Saúde
Venda de cigarros eletrônicos continua no Brasil, apesar de proibida

Apesar de ser proibida a comercialização, importação e propaganda de cigarros eletrônicos no Brasil, boa parte dos jovens brasileiros usa esse produto. A proibição foi determinada pela Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) número 46/2009 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Não há, portanto, autorização no Brasil para quaisquer dispositivos eletrônicos para fumar, os chamados DEFs, independentemente de sua composição e finalidade.
Em julho de 2022, a Anvisa manteve a proibição da importação e a venda dos DEFs, ou vapes, no Brasil, mas a compra continua ocorrendo pela internet e em pontos de venda do comércio, incluindo camelôs, além de festas e boates.![]()
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Nesta quinta-feira (6), a Anvisa reiterou à Agência Brasil que a importação de DEFs, acessórios, refis e essências desses produtos é proibida no Brasil e que o descumprimento da norma é passível de sanções. As penalidades previstas variam de advertência a multas, conforme a gravidade do fato e o porte da empresa, de acordo com o previsto nas leis nº 6437/77 e 9294/96. Em caso de propaganda irregular, além das penalidades, as empresas são notificadas a retirar o site com conteúdo irregular da internet.
No âmbito das ações de fiscalização, tendo como fundamento o princípio da descentralização político-administrativa, cabe primordialmente às vigilâncias sanitárias locais a fiscalização de tais produtos, conforme prevê o Artigo 7º da Lei nº 8.080 /1990, cominado com a Lei nº 9.782/1.999, que define o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária. A Anvisa, contudo, “vem reforçando e integrando as ações de fiscalização em cooperação com estados e municípios e atuando na capacitação das vigilâncias sanitárias locais”. A Anvisa informou ainda que não possui competência legal para regular o uso individual de cigarro eletrônico.
De acordo com relatório divulgado em maio do ano passado pelo sistema Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), do Ministério da Saúde, pelo menos um a cada cinco jovens de 18 a 24 anos usa cigarros eletrônicos no Brasil. Do mesmo modo, a última pesquisa Covitel, desenvolvida pela organização global de saúde pública Vital Strategies e pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), mostra que os adultos jovens apresentaram as maiores prevalências de experimentação de cigarro eletrônico (19,7%) e de narguilé (17%), no país, no ano passado. O consumo desses produtos é considerado modismo no Brasil e segue comportamento observado em outros países, como Estados Unidos e Reino Unido, onde é permitida a comercialização.
CDC
Estudo recente, divulgado no fim de junho pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), informa que as vendas mensais de cigarros eletrônicos aumentaram 46,6%, passando de 15,5 milhões de unidades, vendidas em janeiro de 2020, para 22,7 milhões, em dezembro de 2022 naquele país. Esse incremento considera somente as vendas de varejo, excluindo o comércio online.
A sondagem mostrou que os e-cigarros com sabores são os preferidos do consumidor, evoluindo de 29,2% para 41,3%. A indústria está também em franca expansão, diz o CDC. O número de marcas que oferecem produtos eletrônicos à base de tabaco subiu de 184 para 269, alta de 46,2%. Já a Pesquisa Nacional de Tabaco Juvenil de 2022, aponta que mais de 2,5 milhões de estudantes do ensino fundamental e médio dos Estados Unidos disseram usar o cigarro eletrônico, com um a cada quatro alunos relatando usar diariamente o vaporizador.
No Reino Unido, escolas estão trocando detectores de fumaça por sensores de calor para evitar o disparo de alertas, em razão do uso de vape pelos alunos, em especial nos banheiros das instituições, informou o jornal britânico Daily Mail. Na St George’s Academy em Sleaford, em Lincolnshire, a diretora Laranya Caslin estimou que um em cada quatro alunos na faixa etária de 11 a 18 anos deixa as aulas habitualmente para usar o e-cigarro, visando a aumentar os níveis de nicotina no organismo.
Perigos
Falando nesta quinta-feira (6) à Agência Brasil, o diretor executivo da Fundação do Câncer, cirurgião oncológico Luiz Augusto Maltoni, demonstrou preocupação com os perigos que o avanço desse tipo de derivado do tabaco entre os jovens brasileiros pode trazer para a saúde.
Na Europa e nos Estados Unidos, onde a venda é permitida, as indústrias argumentam que os vapes constituem uma maneira de as pessoas pararem de fumar. Maltoni afirmou que o argumento é falso e está fazendo o efeito inverso, que é atrair cada vez mais jovens para o hábito de fumar e o consumo de tabaco. “A permissão para vender o cigarro eletrônico tem criado uma nova onda de crescimento da indústria do tabaco no mundo.”
