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Como Escolher uma Universidade na Era da IA
Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo.
Na manhã de 2 de setembro, primeiro dia das aulas de outono nos Estados Unidos, o reitor do Harvard College, David Deming, enviou um e-mail aos alunos de graduação dizendo ser favorável a “incentivar ativamente o uso de IA quando ela puder aprofundar o aprendizado”.
Deming recomendou que os professores adotassem avaliações, como provas supervisionadas, nas quais os estudantes não pudessem recorrer à IA — isto é, usá-la para trapacear.
Também sugeriu incorporar a tecnologia às disciplinas de redação, em vez de tentar controlar seu uso. Alguns professores de humanidades, horrorizados, reagiram. A própria escrita, argumentou um deles, faz parte do processo de aprender a pensar.
Outro demonstrou preocupação de que o uso de IA pudesse desencorajar os estudantes de “desenvolver suas próprias respostas a obras de arte, música, literatura e filosofia”. Por enquanto, os professores de Harvard continuam definindo suas próprias regras.
Bem-vindos à era da incerteza (e até do caos) que recebe os calouros universitários de hoje, a turma de 2030.
As universidades na era da IA
Faculdades e universidades estão sendo obrigadas a repensar algo fundamental: como os estudantes devem aprender e que tipo de educação vai prepará-los para prosperar nesse novo mundo?
Escolher uma universidade, que já era uma tarefa difícil, ficou ainda mais complicado à medida que as instituições adotam abordagens muito diferentes em relação à IA — e ninguém sabe ainda qual delas vai funcionar.
No Amherst College, o presidente Michael Elliott está experimentando. No último ano, ele disse aos alunos de seu curso de literatura que poderiam usar IA em algumas atividades, desde que explicassem como haviam utilizado a tecnologia. “O que também foi uma experiência de aprendizado para mim, e não tenho certeza do que vou fazer este ano”, diz.
Segundo ele, os professores da Amherst estão “em todos os extremos” quando o assunto é IA: alguns estão voltando às provas em cadernos e aos exames orais, enquanto outros abraçam a tecnologia.
Por enquanto, a universidade pediu aos professores que deixem claro em seus planos de ensino o que é — e o que não é — permitido. “Ainda não temos uma grande estratégia para definir como vamos fazer isso.”
Como será o futuro do trabalho
Não é possível prever como serão o mercado de trabalho e o ensino superior daqui a quatro anos. “A única coisa com que podemos contar é que as coisas vão mudar”, diz Karen Brennan, professora Timothy E. Wirth de Prática em Tecnologias de Aprendizagem da Harvard Graduate School of Education.
Diante dessa incerteza, faz sentido começar a busca por uma universidade com aquilo que já sabemos sobre o que determina o sucesso educacional e, depois, fazer algumas perguntas sobre o futuro da IA, que detalhamos mais adiante nesta reportagem.
As universidades, afirma a professor, continuam sendo “um lugar maravilhoso para desenvolver” a capacidade de lidar com essas mudanças. “A IA não está tornando isso obsoleto — está apenas nos dando uma nova maneira de pensar sobre a importância e a necessidade da adaptabilidade.”
O manual de uso da IA está sendo escrito e reescrito em tempo real. Mas universidades e famílias que pensam no futuro devem fazer as grandes perguntas agora e voltar a elas à medida que surgirem evidências sobre o que realmente funciona. Estas são algumas das questões que estudantes e seus pais devem considerar.
A universidade tem regras claras para o uso de IA?
As universidades podem não chegar às mesmas conclusões, mas deveriam ao menos estar desenvolvendo políticas claras para o uso de IA, para que os estudantes saibam o que esperar — mesmo que as regras variem de uma disciplina para outra.
Por que a política de uma universidade importa? Porque os próprios estudantes estão exigindo isso. “A liderança estudantil tem pedido diretrizes e orientações”, diz Benjamin Hermalin, vice-chanceler e reitor acadêmico da University of California, Berkeley, onde os professores definem suas próprias regras para o uso de IA.
