Saúde
Bactérias de Clamídia no olho estão ligadas ao Alzheimer, diz pesquisadora

Uma pesquisa publicada na Nature estuda a correlação entre a presença da bactéria Clamídia pneumoniae nos olhos e sua incidência no desenvolvimento de Alzheimer. A pesquisa possui vários autores, como Maya Koronyo-Hamaoui e Timothy R. Crother, e pode ser lida na íntegra clicando aqui. A seguir, confira mais informações sobre este novo estudo.
O que a bactéria tem a ver com o desenvolvimento do Alzheimer?

Os pesquisadores deste estudo perceberam que a bactéria Chlamydia pneumoniae pode estar diretamente envolvida na progressão do Alzheimer.
Apesar do nome Chlamydia pneumoniae lembrar a IST, essa bactéria não é a mesma da infecção sexualmente transmissível. Em verdade, é uma bactéria respiratória facilmente transmissível por tosse e espirro.
Uma vez que um corpo saudável é infectado por ela, há a possibilidade das partículas se esconderem, como num estado de incubação. Em outras palavras, é possível carregá-la consigo por anos.
Mas o que ela tem a ver com o Alzheimer? Pesquisadores perceberam que muitos doentes acometidos por esse tipo de demência demonstravam a bactéria na retina (parte do olho ligada ao cérebro) e também no cérebro, o que lhes chamou a atenção.
Para comprovar se havia alguma ligação, os pesquisadores colheram amostras de:
- Pessoas com Alzheimer;
- Pessoas com comprometimento cognitivo leve (fase inicial);
- Pessoas sem a doença;
- Modelos em camundongos;
- Culturas de células nervosas.
Descobriram que os humanos com Alzheimer eram os que mais apresentavam crescimento bacteriano da Chlamydia pneumoniae. Em verdade, a quantidade dessa bactéria aumentava conforme a doença progredia, quanto mais houvesse perda cognitiva, e em pessoas com o gene de risco APOE ε4.

Vendo Clamídia pneumoniae consistentemente em tecidos humanos, culturas de células e modelos animais nos permitiram identificar uma ligação, até então não reconhecida, entre infecção bacteriana, inflamação e neurodegeneração. O olho é um substituto para o cérebro, e este estudo mostra que a infecção bacteriana da retina e a inflamação crônica podem refletir a patologia cerebral e prever o estado da doença, apoiando a imagem da retina como uma forma não invasiva de identificar pessoas em risco de Alzheimer.
— Maya Koronyo-Hamaoui, professora da Universidade de Ciências da Saúde Cedars-Sinai e principal autora do estudo
Segundo o artigo científico, a bactéria pode ativar algo chamado “inflamassoma NLRP3”: uma espécie de alarme inflamatório do sistema imunológico. Caso este alarme seja acionado em excesso (como suspeitam que ocorra devido à bactéria), isso gera inflamação intensa.
A inflamação intensa, como já é comprovado cientificamente, é um dos principais mecanismos causadores do Alzheimer. Em resumo: a bactéria parece “ligar” o sistema inflamatório do cérebro de forma prejudicial.

Nas pessoas analisadas, viram que:
- O NLRP3 já está aumentado em pessoas com comprometimento leve;
- No Alzheimer avançado, ele está claramente ativado;
- Marcadores inflamatórios estavam elevados;
- Havia sinais de: Apoptose (morte celular), Piroptose (morte celular inflamatória) e Neuroinflamação.
Além de tudo isso, o Alzheimer é conhecido pelo acúmulo de β-amiloide 42, uma proteína que forma placas no cérebro. O estudo conduzido mostrou que a Chlamydia pneumoniae está relacionada ao aumento da produção de beta-amiloide, é uma das culpadas pelo seu acúmulo, e ainda agrava danos cerebrais.
Ou seja, a bactéria não só está presente no corpo, mas parece agravar o avanço da doença.
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Qual a importância da retina neste estudo?
Considerando o acúmulo da bactéria na retina, que é a parte do olho ligada ao cérebro, os cientistas ponderam se a retina pode ser utilizada para refletir o que ocorre no cérebro. Isto é, poderia servir como um biomarcador precoce dos sinais do Alzheimer.
Se confirmado, esta também seria uma grande descoberta, pois os exames de retina, em suma, não são invasivos e auxiliariam na descoberta precoce desta demência.
Em resumo, o estudo não conclui que a Chlamydia pneumoniae sozinha causa a doença, mas que atua como um amplificador, pois pode estimular a inflamação, acelerar a degeneração neuronal, piorar a cognição e estimular o acúmulo da beta-amiloide.
Além desta bactéria, estudiosos já analisam que outros microrganismos também apresentam alguma ligação com o desenvolvimento ou piora do Alzheimer, como dito pelo New Atlas.
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Saúde
Anvisa aprova Wegovy em comprimido para obesidade no Brasil

