Saúde
Conhece o Vírus Nipah? Entenda sintomas, formas de contágio e se pode chegar ao Brasil

Recentemente, quase 100 pessoas ficaram em quarentena na Bengala Ocidental (Índia) devido ao surto do vírus Nipah. De início, 5 pacientes foram diagnosticados com o microrganismo, mas médicos, enfermeiros e outros profissionais também foram isolados por segurança, a fim de minimizar as chances da infecção letal escapar.
Com a Índia em alerta, outras regiões pelo mundo também ficam preocupadas. Por esse motivo, o Olhar Digital apurou as informações e trouxe um resumo completo sobre o vírus Nipah. A seguir, você confere dados sobre os sintomas, formas de infecção, e a possibilidade de o micróbio chegar ao Brasil.
Tudo o que você precisa saber sobre o vírus Nipah
- O que é o vírus Nipah e qual sua origem biológica?
- Em quais partes do mundo o vírus Nipah já foi detectado?
- Quais são as formas de contágio e transmissão do vírus Nipah?
- Quais os sintomas, sequelas e métodos de prevenção contra o vírus Nipah?
- Como o vírus Nipah é diagnosticado no corpo humano? Entenda como funciona o tratamento
- O vírus Nipah pode chegar ao Brasil?
O que é o vírus Nipah e qual sua origem biológica?

Steven Mc Leod/Unsplash)
O vírus Nipah existe naturalmente no organismo de morcegos frugívoros (que se alimentam de frutas, folhas, seiva, néctar e pólen), mas apenas naqueles que pertencem ao gênero Pteropus. Esse tipo de morcego, inclusive, não existe no Brasil, mas é comum em muitos países do continente asiático.
Uma vez que um morcego está infectado pelo vírus, é possível transmiti-lo para outros animais, humanos e superfícies (como em frutas e plantas). Dito isso, está claro que o Nipah é um patógeno zoonótico: circula entre animais, mas pode infectar humanos e ocasionar doenças graves.
Estima-se que sua letalidade ocorre entre 40% e 75% dos casos, o que o torna extremamente perigoso. Juntando este fato à fácil transmissão de uma pessoa a outra, os profissionais de saúde caracterizam o patógeno com alto potencial epidêmico e pandêmico.
Em quais partes do mundo o vírus Nipah já foi detectado?

O primeiro caso documentado de um humano infectado pelo vírus Nipah ocorreu em 1999, na Malásia. O patógeno acometeu, especialmente, fazendas, infectando porcos e trabalhadores rurais.
Em seguida, outras regiões do Sul e Sudeste asiático registraram infecções. Em Bangladesh, há infecções todos os anos; recentemente, regiões como Bengala Ocidental e Kerala, na Índia, acenderam um alerta nacional. Outros países infectados incluem Singapura, Tailândia e até Austrália.
Quais são as formas de contágio e transmissão do vírus Nipah?

O vírus Nipah chegou aos humanos devido ao consumo de comida contaminada pelo patógeno, mas também pela proximidade de fazendas dentro do território de morcegos do gênero Pteropus.
Como mencionado anteriormente, os morcegos Pteropus são hospedeiros naturais do vírus. Durante sua rotina de alimentação, os bichinhos podem lamber e/ou urinar em diferentes superfícies, o que solta partículas do patógeno, favorecendo a transmissão. Desta forma, árvores, plantas pequenas, seiva, e frutos são facilmente contaminados pelo vírus.
Uma vez que estes lugares são contaminados, a transmissão viral pode ocorrer por diferentes formas:
- Fazendas de porcos, próximas a plantas e árvores onde esses morcegos se alimentam, estão em contato direto com frutas contaminadas. Isso significa que os porcos podem se alimentar das frutas que carregam o patógeno ou simplesmente entrar em contato com elas, o que os deixam doentes;
- Quando um humano toca um porco contaminado e, sem lavar as mãos, toca o rosto, coça os olhos ou coloca os dedos no nariz, isso favorece a infecção viral no nosso organismo;
- Contato com fluidos corporais de porcos infectados;
- Comer frutas mal-higienizadas e com sinais de mordida, ou entrar em contato com árvores e plantas contaminadas também auxilia no processo de transmissão do vírus de uma superfície para o corpo humano. Um grande exemplo é a seiva da palmeira, que é uma fonte de alimento dos morcegos Pteropus: a seiva é utilizada por muitos povos asiáticos para fazer açúcar e adoçante, mas, dependendo da forma do contato e do nível de higienização, o manuseio favorece a infecção viral;
- Ter contato direto com fluidos corporais (saliva e urina) de um morcego do gênero Pteropus.
Uma vez que um ser humano está infectado pelo vírus, o contágio ocorre pelas seguintes formas:
- Tosse;
- Espirro;
- Respirar próximo das pessoas infectadas;
- Contato direto com saliva, muco, sangue, e urina de alguém infectado (mas, para isso, os fluidos precisam entrar em contato com as mucosas).
Após a infecção, o vírus entra em encubação, o que pode durar de 4 a 14 dias. Dentre desse período, é possível carregar o vírus e ainda estar assintomático, o que dificulta a detecção precoce.
Leia mais:
- Por que alguns vírus causam pandemias e outros não?
- Como surgem os vírus e bactérias? Entenda a origem desses microrganismos
- Quais os vírus e bactérias mais perigosos do mundo?
Quais os sintomas, sequelas e métodos de prevenção contra o vírus Nipah?