Embora não seja do “estilo de Berkeley” determinar como os professores devem lidar com uma nova tecnologia, ele afirma: “Acho que vamos evoluir lentamente para ter um pouco mais de padronização porque os estudantes realmente querem isso”. Em parte, acrescenta, eles querem essas regras porque temem que colegas que usam IA para trapacear levem vantagem.
Deming, de Harvard, levantou a mesma preocupação em seu e-mail aos alunos de graduação. Proibições de IA que não podem ser fiscalizadas, escreveu, criam “um dilema difícil para estudantes que não querem trapacear, mas também temem ficar para trás em relação aos colegas”. Harvard planeja desenvolver diretrizes neste ano.
A University of Michigan está tentando encontrar um meio-termo. Em 3 de setembro, a instituição divulgou um rascunho de princípios orientadores para o uso de IA em toda a universidade no ensino e na aprendizagem e convidou a comunidade acadêmica a fazer comentários antes da versão final.
Os planos incluem o uso “responsável e centrado nas pessoas” da IA, além de atenção à ética, integridade, proteção da privacidade e outros aspectos.
A melhor maneira de descobrir como o uso de IA realmente funciona em uma universidade é perguntar aos estudantes, aconselha Steve Fitzpatrick, professor de história no ensino médio, colaborador da Forbes e autor da newsletter no Substack Teaching in the Age of AI.
“Você aprende muito mais fazendo perguntas aos estudantes porque eles vão revelar coisas que podem estar fora do roteiro da universidade”, afirma. “Por exemplo: ‘Até que ponto os alunos colam aqui?’”
Os professores recebem ajuda para entender como lidar com a IA?
Os estudantes não são os únicos que estão aprendendo a usar a nova tecnologia. As famílias que estão pesquisando universidades devem perguntar o que a instituição está fazendo para ajudar os professores a acompanhar essas mudanças. E é importante olhar além de treinamentos pontuais ou de uma lista de ferramentas aprovadas.
Brennan afirma que os professores precisam de duas coisas: tempo para experimentar e apoio institucional que os ajude a aprender com o que outros professores estão fazendo, tanto dentro quanto fora da sala de aula.
“Pode parecer realmente assustador quando você não tem a oportunidade de experimentar as ferramentas, cometer erros ou praticar por conta própria”, diz. “Saber o que outras pessoas estão fazendo, poder compartilhar nossos experimentos, nossos sucessos e nossos fracassos — é isso que vai ajudar a ampliar nossa imaginação pedagógica.”
Os estudantes também devem fazer parte desse aprendizado e dessa experimentação. Em Harvard, os professores podem receber orientação individual e participar de workshops, enquanto, segundo ela, os próprios estudantes organizaram eventos e convidaram especialistas externos para o campus.
Durante uma visita à universidade, pergunte a um professor por um exemplo específico de como ele mudou uma atividade ou prova por causa da IA. Pergunte aos estudantes se os professores explicam os motivos por trás de suas regras para o uso da tecnologia, e se os alunos têm voz na definição dessas regras.
Vou aprender a usar IA independentemente da minha área de estudo?
Os estudantes não deveriam precisar cursar ciência da computação para adquirir experiência com IA. A University of Florida oferece um modelo.
Depois de receber uma doação de US$ 70 milhões (R$ 356 milhões) de Chris Malachowsky, cofundador da Nvidia e ex-aluno da instituição, a universidade criou o que chama de “AI University”, com o objetivo de fazer com que todos os formandos saiam da instituição com algum conhecimento de inteligência artificial.
Atualmente, oferece mais de 200 disciplinas relacionadas à IA em diferentes áreas. Quase 70% dos estudantes que se formam fizeram pelo menos uma delas, afirma Hans van Oostrom, diretor da iniciativa acadêmica de IA. “Estudantes de todas as áreas precisam saber alguma coisa sobre IA”, diz. “Não é algo restrito à ciência da computação e à engenharia.”
Mas uma longa lista de disciplinas não significa necessariamente que os estudantes estejam aprendendo a usar a tecnologia de maneira responsável.
