivo da resolução do CFM nº 2.454/2026 é balizar o uso da tecnologia para que ela funcione como instrumento de apoio ao trabalho médico.
O Olhar Digital conversou com especialistas da área para entender (e te explicar) as regras recentes. Confira abaixo os destaques.
‘Ponto central da resolução é: a IA apoia o médico, mas decisão é sempre humana’, diz especialista
No que diz respeito aos profissionais da saúde, a resolução estabelece que a autonomia e a responsabilidade do médico permanecem integrais.
Isso significa que a IA jamais pode substituir a decisão clínica final. O médico é o responsável por diagnósticos, tratamentos e prescrições.

Aliás, o profissional tem o direito de recusar ou parar de usar ferramentas de IA que considere inadequadas ou ineficazes. E deve registrar no prontuário do paciente sempre que usar essa tecnologia.
“A Resolução CFM nº 2.454/2026 é o primeiro marco brasileiro que define regras claras para o uso de inteligência artificial na medicina”, diz Karlyse Claudino Belli, especialista em IA aplicada à saúde, em entrevista ao Olhar Digital.
“E seu ponto central é simples: a IA apoia o médico, mas a decisão é sempre humana”, acrescenta Belli, que também é Chief Business Data Officer (CBDO) da iHealth.
Para especialista, a resolução viabiliza três garantias para você: “o direito de saber quando a IA participou do seu atendimento, o direito de recusar seu uso e maior garantia de que diagnósticos e tratamentos continuam sendo comunicados por uma pessoa, não por um algoritmo”.
Níveis de risco
Para organizar a aplicação da IA na medicina, a resolução classifica níveis de risco. São eles:
- Baixo: Aplicações com impacto mínimo ou inexistente sobre a saúde e direitos dos pacientes. Não exercem influência decisória direta em diagnósticos ou tratamentos, atuando em tarefas operacionais ou administrativas (como agendamento de consultas ou gestão logística);
- Médio: Ferramentas que apresentam potencial de impacto adverso, mas que é totalmente mitigável pela supervisão humana ativa e controles de segurança. Apoiam decisões clínicas e operacionais importantes sem agir de forma autônoma;
- Alto: Aplicações com elevado potencial de causar danos físicos, psíquicos ou morais aos indivíduos, ou impactos relevantes à saúde pública. Incluem sistemas que influenciam diretamente decisões médicas críticas ou que atuam em contextos de alta vulnerabilidade e situações de vida ou morte;
- Inaceitável: Categoria atribuída a sistemas cujos riscos ou características violam diretamente preceitos éticos e legais da prática médica.
“Bem aplicada, a IA tende a reduzir erros por omissão e a devolver ao médico tempo para a escuta”, diz Karlyse Belli.
“A resolução do CFM existe justamente para que esse ganho aconteça sem que a relação médico-paciente seja terceirizada”, finaliza a especialista.
Robôs humanoides com IA podem superar humanos na medicina, segundo médico
O doutor Miguel Sabino, professor na Escola Paulista de Medicina (EPM) e coordenador do comitê científico da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), contou ao Olhar Digital como tem sido o avanço da IA na área.
Para o especialista, a tecnologia tem “utilidades fundamentais” na área hoje em dia.

“Talvez há uns anos, um médico, recebendo um paciente, ao examiná-lo, ao fazer algumas hipóteses de diagnóstico, tivesse que consultar livros, consultar outros colegas quando tivesse alguma dúvida a respeito daquele diagnóstico”, começa Sabino.
“Hoje, com a inteligência artificial, realmente há uma resposta imediata. Não é 100% segura, mas é bastante confiável – desde que aquele profissional que está fazendo aquela solicitação saiba como fazê-la e saiba como interpretá-la”, diz o médico.
“A IA também ajuda muito na redação de documentos na área médica, principalmente (volto a insistir) quando supervisionada e depois relida pelo profissional daquela área”, acrescenta Sabino.
“A inteligência artificial faz com que o tempo daquele profissional seja usado de maneira muito mais racional”, observa.