De início, os sintomas comuns são semelhantes aos de uma gripe convencional:
- Febre;
- Dor de cabeça;
- Dor de garganta;
- Tosse;
- Dificuldade para respirar
- Dor muscular;
- Vômito.
Conforme o vírus progride, contudo, os sintomas passam a ficar mais acentuados. Outros quadros graves de saúde também acometem o corpo com o tempo, variando entre:
- Pneumonia;
- Encefalite (inflamação cerebral grave);
- Convulsão;
- Confusão mental;
- Coma.
No estágio mais grave, a infecção leva à morte.
Em alguns casos, quem sobreviveu a estágios agudos do vírus pode apresentar sequelas neurológicas persistentes, como convulsões.
No quesito prevenção, é crucial evitar o contato direto com morcegos do gênero Pteropus e com humanos infectados. Além disso, após tocar/manusear porcos e outros animais, é essencial lavar bem as mãos com sabão e água corrente, e evitar tocar no rosto, boca, olhos e nariz. Outra forma eficaz de prevenção é higienizar, corretamente, todo tipo de produto que outrora tenha sido a fonte de alimentação de morcegos, como frutas e vegetais, e procurar por sinais de mordida antes de consumir uma fruta.
Como o vírus Nipah é diagnosticado no corpo humano? Entenda como funciona o tratamento

Como supracitado, os sintomas iniciais do vírus são similares aos de uma gripe convencional, de maneira que o paciente e os médicos não suspeitam que seja algo pior.
No caso de você estar numa região onde a infecção é comum, o que pode ajudar o médico no diagnóstico correto é explicar se você teve ou não contato direto com morcegos do gênero Pteropus, se é fazendeiro ou passou algum tempo em uma fazenda, se mora em regiões mais afastadas e próximas de árvores frutíferas, ou se veio de uma região onde ocorre um surto viral do Nipah atualmente.
Baseado nisso, o médico investiga o histórico epidemiológico e cruza as informações com os sintomas.
Se necessário, exames laboratoriais serão exigidos para confirmar a presença do Nipah no seu organismo. Nesse caso, os exames mais comuns são:
- RT-PCR;
- Teste de anticorpos;
- Cultura viral, etc.
Atualmente, não há remédio ou vacina que trate diretamente o vírus Nipah. O que os profissionais da saúde podem fazer é medicar os sintomas apresentados, tratar outras doenças que possam aparecer, e aguardar a melhora do paciente conforme é observado por uma equipe médica.
O vírus Nipah pode chegar ao Brasil?

Atualmente, não há casos registrados de infecção por vírus Nipah no Brasil. O principal motivo para isso é porque os morcegos frugívoros que vivem aqui não carregam o vírus em seu organismo; para além disso, não temos morcegos do gênero Pteropus no Brasil.
Se a infecção tivesse de chegar até aqui, seria primariamente por dois motivos:
- Tráfico de morcegos do gênero Pteropus para o Brasil;
- Pessoas que viajaram diretamente de áreas infectadas até às terras brasileiras. Neste caso, uma vez que o vírus está em incubação no corpo, é possível estar assintomático, viajar, e, posteriormente, apresentar os sintomas da infecção.
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Saúde
Como cientistas querem desenvolver vacinas em apenas 100 dias contra a próxima pandemia