A Arizona State University está avançando agressivamente na adoção de IA. “Acho que nossa filosofia, de forma bastante simples, tem sido nos envolver cedo e com frequência”, diz Anne Jones, vice-reitora de graduação da ASU.
Mas Jones afirma que simplesmente ter usado ChatGPT, Claude ou outra ferramenta de IA generativa não torna um estudante alfabetizado em IA. A ASU espera que os alunos compreendam como a tecnologia funciona, avaliem seus vieses e limitações e considerem se utilizá-la em determinada situação está de acordo com seus valores pessoais.
Da mesma forma, é importante que os estudantes aprendam a usar a IA de maneira eficaz dentro de suas próprias áreas — algo que será muito diferente para um estudante de química e para um roteirista.
Isso significa que os candidatos devem olhar além de saber se uma universidade oferece uma graduação relacionada à IA ou se divulga o desenvolvimento de um chatbot próprio.
Jones sugere perguntar como é o debate mais amplo da instituição sobre IA, quais medidas concretas foram tomadas e como essas decisões afetarão um estudante na área que ele pretende estudar. “Ser capaz de entender tanto a filosofia institucional quanto obter alguns exemplos concretos é o que realmente dá às pessoas confiança de que existe conteúdo por trás do discurso”, afirma.
Vou desenvolver habilidades que continuam importantes ao lado da IA?
A necessidade de desenvolver “pensamento crítico” para ter sucesso na era da IA é tão mencionada que corre o risco de soar como um clichê. O mesmo vale para a necessidade de desenvolver habilidades de interação humana.
O orientador universitário Brennan Barnard sugere perguntar: “Quais são as formas pelas quais a universidade está preparando os estudantes para essas habilidades humanas duradouras?”
“Essas são as chamadas soft skills, mas elas não têm nada de fáceis. Na verdade, são incrivelmente difíceis”, diz Elliott, de Amherst, apontando para a capacidade de trabalhar com pessoas de diferentes origens, persuadir uma audiência e ouvir.
“Você aprende essas coisas estando frente a frente, em comunidade, com outras pessoas”, afirma. “Meu conselho para as famílias seria perguntar: a instituição está tentando usar a IA como uma muleta, em vez de como uma ferramenta?”
Pergunte sobre disciplinas específicas voltadas ao desenvolvimento dessas habilidades. A Stanford University, por exemplo, está ampliando seu programa obrigatório Civic, Liberal and Global Education (COLLEGE) para os calouros, que passará de dois para três trimestres a partir de 2027.
Parte do currículo de formação geral, o programa convida os estudantes a refletir sobre “como ideias, evidências científicas e arte podem contribuir para seu desenvolvimento pessoal” e os coloca em contato com ideias que vão além das áreas que escolheram estudar. “A universidade é mais do que conseguir o primeiro emprego”, diz Dan Edelstein, diretor do programa. “É claro que isso é importante, mas não é tudo o que uma formação universitária pode fazer. Ela realmente prepara você para a vida.”
Esta universidade vai me preparar para um mercado de trabalho imprevisível?
Talvez não exista uma graduação à prova da IA. Elliott desconfia de qualquer pessoa que prometa que determinada área é um caminho garantido para o sucesso econômico. “O que você escolhe como graduação vai importar ainda menos no futuro do que importa hoje”, afirma.
Barnard aconselha os estudantes a seguirem seus interesses genuínos, mas preservando “muitas possibilidades de escolha”. Isso pode significar fazer uma dupla graduação, cursar disciplinas de diferentes áreas ou desenvolver habilidades em pesquisa, escrita e análise de dados.
Antes de escolher uma universidade, pergunte quão fácil é mudar de curso, adicionar uma segunda graduação ou experimentar diferentes áreas sem atrasar a formatura.
O departamento de orientação profissional também merece uma visita. “Na minha opinião”, diz Barnard, “ele deveria ser uma parada obrigatória em qualquer visita a uma universidade”.
Pergunte como a instituição está respondendo às mudanças nas contratações para cargos de entrada e quais serviços oferece para conectar os estudantes a estágios muito antes da formatura.