Para o futuro, Sabino vislumbra um cenário que “parece ficção científica, mas não é”.
“A gente vê a evolução de robôs humanoides, vê a grande utilidade que já se tem de robôs dirigidos por seres humanos em alguns procedimentos cirúrgicos. Isso é uma grande evolução do ponto de vista técnico”, diz o especialista.
“Eu acredito que a associação de um robô humanoide com uma inteligência artificial já bem elaborada pode realmente, a médio prazo, gerar uma máquina que vá poder fazer hoje atividades em vários campos, inclusive na medicina e até na cirurgia, que possam substituir um técnico humano”, afirma.
O especialista fez duas ressalvas no seu comentário. A primeira: “os cuidados do ponto de vista de privacidade e de identidade têm que ser totalmente considerados e preservados”.
A segunda: “A gente não pode esquecer que nós somos seres humanos e temos essa coisa de querer ser acolhidos e ser bem tratados. Nossa humanidade nos exige isso. E acho que a gente não pode se desvincular totalmente disso.”
O médico imagina um futuro tão tecnológico que parece ficção científica. Mas alerta que “não podemos nos desumanizar”.
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Saúde
Nove medicamentos contra o câncer chegam ao SUS; veja lista comentada por especialista

Nove novos medicamentos de alta tecnologia para o tratamento de câncer passaram a ser distribuídos pelo Ministério da Saúde na rede pública em todo o Brasil. A medida integra um plano do governo federal para ampliar o acesso a terapias oncológicas no país.
De acordo com a pasta, os medicamentos contemplam 13 indicações clínicas, incluindo tratamentos para tipos de câncer de grande incidência, como os de mama, próstata e pulmão, além de linfomas. A expectativa inicial é beneficiar mais de 116 mil pacientes em 20 unidades de saúde de 17 estados. Até o fim do ano, a distribuição deverá alcançar toda a rede pública.

Em entrevista ao Olhar Digital, a oncologista Maria Ignez Braghiroli, especialista em tumores do trato digestivo da Oncologia D’Or e integrante do Grupo de Tumores Gastrointestinais do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), explicou o impacto da incorporação dos novos medicamentos ao Sistema Único de Saúde (SUS), suas indicações e os cuidados necessários durante o tratamento.
Entre eles, estão o abemaciclibe, utilizado no tratamento do câncer de mama, e o pazopanibe, indicado para casos avançados de câncer renal. São terapias que podem ampliar as opções de tratamento, mas exigem acompanhamento médico e cuidados específicos durante o uso.
O abemaciclibe age sobre proteínas envolvidas na multiplicação das células tumorais, como explica Maria Ignez. “O abemaciclibe é um medicamento que inibe algumas proteínas responsáveis por estimular a multiplicação dessas células tumorais. E, ao bloquear essas proteínas, ele ajuda a impedir que as células continuem se proliferando. Ele é usado em um tipo de câncer de mama com receptor de hormônio positivo.”
Segundo a médica, o tratamento costuma ser combinado à terapia hormonal e, por ser administrado por via oral, permite que o paciente tome o medicamento em casa, desde que respeite os horários e as doses prescritos. A frequência habitual é de duas tomadas diárias, embora o esquema possa variar de acordo com cada caso.
“Como efeito colateral mais frequente, ele pode provocar diarreia, especialmente nas primeiras semanas. Por isso é preciso ter o acompanhamento próximo do oncologista. Como todas as outras medicações, ele pode causar cansaço e há pessoas que têm um pouco de enjoo”, alerta a oncologista.
Sobre o pazopanibe, Maria Ignez explica que sua ação interfere nos mecanismos que favorecem o crescimento do tumor e a formação de vasos sanguíneos responsáveis por fornecer oxigênio e nutrientes às células cancerígenas.