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a versão em comprimido do Wegovy (semaglutida), desenvolvido pela Novo Nordisk. É o primeiro medicamento oral da classe dos agonistas de GLP-1 liberado no país para o tratamento da obesidade e do sobrepeso.
A nova apresentação é administrada uma vez ao dia, em dose de 25 mg, e oferece uma alternativa à aplicação semanal por caneta injetável. A autorização foi publicada no Diário Oficial da União, após pedido apresentado pela farmacêutica em 30 de janeiro deste ano.

Como a semaglutida age e quais foram os resultados dos testes
A semaglutida imita a ação do GLP-1, hormônio liberado pelo intestino após as refeições. Ele sinaliza ao cérebro que o organismo já recebeu alimento, reduzindo a fome, e retarda o esvaziamento do estômago, prolongando a sensação de saciedade.
A administração oral exige uma dose maior porque parte da substância é destruída no estômago antes de chegar à corrente sanguínea. Por isso, o comprimido utiliza 25 mg diários, enquanto a dose semanal de manutenção da caneta é de 2,4 mg.
No principal estudo clínico que embasou a aprovação, publicado na revista científica The New England Journal of Medicine, os participantes que tomaram o comprimido perderam, em média, 13,6% do peso corporal em 64 semanas. No grupo que recebeu placebo, a redução foi de 2,2%. Segundo os autores, o resultado se aproxima do observado com a versão injetável.
Com a aprovação do Wegovy em comprimido, o Brasil passa a contar com duas apresentações orais de semaglutida da Novo Nordisk, mas com indicações diferentes. Enquanto o novo medicamento é destinado ao tratamento da obesidade e do sobrepeso, o Rybelsus é utilizado no controle da diabetes tipo 2.
A chegada do Wegovy em comprimido às farmácias, no entanto, ainda depende da definição de preço. A Novo Nordisk informou que o valor não foi estabelecido e que a previsão é disponibilizar o medicamento no mercado brasileiro no próximo trimestre.
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Saúde
Câncer de pâncreas: vacina experimental consegue ativar células de defesa em 99% dos pacientes

Uma vacina experimental contra o câncer de pâncreas conseguiu estimular uma resposta imunológica em quase todos os pacientes que participaram de um ensaio clínico. O imunizante, chamado camupepimut, foi desenvolvido para ensinar o organismo a reconhecer sete mutações do gene KRAS, alterações associadas a aproximadamente 90% dos casos de adenocarcinoma ductal pancreático.
Os resultados foram apresentados em estudo publicado na revista científica Nature Medicine. A pesquisa foi conduzida por cientistas ligados à Mayo Clinic, nos Estados Unidos, e investigou se a vacina poderia ajudar a eliminar células cancerígenas que eventualmente permanecem no organismo mesmo depois de cirurgia e quimioterapia.
O câncer de pâncreas é conhecido por sua agressividade e pela dificuldade de tratamento. Um dos principais desafios é a possibilidade de a doença retornar mesmo depois de intervenções médicas, já que as células cancerígenas podem se espalhar rapidamente.
Nesse contexto, a proposta do imunizante é preparar o sistema imunológico para identificar alterações específicas das células tumorais e reagir contra elas.
Como funciona a vacina contra o câncer de pâncreas?
- A camupepimut foi projetada para estimular o organismo a reconhecer sete mutações diferentes do gene KRAS. Essas alterações são encontradas em cerca de 90% dos casos de adenocarcinoma ductal pancreático e desempenham papel importante no crescimento do câncer;
- Uma característica da tecnologia é a capacidade de direcionar os componentes da vacina aos linfonodos, estruturas fundamentais para o funcionamento da resposta imunológica;
- Para isso, os pesquisadores ligaram os ingredientes do imunizante a uma molécula de gordura que se conecta à albumina, proteína presente no sangue. A albumina funciona como transportadora e ajuda a levar esses componentes até os linfonodos;
- A intenção é estimular as células de defesa a reconhecer as mutações do KRAS e atacar células que apresentem essas alterações.
O que mostrou o ensaio clínico?
O estudo de fase 2 envolveu 144 pacientes com câncer de pâncreas associado a mutações no KRAS. Todos haviam passado por cirurgia e quimioterapia e, naquele momento, não apresentavam sinais detectáveis da doença.
Os participantes foram divididos aleatoriamente em dois grupos: 96 receberam a vacina experimental, enquanto os outros 48 permaneceram sob observação, sem receber o imunizante.
O principal resultado positivo apareceu na resposta imunológica. Quase 99% dos pacientes vacinados desenvolveram resposta aumentada de células T contra as mutações do KRAS.
Essas células são um tipo de glóbulo branco que desempenha papel importante na defesa do organismo, inclusive no reconhecimento e combate a células anormais.