Na Drexel University, mais de 90% dos estudantes participam de seu programa de co-op, em que o estudante alterna períodos de aulas na universidade com períodos de trabalho remunerado em empresas ou outras organizações, afirma o presidente Antonio Merlo.
Os alunos podem realizar até três trabalhos remunerados de seis meses, a partir do segundo ano, alternando entre a sala de aula e o mercado de trabalho. À medida que os empregadores cortam vagas de entrada, Merlo argumenta: “Nossos estudantes [já] passaram pela porta de entrada”.
Melissa Loble é diretora acadêmica da Instructure, empresa responsável pelo Canvas — plataforma de aprendizagem on-line na qual os professores publicam tarefas e notas e os estudantes entregam seus trabalhos. Ela sugere questionar à universidade: “Como vocês usam a IA para me preparar melhor para o que vou fazer depois de me formar?”
Para Elliott, as famílias não devem confiar em uma universidade que finge saber a resposta. “Instituições que são honestas sobre o fato de estarmos vivendo um momento de incerteza, para mim, têm uma vantagem sobre instituições que afirmam ter clareza”, diz.
E aprender a conviver com o desconforto de não saber a resposta também é uma parte importante da educação. “Descobrir como encontrar prazer na incerteza será uma habilidade valiosa para a vida.”
*Reportagem adicional de Asia Alexander.
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com
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MICE Peru Consolida O País Como Rota Estratégica Da Inovação Corporativa
Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo.
Nos dias atuais, uma viagem de incentivo não é mais somente reconhecimento de desempenho. No corporativo, tornou-se ferramenta de transformação cultural e alinhamento estratégico.
Nesse contexto, o Peru se consolida como destino ideal para empresas que buscam elevar a coesão de suas equipes e reter talentos, graças à proximidade geográfica, à conectividade aérea direta e a uma oferta onde gastronomia, ancestralidade e paisagens imponentes convergem para impulsionar inovação e desenvolvimento executivo.
Como capital gastronômica da região, Lima é o ponto de partida perfeito para conectar equipes em um ambiente urbano sofisticado. A cidade convida colaboradores a cocriar por meio de masterclasses culinárias com chefs renomados, jantares de autor em casarões coloniais ou huacas pré-hispânicas iluminadas, e a explorar seus insumos locais. Essas dinâmicas estimulam o trabalho colaborativo e o networking de alto nível.
O roteiro se aprofunda nos Andes rumo a Cusco e ao Vale Sagrado, onde a imersão na cultura fortalece o sentimento de comunidade. Em oficinas têxteis e atividades agrícolas inspiradas na filosofia ancestral do Ayni (reciprocidade), as equipes vivenciam a colaboração mútua, gerando impacto social nas comunidades e critérios de ESG nos programas de incentivo.
Para convenções executivas e retiros de liderança, Arequipa oferece um ambiente de elegância. Emoldurada pela silhueta do vulcão Misti, a Cidade Branca permite sessões plenárias em casarões de sillar (pedra vulcânica), gastronomia que resgata técnicas centenárias e expedições ao Cânion do Colca.
A poucas horas de Lima, onde as dunas do deserto encontram o Oceano Pacífico, Ica e Paracas emergem como cenário ideal para o pensamento disruptivo e o bem-estar corporativo. A região oferece glamping (acampamentos de luxo) em Huacachina com jantares sob as estrelas, travessias de iate pela Reserva de Paracas e pelas Ilhas Ballestas, além de visitas a vinhedos centenários para masterclasses de pisco, um convite para renovar a visão estratégica da equipe.
No final da jornada, a diversidade territorial do Peru garante alto retorno sobre o investimento em capital humano, transformando cada itinerário em experiência de impacto duradouro para inspirar, reter e consolidar as equipes do futuro
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Como Jerome Cadier Tirou a Latam da Crise e Preparou a Companhia para Crescer

Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo.