Da divulgação da sequência genética do SARS-CoV-2 até o início da vacinação contra a covid-19 passaram-se 326 dias — um recorde histórico para o desenvolvimento de uma vacina. Agora, cientistas querem reduzir esse intervalo para apenas 100 dias diante da próxima ameaça com potencial pandêmico. A meta faz parte da chamada Missão dos 100 Dias, iniciativa liderada pela Coalition for Epidemic Preparedness Innovations (CEPI) e adotada por líderes do G7 e do G20 para acelerar a resposta global a novas epidemias.
O objetivo não é colocar uma vacina pronta no braço da população em pouco mais de três meses. A proposta é que, em até 100 dias após a identificação de um novo patógeno, cientistas consigam desenvolver um candidato vacinal, obter as autorizações iniciais necessárias e iniciar sua fabricação em escala, encurtando o tempo de resposta antes que um surto se transforme em pandemia.
Para a infectologista Luana Araújo, médica especialista em doenças infecciosas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestre em Saúde Pública pela Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, a meta só se tornou plausível porque tecnologias como as plataformas de RNA mensageiro (mRNA) já vinham sendo desenvolvidas muito antes da pandemia de covid-19.
O que é a Missão dos 100 Dias?
A Missão dos 100 Dias foi lançada em 2021, depois que a pandemia de covid-19 mostrou que, embora o desenvolvimento de vacinas pudesse ser acelerado como nunca antes, ainda não era rápido o suficiente para impedir que um novo vírus se espalhasse pelo planeta. A iniciativa, coordenada pela Coalition for Epidemic Preparedness Innovations (CEPI), busca transformar esse aprendizado em uma estratégia permanente de preparação para futuras pandemias.
A proposta vai além de desenvolver uma vacina em tempo recorde. Para cumprir a meta, é preciso acelerar todas as etapas da resposta: identificar rapidamente um novo patógeno, compartilhar seu sequenciamento genético, adaptar plataformas vacinais já existentes, realizar os testes iniciais e iniciar a produção em escala.

Luana Araújo explica que essa estratégia parte justamente da possibilidade de antecipar parte do trabalho antes mesmo do surgimento da próxima ameaça.
A ideia é que, da identificação e do sequenciamento do patógeno até a gente ter uma vacina disponível, a gente consiga fazer isso nesse período bastante desafiador dos 100 dias.
Luana Araújo, especialista em doenças infecciosas
Na avaliação da especialista, essa mudança permite que pesquisadores desenvolvam previamente plataformas e tecnologias que poderão ser adaptadas rapidamente quando um novo agente infeccioso surgir.
Por que agora é possível pensar em uma vacina em 100 dias
Quando as primeiras vacinas contra a covid-19 começaram a ser aplicadas, muita gente teve a impressão de que elas haviam sido criadas do zero em poucos meses. Na prática, porém, o desenvolvimento só foi possível porque décadas de pesquisa já haviam produzido as plataformas tecnológicas que serviram de base para os imunizantes.
Para Luana Araújo, esse é justamente o principal aprendizado incorporado pela Missão dos 100 Dias. Em vez de esperar que uma nova pandemia comece para iniciar todas as pesquisas, cientistas passaram a desenvolver previamente plataformas que possam ser adaptadas rapidamente quando um novo patógeno for identificado. “Isso nos traz uma mudança de preparação para o futuro, que talvez permita que a gente desenvolva até certo ponto algumas tecnologias e deixe aquilo na manga”, afirma ela.
O principal exemplo citado pela infectologista são as vacinas de RNA mensageiro (mRNA). Segundo ela, embora tenham se tornado conhecidas durante a pandemia de covid-19, essas plataformas já vinham sendo estudadas havia décadas. Quando o SARS-CoV-2 surgiu, pesquisadores precisaram adaptar uma tecnologia que já existia, em vez de iniciar todo o processo do zero.
Na avaliação de Luana, essa mudança representa uma forma mais eficiente de investir em pesquisa para futuras pandemias. Em vez de concentrar esforços em uma única doença, cientistas passaram a preparar diferentes plataformas capazes de responder a diversos cenários. Como resume a especialista, “isso nos parece hoje mais inteligente, mais lúcido do que investir todos os ovos na mesma cesta.”