“O pazopanibe é uma terapia-alvo, que foi liberada pelo SUS para o tratamento do câncer de células renais. Ele é um anti-angiogênico, isto é, bloqueia os sinais que favorecem o crescimento tumoral e a formação de novos vasos, de modo a inibir o fornecimento de nutrientes para as células tumorais”, explica Braghiroli.
O tratamento requer monitoramento regular, principalmente por causa de possíveis alterações na pressão arterial e na função hepática. A hipertensão pode surgir até mesmo em pessoas que não apresentavam o problema antes de iniciar a medicação, enquanto alterações no fígado podem ser identificadas por exames de sangue periódicos.
“Também pode aumentar o risco de sangramento, o que merece atenção da pessoa que já tem predisposição a isso. Apesar de tudo, é uma opção que geralmente tem uma tolerância razoável, principalmente quando comparado com as quimioterapias habituais usadas em outro contexto”, acrescenta a oncologista.
Outra mudança envolve o trastuzumabe, medicamento já utilizado no tratamento de determinados tumores de mama e que agora passa a contemplar também casos específicos de câncer de estômago e da junção entre o estômago e o esôfago.
A indicação está relacionada à presença de uma proteína chamada HER2, cuja amplificação ocorre em uma parcela dos tumores gástricos. Braghiroli explica que a eficácia do medicamento nesse contexto começou a ser investigada em estudos publicados há mais de uma década.
“O trastuzumabe foi utilizado inicialmente para o tratamento de tumores de mama que tinham amplificação de uma proteína chamada HER2. Como essa amplificação ocorre entre 10% a 15% dos tumores de estômago, um estudo publicado em 2010 mostrou seu benefício para o tratamento de tumores de estômago.”
Desde então, o trastuzumabe passou a ser aprovado, em combinação com a quimioterapia, para tumores específicos que apresentam essa característica molecular. A pesquisa também avança na avaliação de novas combinações terapêuticas. Um estudo publicado em 2023 mostrou o benefício de se associar imunoterapia a esta combinação. Este ano, outras drogas com o mesmo alvo já se mostram superiores.
“Hoje existem alguns avanços nesse cenário como a eventual adição da imunoterapia e outras drogas com este mesmo alvo, que têm sido estudadas. Para o SUS, é um avanço, já que essa medicação já é de eficácia comprovada há certo tempo”, afirma a médica.
Quais são os nove medicamentos incorporados ao SUS?
A lista divulgada pelo Ministério da Saúde reúne tratamentos para diferentes tipos de câncer, com indicações que dependem das características do tumor e do estágio da doença:
- Trastuzumabe: indicado para câncer de estômago ou da junção esofagogástrica.
- Abemaciclibe: utilizado no tratamento do câncer de mama em estágio inicial ou avançado.
- Acetato de lanreotida: indicado para determinados tumores neuroendócrinos.
- Pazopanibe: voltado ao câncer renal metastático de células claras.
- Rituximabe: empregado no tratamento da leucemia linfocítica crônica e de determinados linfomas.
- Abiraterona: indicada para câncer de próstata resistente ou sensível à castração.
- Gefitinibe: utilizado como tratamento inicial de determinados casos de câncer de pulmão de células não pequenas.
- TSH recombinante: empregado na preparação de pacientes com câncer diferenciado de tireoide para tratamento com iodo radioativo.
- Sunitinibe: indicado para câncer renal metastático e tumores estromais gastrointestinais (GIST) avançados.
Bloqueio hormonal avançado contra o câncer de próstata
A abiraterona atua sobre um dos principais mecanismos envolvidos na progressão do câncer de próstata: o estímulo hormonal. Como a testosterona favorece o crescimento de muitas dessas células tumorais, reduzir sua produção pode ajudar a controlar a doença.
“A abiraterona reduz a produção deste hormônio pelo organismo, inclusive nos locais em que não são completamente bloqueados pelos tratamentos hormonais convencionais. Esse mecanismo de ação ajuda a diminuir o estímulo para o crescimento das células do câncer da próstata, possibilitando o controle da doença por mais tempo e aumentando o tempo de vida dos pacientes que fazem uso dessa medicação.”