Na cerimônia militar de apresentação de Jerome Cadier no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva, o CPOR, sua mãe chorava sem parar – não de orgulho, e sim por receio. Não é que temesse uma guerra. Mas achava que seu filho, o caçula de cinco irmãos, era magro demais, frágil demais e “meio fresco para comer”; acostumado a uma “vida boa de classe média”, não aguentaria a rotina no Exército.
Jerome aguentou, é claro. Não só aguentou como fez ótimos amigos, para a vida, e afirma ter aprendido muito. Durante um ano, acordou cedo, cumpriu a rígida rotina do quartel, aprendeu a atirar, dormiu em acampamentos, estudou estratégia de guerra… e, sim, encarou a ração militar sem grandes problemas. Depois de formado, ainda passou dois meses como tenente no Regimento de Cavalaria em Pirassununga, no interior de São Paulo. Muito de sua disciplina e seu estilo de liderança ele atribui à experiência no ambiente militar. “Foi um choque de realidade, de botar o pé no chão, ter de se dedicar e não ter escapatória”, afirma.
O traço que mais se nota dessa herança é provavelmente seu estilo direto, franco, transparente, tanto para falar dos negócios quanto de sua vida pessoal. Aos 56 anos, prestes a completar uma década no comando da companhia aérea Latam no Brasil, Cadier ganhou visibilidade no setor e no mundo dos negócios em geral (principalmente por suas declarações sobre a reforma tributária, a falta de apoio ao turismo e outros temas políticos). Ele atribui esse tom mais enfático ao tempo no cargo. “Hoje eu consigo fazer algumas afirmações com mais tranquilidade”, diz.

Para essa tranquilidade contribui, sem dúvida, o bom momento vivido pela empresa. Depois do baque da pandemia de covid-19, o que levou a companhia à concordata, Cadier liderou uma reestruturação que vem dando frutos: o número de reclamações dos passageiros despencou, o número de destinos vem subindo consistentemente, os lucros voltaram… e a Latam está investindo em uma nova frota, com aviões um pouco menores, para ampliar ainda mais seu alcance.
A eficiência empresarial, porém, encontra limites. Tanto no imponderável, como um cenário de guerra que faz o preço do combustível disparar, quanto em um contexto que, este sim, pode ser mudado. E daí vem a atuação de Cadier, com o registro de que o Brasil explora muito pouco seu potencial na aviação. O patamar de meia viagem aérea por habitante ao ano, lembra ele, está muito aquém do de outros países e permanece assim há muito tempo. “O Brasil precisa de uma agenda que aumente a eficiência e reduza os custos do setor, em vez de manter regras que encarecem a operação e de conviver com um dos combustíveis de aviação mais caros do mundo.” Jerome Cadier, CEO Latam Brasil
Carta branca para mudar
Cadier tem um nome e um sobrenome não muito comuns. É porque são de origem francesa. Seu pai, filho de um casal de franceses radicado no Brasil, nasceu no Rio de Janeiro, estudou na França e voltou ao país no fim da década de 1950 casado com uma francesa. Jerome (pronuncia-se “Jerrôme”) cresceu falando francês e estudou em uma escola francesa.
Não tinha ideia de que profissão queria seguir, mas como era bom em matemática escolheu engenharia de produção – que cursou na Escola Politécnica da USP, tendo entrado aos 20 anos, depois de um ano de cursinho e da temporada no Exército. Nunca trabalhou como engenheiro, mas acredita que o curso tenha lhe burilado a capacidade de resolver problemas.
Ao sair da faculdade, trabalhou na consultoria McKinsey durante oito anos, durante os quais fez um MBA na Kellogg School of Management, nos Estados Unidos. Em 2002, foi para a Whirlpool, dona de Brastemp e Consul, onde atuou nas áreas comercial e de marketing e chegou a comandar os negócios na Oceania.
Ficou dez anos no grupo, até receber, em 2013, o convite para ingressar na companhia formada pela fusão da brasileira TAM com a chilena LAN, o Latam Airlines Group. “Fui o primeiro executivo que veio de fora e entrou para a Latam”, diz. Mudou-se para Santiago, onde assumiu como diretor de marketing do grupo, com responsabilidades também ligadas à experiência do cliente.