A resposta também demonstrou persistência. Após 46 semanas do início do estudo, 95,5% dos participantes ainda apresentavam respostas detectáveis de células T contra as mutações investigadas. Entretanto, houve uma ressalva importante: a vacina não demonstrou melhorar significativamente a sobrevida livre da doença.
No grupo que recebeu o imunizante, esse período foi de 23,8 meses, em média. Entre os participantes que ficaram apenas sob observação, o resultado foi de 21,2 meses. A diferença foi considerada pequena e não apresentou significância estatística.
Portanto, embora a vacina tenha provocado uma resposta imunológica expressiva, ainda não há evidências suficientes para afirmar que ela reduz o risco de retorno do câncer.
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Pesquisadores identificam possíveis fatores de resposta
A equipe também encontrou algumas pistas sobre quais pacientes poderiam se beneficiar mais da estratégia. Uma delas envolve o DNA tumoral circulante (ctDNA), pequenos fragmentos de material genético liberados pelas células cancerígenas na corrente sanguínea.
Os pacientes que não apresentavam ctDNA detectável no início do estudo permaneceram livres da doença por mais tempo após receber a vacina, em comparação com aqueles que apresentavam esses fragmentos.
Outro fator observado foi a realização de radioterapia. Participantes que não haviam passado por esse tratamento apresentaram maior quantidade de linfócitos, o que pareceu favorecer a resposta ao imunizante.
Os resultados podem ajudar os pesquisadores a aperfeiçoar a vacina e identificar quais pacientes teriam maior probabilidade de responder ao tratamento.
Ben George, principal autor do estudo e oncologista da Mayo Clinic, afirmou ao IFL Science que a resposta imunológica é um sinal importante para compreender os efeitos biológicos da vacina e orientar os próximos testes.
Segundo ele, foi possível gerar resposta robusta contra as mutações do KRAS em praticamente todos os pacientes avaliados.
Próximos passos da pesquisa
Apesar dos resultados iniciais, a camupepimut ainda precisa passar por avaliações adicionais. Os pesquisadores esperam utilizar as informações obtidas no ensaio de fase 2 para aprimorar o imunizante e desenvolver um estudo clínico maior, de fase 3.
A vacina também não é a única estratégia experimental em investigação contra o câncer de pâncreas. Outra abordagem utiliza a tecnologia de RNA mensageiro (mRNA) para desenvolver imunizantes personalizados destinados a pacientes com formas agressivas da doença.
A necessidade de novas alternativas é significativa. Segundo os dados apresentados no artigo, a incidência global do câncer de pâncreas mais que dobrou nas últimas três décadas, passando de aproximadamente 196 mil novos casos em 1990 para mais de 510 mil em 2022.
Por enquanto, a camupepimut representa possibilidade promissora de estimular as defesas do organismo contra alterações genéticas associadas ao tumor. Mas a confirmação de seus benefícios clínicos dependerá dos próximos estágios de pesquisa.
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Câncer de pulmão: comprimido diário mantém doença avançada controlada por 7 anos