Desenvolver a vacina é só parte do desafio
Chegar a um candidato vacinal em 100 dias depende de muito mais do que a tecnologia usada para produzir imunizantes. Antes disso, é preciso identificar rapidamente o novo agente infeccioso, sequenciar seu material genético e compartilhar essas informações para que laboratórios em diferentes partes do mundo possam começar a desenvolver uma resposta.
Para o patologista clínico Carlos Aita, presidente da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML), os avanços obtidos desde a pandemia de covid-19 ajudam justamente a acelerar essas etapas. Segundo ele, houve evolução nas técnicas de biologia molecular para identificação rápida de novos patógenos, na automação dos laboratórios e no desenvolvimento de testes rápidos, tecnologias que hoje fazem parte da rotina da medicina diagnóstica.
A rapidez também depende da circulação dessas informações. De acordo com Aita, redes integradas de monitoramento permitem identificar padrões de transmissão logo nos primeiros registros de uma nova doença, tornando possível agir antes que o número de casos cresça de forma descontrolada.
Essa integração entre vigilância, diagnóstico e desenvolvimento científico é um dos pilares da Missão dos 100 Dias. A proposta não é apenas produzir uma vacina mais rapidamente, mas reduzir o tempo necessário em todas as etapas da resposta a uma nova ameaça, desde a identificação do patógeno até o início da fabricação dos imunizantes.
Uma vacina em 100 dias depende de todo o sistema de saúde
A meta de desenvolver um candidato vacinal em 100 dias representa uma mudança importante na forma como o mundo se prepara para futuras pandemias. Ainda assim, especialistas destacam que reduzir o tempo de desenvolvimento de uma vacina é apenas parte da resposta. Para que a estratégia funcione, também será necessário fortalecer a vigilância epidemiológica, ampliar a capacidade de diagnóstico, manter redes internacionais de compartilhamento de dados e garantir que os imunizantes possam ser produzidos e distribuídos rapidamente.
Para o sanitarista Gonzalo Vecina Neto, fundador e ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), parte dessa preparação começa antes mesmo de um novo vírus ser identificado. Segundo ele, é necessário manter estruturas permanentes de vigilância capazes de detectar rapidamente alterações no ambiente e na circulação de microrganismos, além de ampliar a capacidade de sequenciamento genético no país.
Na avaliação do especialista, o Brasil também precisa reduzir sua dependência externa para responder com rapidez a futuras emergências sanitárias. Para isso, defende a continuidade dos investimentos em pesquisa e no desenvolvimento de tecnologias voltadas para diagnósticos, tratamentos e vacinas, além da ampliação da capacidade nacional de produção desses insumos.

Luana Araújo avalia que a ciência demonstrou durante a pandemia de covid-19 que é capaz de acelerar o desenvolvimento de novas tecnologias quando há cooperação internacional, financiamento e objetivos comuns. O próximo passo, segundo a infectologista, é transformar essa capacidade científica em uma resposta organizada e acessível para toda a população.
O primeiro desafio é transformar toda essa rapidez tecnológica, toda essa eficiência tecnológica em ação coletiva, numa ferramenta acionável para todo mundo.
Luana Araújo, especialista em doenças infecciosas
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Saúde
O que é a Doença X e por que a OMS já se prepara para ela