Se hoje o passageiro diz “Latam” com naturalidade, Cadier tem participação direta nessa mudança de vocabulário. Foi ele quem liderou a criação da marca que substituiu TAM e LAN em todos os mercados do grupo. Lançada em maio de 2016 e apresentada durante a chegada da tocha olímpica ao Brasil, a nova identidade completa uma década.

Em maio de 2017, ele voltou para presidir a operação brasileira, que havia perdido espaço e rentabilidade. A fusão reunira empresas em situações diferentes. A TAM enfrentava uma concorrência maior e resultados fracos. A LAN chegava com uma operação rentável e queria ampliar sua presença no Brasil. “A LAN queria a fusão, mas a TAM precisava da fusão”, compara.
Essa diferença teve impacto na condução dos negócios. Respaldados por seus resultados melhores, os executivos oriundos da LAN impuseram à operação brasileira a fórmula que havia dado certo para eles: tornar-se, até onde fosse possível, uma empresa low cost. Fazia sentido lá fora, onde as companhias aéreas sofriam concorrência de rivais de baixo custo. No Brasil, deu errado.
A Latam aumentou o número de assentos nos aviões (diminuindo o espaço entre eles), cortou serviços e passou a cobrar pela comida. Resultado: a empresa perdeu fidelidade entre os clientes corporativos, de tíquete mais elevado, e a GOL e a Azul avançaram.
“Em pouco tempo, a direção do grupo entendeu que eles também não sabiam como reverter os resultados”, brinca Jerome, e o então presidente global, Enrique Cueto, lhe deu liberdade para rever a estratégia. “Carta branca para você, me diz o que a gente precisa fazer”, disse-lhe. Jerome apostou que era preciso voltar a oferecer o que o brasileiro valorizava.
A estratégia retomava, aliás, a origem da TAM. Seu fundador, Rolim Amaro, ficou famoso pelo atendimento pessoal e cuidadoso, estendendo tapetes vermelhos e destacando pessoalmente os cartões de embarque de passageiros. A companhia voltou a oferecer comida a bordo, melhorou os canais digitais e se aproximou das agências de viagens, especialmente das que atendiam o público corporativo.
A atenção de Jerome aos colaboradores também lembrava a prática antiga: nos primeiros meses à frente da operação brasileira, ao percorrer as bases da companhia, diz ter ouvido de um funcionário em Teresina, no Piauí, que o último executivo a visitá-los havia sido Rolim, duas décadas antes.
Cadier também tratou de melhorar as métricas. Até então cada área tinha as suas, que eram corretas mas nem sempre levavam ao resultado desejado. Ele trocou os objetivos individuais por um compromisso comum: “Você vai trabalhar com uma meta só, que é o que o passageiro quer”. O que isso muda? O pessoal do aeroporto pode fazer tudo certo, o da manutenção idem, a tripulação também… e o avião não decolar no horário. “Com um objetivo comum, você incentiva o pessoal a pensar em como pode facilitar a atuação de outra área”, diz o executivo.
Há também uma questão estratégica. Pontualidade, por exemplo, é um fator fundamental do serviço. Não só porque agrada ao cliente, mas também porque o atraso sai caro (em horas extras, em diárias de hotel para passageiros de voos cancelados etc.). E combatê-la com eficiência exige fazer escolhas que aumentam o custo: é preciso ter redundâncias – aviões extras prontos a tomar o lugar de algum que apresente defeito, equipes maiores… Os gastos acabam compensando, mas no médio prazo.
E a Latam Brasil chegou a ver melhora nos resultados já entre o final de 2018 e o início de 2019. Com mais pontualidade e satisfação dos clientes, a rentabilidade voltou. O fim da Avianca Brasil, uma rival de baixo custo, ajudou. Tudo parecia tão nos eixos que Jerome lembra de ter concluído: “Fechei um ciclo”. Era hora de pensar no próximo, fosse dentro ou fora da Latam.