Segundo a especialista, o medicamento costuma ser utilizado quando o bloqueio hormonal convencional deixa de controlar adequadamente a doença. Seu emprego nesse cenário já está bem estabelecido na prática clínica. “Esse tratamento geralmente é utilizado quando as formas de bloqueio hormonal convencional já falharam. É uma medicação que tem também um uso já muito bem estabelecido nesse contexto”.
Exames ajudam a definir quais pacientes podem receber os medicamentos
Nem todos os tratamentos da lista são adequados para qualquer pessoa com determinado tipo de câncer. Em alguns casos, a indicação depende da identificação de alterações genéticas ou de proteínas específicas nas células tumorais, o que torna os exames laboratoriais parte fundamental da decisão terapêutica.
É o caso do gefitinibe, utilizado contra determinados tumores de pulmão. Embora seja uma opção estabelecida há anos, o medicamento é indicado somente quando o tumor apresenta uma alteração no gene EGFR, que pode torná-lo sensível à terapia. “Trata-se de um medicamento que tem seu papel bem estabelecido há algum tempo. Ele não é indicado para todos os subtipos de câncer pulmonar e sim para aqueles, cujos tumores têm uma alteração no gene EGFR”.
A identificação dessa alteração é feita por meio de um teste molecular realizado em uma amostra do tumor coletada durante a investigação diagnóstica. O resultado ajuda a determinar se o gefitinibe é uma opção adequada para aquele paciente.
SUS também amplia rastreamento do câncer de intestino
Além da oferta de medicamentos, o Ministério da Saúde começou a distribuir 400 mil testes imunoquímicos fecais para estados e capitais brasileiras. A iniciativa integra a ampliação das ações de prevenção e diagnóstico precoce do câncer de intestino.
O rastreamento é voltado a homens e mulheres de 50 a 75 anos e busca identificar sinais que justifiquem uma investigação complementar. O teste detecta pequenas quantidades de sangue nas fezes, mesmo quando não são visíveis a olho nu. Esse sinal pode estar associado a pólipos – lesões que, em alguns casos, podem evoluir para câncer – ou a tumores já existentes.
A identificação precoce permite encaminhar os pacientes para exames complementares e, quando necessário, iniciar o tratamento. Entre as estratégias de rastreamento estão a pesquisa de sangue oculto nas fezes e a colonoscopia, exame que permite visualizar o interior do intestino e retirar determinados pólipos.
“Diversas sociedades médicas, tanto nacionais quanto internacionais, recomendam o rastreamento para o câncer de intestino, porque é uma estratégia capaz de prevenir o desenvolvimento da doença por meio da retirada do pólipo. Existem algumas formas de rastreamento, como a colonoscopia e a pesquisa de sangue oculto nas fezes”, explica a médica.
O teste imunoquímico fecal funciona como uma etapa inicial dessa investigação. Quando o resultado é positivo, o paciente deve ser encaminhado para uma colonoscopia, que permite identificar a origem do sangramento e avaliar a presença de lesões que exijam tratamento.
“O teste imunoquímico fecal é uma estratégia de rastreamento que tenta identificar quantidades pequenas de sangue nas fezes, mesmo quando não são visíveis aos nossos olhos. Se der positivo, o indivíduo é direcionado para a colonoscopia”, detalha Maria Ignez.
Outras medidas também estão em andamento na rede pública. Entre elas, estão a implementação do rastreamento do câncer do colo do útero com testes de DNA e o custeio federal de cirurgias oncológicas videotorácicas, realizadas por meio de pequenas incisões. A técnica pode favorecer uma recuperação mais rápida em comparação com procedimentos que exigem cortes maiores.
A ampliação dessas iniciativas, porém, depende de que a oferta de medicamentos, exames e procedimentos se traduza em atendimento efetivo. Garantir que os pacientes tenham acesso aos recursos indicados e consigam manter o acompanhamento ao longo de todas as etapas do tratamento continua sendo um dos principais desafios do SUS.
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