A Doença X não é um vírus recém-descoberto nem uma enfermidade misteriosa que já esteja circulando pelo mundo. Na realidade, ela sequer existe. O nome foi criado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para representar a possibilidade de que a próxima grande epidemia ou pandemia seja causada por um agente infeccioso ainda desconhecido pela ciência.
O conceito faz parte da estratégia global de preparação para emergências sanitárias da OMS. Além de manter uma lista de patógenos considerados prioritários, a organização também busca acelerar o desenvolvimento de pesquisas, diagnósticos, tratamentos e vacinas que possam ser adaptados rapidamente diante de uma nova ameaça.
Para Luana Araújo, médica especialista em doenças infecciosas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestre em Saúde Pública pela Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, nos Estados Unidos, a principal mudança foi reconhecer que a próxima pandemia pode surgir de um agente infeccioso que a ciência ainda não conhece.
Há uma possibilidade importante de a próxima pandemia não vir de um patógeno conhecido, mas sim de um patógeno desconhecido. É por isso que a gente fala sobre a Doença X, cujas características são de extrema preocupação, mas cujo patógeno pode simplesmente ainda não ser conhecido.
Luana Araújo, médica especialista em doenças infecciosas
A observação da especialista ajuda a explicar a lógica por trás do conceito criado pela OMS. Embora o SARS-CoV-2 pertencesse a uma família de vírus já conhecida, a pandemia mostrou que identificar os patógenos de maior risco é apenas parte do desafio. Também é preciso desenvolver plataformas, diagnósticos e estratégias capazes de ser adaptados rapidamente quando um novo patógeno surgir.
Por que a OMS criou a Doença X?
Ao incluir a Doença X entre suas prioridades de pesquisa, a OMS reconheceu que a próxima pandemia pode não ser causada por um dos patógenos que hoje estão sob vigilância internacional. Em vez de tentar prever qual será esse patógeno, a organização busca incentivar o desenvolvimento de ferramentas que possam ser rapidamente adaptadas assim que um novo agente infeccioso for identificado.
Essa estratégia faz parte do R&D Blueprint, programa da OMS criado para acelerar pesquisas durante emergências sanitárias. A iniciativa reúne governos, cientistas, universidades e a indústria para reduzir o tempo necessário para desenvolver diagnósticos, tratamentos e vacinas quando um novo patógeno é identificado.

Na prática, a estratégia amplia o foco da preparação. Além de manter uma lista de vírus e bactérias considerados prioritários, a OMS também passou a investir em plataformas e tecnologias que possam ser utilizadas contra diferentes famílias de patógenos, inclusive aqueles que ainda não foram identificados.
Essa mudança também altera a forma de fazer vigilância. Para o sanitarista Gonzalo Vecina Neto, fundador e ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), preparar-se para uma pandemia causada por um patógeno desconhecido exige acompanhar continuamente o que acontece nos diferentes biomas brasileiros, já que alterações em animais e no ambiente podem ser os primeiros sinais da circulação de um novo microrganismo.
Quando começa, por alguma razão, a morrer algum tipo de bicho, quem mora na região tem condição de descobrir que está acontecendo alguma coisa diferente. Quando acontece alguma coisa no mundo animal, tem algum tipo de micro-organismo atuando.
Gonzalo Vecina Neto, sanitarista fundador da Anvisa
Segundo a infectologista Luana Araújo, a lista de patógenos prioritários reúne apenas agentes já conhecidos pela ciência. Isso, porém, não elimina a possibilidade de que a próxima pandemia tenha origem em um microrganismo completamente novo. Para a especialista, é justamente essa incerteza que torna necessário preparar sistemas de resposta capazes de enfrentar também o inesperado.
Quais doenças continuam preocupando a OMS
A inclusão da Doença X entre as prioridades da Organização Mundial da Saúde não substituiu a vigilância sobre patógenos já conhecidos. A organização continua atualizando periodicamente sua lista de doenças com potencial epidêmico para orientar investimentos em pesquisa e desenvolvimento, especialmente em situações em que ainda não existem vacinas, tratamentos ou outras medidas de controle suficientemente eficazes.
Entre as doenças que hoje orientam as prioridades de pesquisa da OMS estão Ebola, febre de Lassa, febre hemorrágica da Crimeia-Congo, MERS, SARS, Zika, febre do Vale do Rift e a própria covid-19, além da Doença X. A OMS ressalta que essa relação não pretende prever qual será a próxima pandemia, nem representa uma lista completa de todas as ameaças sanitárias existentes. Seu objetivo é orientar prioridades de pesquisa diante de doenças com potencial de provocar grandes surtos.
Para Luana Araújo, os vírus respiratórios continuam ocupando um lugar de destaque entre essas preocupações por causa da facilidade com que conseguem se espalhar entre pessoas. Hoje, segundo a infectologista, o principal foco está no H5N1, vírus da influenza aviária que já circula amplamente entre aves, foi identificado em diferentes espécies de mamíferos e, em casos esporádicos, também infectou seres humanos.
A preocupação, explica a especialista, é que novas mutações permitam que o vírus adquira transmissão sustentada entre pessoas. Além do H5N1, ela cita coronavírus como os responsáveis pela SARS e pela MERS, além de vírus como Ebola, Crimeia-Congo e Zika, entre os patógenos que continuam sob monitoramento internacional por seu potencial de provocar surtos importantes.
Como cientistas se preparam para uma doença que ainda não existe
Se não é possível saber qual será o próximo agente infeccioso, como desenvolver vacinas, tratamentos e testes diagnósticos antes mesmo de ele aparecer? A resposta está na mudança de estratégia adotada pela comunidade científica nos últimos anos.
Em vez de concentrar pesquisas em um único vírus, cientistas passaram a investir em plataformas capazes de ser adaptadas rapidamente a diferentes ameaças. Isso inclui tecnologias de vacinas, métodos diagnósticos e outras ferramentas que podem ser ajustadas assim que um novo patógeno é identificado.
Para a infectologista Luana Araújo, essa mudança permite que parte do trabalho seja feita antes mesmo do surgimento da próxima pandemia. Como ela explica, “isso nos traz uma mudança de preparação para o futuro, que talvez permita com que a gente desenvolva até certo ponto algumas tecnologias e deixe aquilo na manga”.