A reconstrução da Latam pós-pandemia
O ciclo que o esperava, porém, era de natureza totalmente diferente. Em plenas férias de fim de ano no final de 2019, Cadier esquiava com Thomas, seu filho do meio, então com 10 anos, e uma noite os dois chegaram a jogar um jogo no celular cujo objetivo era… espalhar um vírus pelo mundo.
Àquela altura já haviam surgido as primeiras notícias sobre uma doença estranha na China. Mas ele só percebeu que a situação iria se agravar semanas depois, quando a ocupação de um voo para Milão caiu para cerca de 40%. A partir daí, com o avanço da pandemia, a procura despencou rapidamente. Houve dias sem nenhum voo no país inteiro. A receita despencou, mas os custos permaneciam (inclusive com passageiros que pediam reembolso das passagens compradas com antecedência).
A Latam entrou em recuperação judicial nos Estados Unidos. A operação brasileira ainda acreditou que pudesse contar com auxílio do governo, mas seguiu o mesmo caminho um pouco depois. E então Jerome decidiu que, se a concordata era inevitável, seria melhor aproveitá-la para uma reconstrução maior. “Nosso objetivo não era sair logo da recuperação judicial, era sair bem”, afirma.
A Latam renegociou contratos, reduziu custos, e ganhou flexibilidade. Só não cortou os investimentos em tecnologia: tratou de automatizar processos. A companhia também manteve projetos voltados para o passageiro, como a Premium Economy nos voos domésticos e o reforço do programa de fidelidade.
Para evitar demissões, Jerome tentou negociar uma redução salarial com os aeronautas, sem sucesso. Os cerca de 2.700 cortes em agosto de 2020 acabaram sendo inevitáveis, diz. “Quando nos recuperamos, recontratamos a maior parte deles.” Hoje, o grupo tem 41 mil funcionários e a Latam Brasil emprega 24.180 pessoas. Antes da pandemia, eram 21 mil. “Isso não diminui o peso das decisões que precisaram ser tomadas naquele momento.”
Que a situação era estressante, não há dúvida. Para começar, como administrador estatutário, não era só o emprego de Cadier que estava em jogo; ele corria o risco de perder o patrimônio também caso a empresa sucumbisse. Não menos impactante, nessa época seu casamento (o segundo) ruiu.
Nessa situação, Cadier refinou seu estilo de liderança calcado em comunicação rápida, incisiva e transparente. Chegava a gravar vídeos curtos pelo celular para funcionários que temiam perder o emprego ou ficar sem salário. “A regra era não dourar a pílula”, conta. “Até porque, naquele contexto, como você ia fingir que estava tudo sob controle?”
Em novembro de 2022, a Latam saiu da recuperação judicial nos Estados Unidos, dois anos e meio depois de entrar no processo. Mais enxuta e capitalizada, teve condições de ajustar a frota e a malha. O Brasil, antes visto como uma operação grande mas falha e pouco rentável, ganhou peso na estratégia global. E a perspectiva para a frente é ainda melhor, frisa Cadier. Antes da pandemia, a Latam voava para 44 destinos domésticos. Chegou a 64 e pretende alcançar 67 até o fim de 2026. “Uma das maiores lições da pandemia foi entender os limites da nossa capacidade de prever o futuro.” Jerome Cadier, CEO da Latam
Para ampliar a malha, encomendou 24 unidades do Embraer E195-E2, com opções de outras 50. Com 136 assentos, o modelo terá classes Economy e Premium Economy e permitirá atender mais cidades médias – pela facilidade de operar em aeroportos menores e pelo custo mais ajustado onde a demanda é pequena para os Airbus maiores da frota.
Na primeira fase, prevista até março de 2027, os aviões deverão operar 42 rotas domésticas. Desse total, oito são novas ligações; as demais envolvem a malha existente. A demanda, afirma Cadier, já está surpreendendo, com um volume de reservas maior do que o esperado, principalmente em rotas do agronegócio, como Rondonópolis (MT).