Um comprimido tomado uma vez ao dia conseguiu manter o câncer de pulmão avançado sob controle por sete anos em mais da metade dos pacientes que participaram de um estudo clínico. O resultado, considerado inédito para a doença, foi obtido com o lorlatinibe, medicamento desenvolvido para combater tumores que apresentam alteração genética específica.
Publicado em setembro de 2026 na revista científica Annals of Oncology, o estudo é atualização de sete anos do ensaio clínico de fase 3 CROWN. Os resultados mostram que 55% dos pacientes tratados com lorlatinibe permaneceram vivos e sem progressão da doença após esse período.
O levantamento acompanhou 296 pessoas com câncer de pulmão de não pequenas células avançado e positivo para a alteração genética ALK. Desse total, 149 receberam lorlatinibe e 147 foram tratadas com crizotinibe, outro medicamento utilizado contra esse subtipo de tumor.
No grupo que recebeu o tratamento mais recente, a mediana de sobrevida livre de progressão ainda não havia sido alcançada após sete anos de acompanhamento. Já entre os pacientes tratados com crizotinibe, esse indicador foi de apenas 9,1 meses. A probabilidade de permanecer vivo e sem progressão da doença após sete anos foi de 3% nesse segundo grupo.
Os pesquisadores também calcularam redução de 81% no risco de progressão da doença ou morte entre os pacientes que receberam lorlatinibe, na comparação com o crizotinibe.
O resultado representa avanço importante no tratamento do câncer de pulmão avançado. Entretanto, o medicamento não funciona para todos os pacientes e ainda enfrenta obstáculos de acesso no Brasil.
Medicamento ataca alteração genética específica
- O lorlatinibe é um exemplo do que os oncologistas chamam de terapia-alvo: medicamentos desenvolvidos para combater alterações genéticas específicas que estimulam o crescimento de tumores;
- No caso do câncer de pulmão, uma dessas alterações envolve o gene ALK. Em aproximadamente 3% a 5% dos casos de câncer de pulmão de não pequenas células, ocorre um rearranjo nesse gene, que leva à produção de proteína anormal responsável por enviar sinais contínuos de crescimento e multiplicação às células;
- O lorlatinibe atua bloqueando essa proteína e interrompendo o mecanismo que favorece o desenvolvimento do tumor.
Uma das características importantes do medicamento é sua capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica, estrutura que protege o cérebro e dificulta a entrada de diversas substâncias, inclusive alguns medicamentos.
Isso é relevante porque pacientes com câncer de pulmão avançado podem desenvolver metástases cerebrais. O lorlatinibe foi projetado para atuar também nesses casos, além de combater mecanismos de resistência que podem comprometer a eficácia de tratamentos anteriores.
Os resultados de sete anos reforçam esse potencial. No estudo CROWN, não foram registrados novos episódios de progressão intracraniana depois dos primeiros 30 meses de tratamento com lorlatinibe.
Entre os pacientes que chegaram ao fim dos dois primeiros anos sem progressão da doença, a probabilidade estimada de continuarem vivos e sem avanço do câncer no sétimo ano foi de 79%.
Resultado representa mudança histórica no tratamento
O avanço chama atenção quando comparado às alternativas disponíveis em gerações anteriores.
Durante décadas, a quimioterapia era uma das principais opções para tratar o câncer de pulmão avançado. Com o desenvolvimento dos inibidores de ALK, os médicos passaram a contar com medicamentos mais direcionados, capazes de prolongar o controle da doença.
Segundo o oncologista Gustavo Schvartsman, do Hospital Sírio-Libanês, a evolução pode ser observada nos resultados obtidos ao longo das diferentes gerações de medicamentos.
“Nunca alguém passava de cinco anos sem a doença progredir quando só existia quimioterapia. Com os inibidores de primeira geração, foi para 5% ou 10% dos pacientes; com a segunda geração, 20% a 30%; agora chegamos a 55%. O avanço é muito grande e vemos um passo enorme no dia a dia do paciente”, afirmou ao g1.
O oncologista Stephen Stefani também destacou a importância do acompanhamento prolongado para avaliar a eficácia do tratamento. “A diferença de eficácia se torna muito gritante quando você vê essa análise de sete anos e é um resultado relevante para o paciente”, avaliou.
Matheus Henrique Dias, biomédico e pesquisador de medicamentos contra o câncer na Holanda, também considera os resultados promissores. “Para quem tem essa mutação específica, vai ser de fato uma mudança grande”, afirmou.
Apesar do entusiasmo, há uma ressalva: os dados de sobrevida global ainda não estão maduros. Isso significa que o estudo ainda não acumulou o número de mortes necessário para realizar a análise definitiva desse indicador.