Um dos exemplos citados pela especialista são as plataformas de RNA mensageiro (mRNA). Embora tenham ganhado notoriedade durante a pandemia de covid-19, elas já vinham sendo estudadas havia décadas e hoje podem ser adaptadas com rapidez para diferentes agentes infecciosos, reduzindo o tempo necessário para produzir candidatos a vacinas quando uma nova ameaça surge.
Na avaliação de Luana, essa estratégia representa uma mudança importante em relação ao modelo tradicional de pesquisa, que costumava concentrar esforços em uma doença específica. Para a infectologista, preparar diferentes plataformas para serem adaptadas conforme a necessidade se mostra uma abordagem mais eficiente. “Isso nos parece hoje mais inteligente, mais lúcido do que investir todos os ovos na mesma cesta.”
A Doença X é apenas uma das mudanças na forma como a ciência passou a se preparar para futuras pandemias. Em reportagem especial, o Olhar Digital mostra como a experiência da covid-19 acelerou o desenvolvimento de vacinas, transformou a vigilância epidemiológica, fortaleceu a medicina diagnóstica e quais desafios ainda precisam ser superados para responder mais rapidamente à próxima grande emergência sanitária. Leia a reportagem completa.
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Saúde
Apostas online preocupam: veja quando procurar ajuda no SUS

O SUS ampliou para até 100 mil o número de teleatendimentos voltados a pessoas que enfrentam dificuldades com apostas online. A medida foi adotada após o aumento da procura pelo serviço de apoio em saúde mental, segundo a Agência Brasil.
Disponível pelo aplicativo Meu SUS Digital, a iniciativa oferece orientação e acompanhamento profissional de forma remota, sigilosa e acolhedora.

Serviço começou em março e ganhou novos atendimentos
O atendimento teve início em março, com média de 600 consultas mensais. Com a maior procura, o Ministério da Saúde ampliou a capacidade da ferramenta, que funciona como porta de entrada para a Rede de Atenção Psicossocial (Raps).
O serviço é oferecido em parceria com o Ministério da Fazenda e a Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (AgSUS).
Os números da autoexclusão também mostram a busca por ajuda. Segundo o Ministério da Saúde, mais de 1 milhão de pessoas solicitaram a retirada do CPF de sites e aplicativos de apostas pela Plataforma Centralizada de Autoexclusão. Desse grupo, 35% apontaram a perda de controle sobre as apostas como motivo do pedido.
Quais sinais indicam que é hora de procurar ajuda?
Entre os comportamentos que merecem atenção estão:
- dificuldade para reduzir ou parar de apostar;
- mudanças no sono, alimentação ou humor;
- mentiras para familiares e amigos sobre apostas;
- ansiedade, irritabilidade ou inquietação longe dos jogos;
- prejuízos no orçamento pessoal ou familiar.
Vergonha, culpa, problemas nos relacionamentos e o uso das apostas para lidar com estresse ou frustrações também aparecem entre os sinais de alerta.

Facilidade de acesso pode aumentar riscos
O Ministério da Saúde aponta que fatores como exposição precoce aos jogos, facilidade de acesso às plataformas, impulsividade, isolamento social e histórico de depressão ou ansiedade podem aumentar a vulnerabilidade.
Também entram nessa lista influências sociais que apresentam as apostas de forma positiva e a busca pelo jogo como uma maneira de escapar de problemas emocionais.
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