A recuperação não eliminou a exposição às oscilações do setor. No segundo trimestre de 2026, o Grupo Latam teve receita de US$ 4,2 bilhões, 28% acima do registrado no mesmo período do ano passado, embora seu lucro líquido tenha caído quase à metade, para US$ 125 milhões (em grande parte pelo aumento do combustível, de 93,1%). No ano passado, a receita foi de US$ 14,5 bilhões, alta de 11,2% sobre 2024, e a previsão de analistas para este ano é de passar dos US$ 17,3 bilhões. “A gente não tem ideia de quando vai acabar a guerra do Irã e o que vai acontecer com o combustível”, diz. “Uma das maiores lições da pandemia foi entender os limites da nossa capacidade de prever o futuro.”
Bons resultados, no entanto, inegavelmente ajudam a aliviar a tensão. E isso se reflete na vida pessoal. Cadier diz que já trabalhou jornadas mais longas. Hoje procura preservar o tempo com a família. Está no terceiro casamento e tem três filhos: Martina, de 21 anos, da primeira união; e Thomas, hoje com 16, e Chloe, de 14, do segundo casamento. O tempo livre é também uma conquista profissional. Cadier passou a valorizar as equipes capazes de encontrar respostas para os problemas da companhia. “Quanto mais forte é uma organização, menos ela depende do CEO para encontrar as melhores soluções.”

Mesmo assim, desistiu do triatlo. “Toma tempo demais”, define. Cadier esquia desde criança e já praticou também corrida. Hoje prefere pedalar, fazer mountain bike nos fins de semana e andar de moto, uma de suas paixões. Também não abre mão de dormir cerca de sete horas por noite – algo essencial em seu cargo, afirma. “Em aviação, uma crise pode irromper a qualquer momento, e você precisa estar 100% alerta, descansado e disposto.”

*Reportagem publicada na edição 145 da revista Forbes, de setembro de 2026, que traz a lista dos Melhores CEOs do Brasil.
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Prêmio para Mulheres Cientistas Tem Inscrição Prorrogada até Novembro
Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo.
Mulheres estudantes do Ensino Médio e universitárias terão até o dia 15 de novembro para se inscrever no 8º Prêmio Carolina Bori Ciência e Mulher.
A premiação, promovida pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), tem o objetivo de reconhecer cientistas e jovens pesquisadoras com trabalhos relevantes em suas áreas de conhecimento e incentivar a participação feminina na produção científica. Por isso, o foco se alterna anualmente entre profissionais e estudantes.
Este ano, a proposta é identificar jovens que, mesmo no início de sua formação, já demonstram curiosidade científica, criatividade, capacidade de investigação e interesse em construir uma trajetória ligada à ciência.
Podem concorrer estudantes que estejam matriculadas no Ensino Médio ou em cursos de graduação em instituições de ensino brasileiras.
Para participar, essas meninas devem ter desenvolvido projetos ou atividades de iniciação científica com orientação de professores ou pesquisadores ou se destacado em feiras e olimpíadas científicas, projetos de pesquisa ou ações de divulgação científica.
A SBPC vai premiar seis mulheres: três do ensino médio e três da graduação. Em cada etapa, será escolhido um projeto de cada uma das seguintes áreas: Humanidades; Ciências Biológicas e da Saúde e Engenharias, Ciências Exatas e Ciências da Terra.
As vencedoras irão receber uma mentoria exclusiva com pesquisadores reconhecidos e vão apresentar seus trabalhos na 79ª reunião Anual da SBPC prevista para ocorrer em julho de 2027 em João Pessoa (PB).
Além disso, as estudantes do ensino médio ganhadoras vão receber um prêmio em dinheiro de R$ 10 mil e as alunas da graduação um valor de R$13 mil.
Quem foi Carolina Bori
Carolina Martuscelli Bori (1924-2004) foi uma psicóloga e pesquisadora brasileira pioneira da ciência e da pesquisa científica no país.
Também foi a responsável pela introdução da Análise Experimental do Comportamento no Brasil e a primeira mulher a presidir a SBPC, entre os anos de 1986 e 1989.
As inscrições podem ser feitas até o dia 15 de novembro pelo formulário online. O edital com todas as informações pode ser acessado no site da SBPC.
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