Portanto, os resultados demonstram um controle prolongado da doença, mas não permitem afirmar que o medicamento representa uma cura para o câncer de pulmão avançado.
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Efeitos colaterais ainda preocupam especialistas
O desempenho do lorlatinibe também precisa ser analisado considerando os efeitos adversos.
Na atualização de sete anos do estudo CROWN, eventos adversos de grau 3 ou 4 foram registrados em 77% dos pacientes que receberam o medicamento. Na maioria dos casos, esses eventos não significam necessariamente que foram provocados diretamente pelo tratamento.
A análise também mostrou que 34% dos participantes precisaram reduzir a dose do medicamento em algum momento. Ainda assim, a eficácia de longo prazo foi semelhante entre pacientes que passaram por redução de dose e aqueles que não precisaram dessa alteração.
Outro aspecto importante envolve os efeitos no sistema nervoso central. Dados de segurança reunidos em diferentes estudos clínicos indicam que esse tipo de reação pode ocorrer em 52% dos pacientes que recebem lorlatinibe.
Entre as manifestações estão alterações cognitivas, mudanças de humor, problemas de fala, distúrbios do sono e, em alguns casos, sintomas psiquiátricos mais graves.
Na análise específica de cinco anos do estudo CROWN, efeitos no sistema nervoso central foram registrados em 42% dos participantes tratados com lorlatinibe. A maioria foi classificada como leve ou moderada.
Para Matheus Henrique Dias, o avanço científico precisa ser acompanhado de atenção à qualidade de vida dos pacientes. “A gente vê que ainda há alguns pontos que precisam ser considerados. É importante que as pessoas vivam, mas é muito importante que elas continuem sendo, em boa medida, elas mesmas”, afirmou.
Paciente brasileira recupera perspectiva de futuro
Uma das pessoas que vivem os efeitos do tratamento é Paula Piteri. Ela tinha 38 anos quando descobriu, em 2020, que um nódulo no pulmão era câncer. Na época, tinha acabado de se tornar mãe e levava vida saudável, sem histórico de tabagismo. A descoberta aconteceu durante um exame de rotina.
Inicialmente, Paula não realizou o sequenciamento genético do tumor. Ela passou por cirurgia para retirar a lesão e acreditou que estaria livre da doença. Entretanto, em 2025, recebeu um novo diagnóstico: o câncer havia voltado. “Foi um choque, eu sou mãe de três crianças e isso podia mudar minha vida completamente”, contou.
Atualmente, Paula utiliza lorlatinibe, fornecido pelo plano de saúde. O medicamento está previsto na cobertura da saúde suplementar para as indicações contempladas pelas regras da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
“É muito bom ter perspectiva, saber que eu tenho vida para viver. Eu quero fazer parte disso e viver por muitos anos ainda”, afirmou.
Medicamento custa R$ 37 mil por mês e não está disponível no SUS
Apesar dos resultados promissores, o acesso ao lorlatinibe ainda é um desafio no Brasil.
Antes mesmo de iniciar o tratamento, o paciente precisa identificar se o tumor apresenta a alteração genética ALK. Isso exige exames moleculares que nem sempre estão disponíveis na rede pública ou são facilmente acessíveis por meio dos planos de saúde.
Para Gustavo Schvartsman, existe dificuldade em garantir que diagnóstico e tratamento caminhem juntos. “Não adianta fazer o teste num sistema em que o remédio não vai estar disponível. E não adianta ter o remédio se o paciente não conseguiu o diagnóstico correto”, resumiu.
O preço também representa um obstáculo. Segundo a tabela de preços de medicamentos, uma caixa com 30 comprimidos pode chegar a aproximadamente R$ 37 mil.
Considerando um tratamento contínuo durante sete anos, o custo ultrapassaria R$ 3,1 milhões por paciente, sem considerar eventuais reajustes ou descontos.
A incorporação do lorlatinibe ao Sistema Único de Saúde (SUS) chegou a ser analisada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). Em maio de 2025, porém, o Ministério da Saúde publicou decisão contrária à disponibilização do medicamento para pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células com alteração ALK em estágio localmente avançado ou metastático, na primeira linha de tratamento.
A decisão também rejeitou a incorporação do alectinibe, enquanto aprovou o brigatinibe para essa indicação.
A justificativa da comissão envolveu a relação entre os custos e os benefícios clínicos das terapias avaliadas. Segundo o relatório, os valores apresentados não atingiram os critérios de custo-efetividade considerados adequados para o SUS.
Com isso, pacientes que precisam do lorlatinibe dependem de cobertura por planos de saúde, aquisição particular ou decisões judiciais para conseguir acesso ao tratamento pela rede pública.
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