No Brasil, ele disse que o volume de jovens e adolescentes que já experimentaram o cigarro eletrônico em algum momento ou fazem uso desse produto só não é maior porque existe uma política no país que proíbe o cigarro eletrônico por normatização. “De certa forma, a gente ainda consegue manter índices muito inferiores aos de nações onde é liberada a venda”.
Convenção-quadro
Maltoni destacou a reativação da Convenção-Quadro da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o Controle do Tabaco, que tinha parado de funcionar durante a pandemia da covid-19 e vai voltar agora à carga total. A convenção é assinada por mais de 100 países que acordaram que o cigarro e seus derivados constituem item de grande prejuízo para a saúde no mundo e exige políticas de controle dos signatários. “O ideal é que a gente possa erradicar o tabagismo do mundo”. Na Convenção-Quadro, há uma série de determinações que devem ser cumpridas pelos signatários. Maltoni lembrou que o último relatório sobre controle de tabaco do mundo foi lançado pela OMS no Rio de Janeiro, porque o Brasil tinha atingido todos os níveis mínimos necessários para controle do tabaco no mundo. “Foi uma deferência ao Brasil como um dos países que mais avançaram no controle ao tabaco”. Uma das questões da convenção é o cigarro eletrônico.
De acordo com o CDC, é alarmante o número de casos de inflamação aguda de pulmão que o aumento do tabagismo tem provocado nos Estados Unidos. O diretor executivo da Fundação do Câncer afirmou que não há nenhum estudo clínico que demonstre que o cigarro eletrônico seja indutor da cessação do tabagismo. “Pelo contrário, nenhum [estudo] comprovou que é um método eficaz para a cessação. Existem outros métodos já estabelecidos, que incluem uso de medicamentos, antidepressivos, aconselhamento individual ou em grupo, uso de adesivos de nicotina de reposição para que o dependente vá reduzindo a dose. Tem uma série de mecanismos para ajudar o tabagista a parar de fumar”.
Maltoni insistiu que o cigarro eletrônico é um indutor e tem foco nos mais jovens para criar dependência. “E, a partir daí, ele se torna não só um consumidor do cigarro eletrônico, mas também do cigarro convencional. Ele ressaltou que, além de doenças pulmonares, as substâncias tóxicas presentes no cigarro tradicional e nos eletrônicos contribuem para as doenças obstrutivas crônicas (DOCs) e doenças cardiovasculares, além de vários tipos de câncer. “O cigarro eletrônico tem outro agravante. Como é um composto eletrônico, causa lixo que não é biodegradável, polui o ambiente, provocando um problema ambiental cada vez mais significativo”, disse o especialista.
Fora isso, há também um grande número relatado de explosões que deixam queimaduras em boa parte do corpo das pessoas, acrescentou.
Universidades
Além do trabalho de divulgação para ao público dos malefícios do tabagismo, em especial do cigarro eletrônico, junto a outros parceiros, como a Ecoponte, a Fundação do Câncer pretende expandir este ano as ações realizadas em universidades públicas e privadas, para sensibilizar professores, pais e alunos sobre como a questão do tabagismo é importante para a preservação da saúde.
Direta
A ONG Direta — Diretório de Informações para Redução dos Danos do Tabagismo – diz que já existem evidências científicas de que o uso de produtos alternativos ao cigarro tradicional pode ajudar na diminuição do número de fumantes. Segundo a ONG, o caso mais emblemático é o da Suécia, que “está próxima de ser o primeiro país europeu livre do tabagismo, por ter regulamentado a venda e o uso desse tipo de dispositivo. A OMS confirmou que, na Europa, a Suécia tem a menor taxa de mortalidade entre os homens em todos os tipos de câncer”.
“Negar que os vaporizadores sejam comercializados legalmente como alternativa ao tabagismo é condenar milhões de tabagistas que querem deixar o vício ao consumo de produtos sem controle de qualidade ou procedência conhecida”, afirma o presidente da Direta, Alexandre Lucian.
Quanto ao número crescente de jovens interessados no cigarro eletrônico, a ONG ressalta que a proibição não diminui a demanda ou o consumo. De acordo com a a Direta, a saída para o Brasil é a regulamentação desse tipo de produto, para que sejam criados mecanismos para controle e venda para menores de idade, como já acontece no caso de cigarros convencionais e de bebidas alcoólicas.
Texto ampliado às 18h06 para inclusão do posicionamento da Direta
Fonte: Agência Brasil – Edição: Nádia Franco
Saúde
Anvisa aprova novo remédio contra câncer de pulmão; Brasil é o 2º país a liberar terapia

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou, na segunda-feira (19), o telisotuzumabe vedotina, comercializado como Emrelis, medicamento destinado a adultos com câncer de pulmão de não pequenas células (CPNPC) avançado ou metastático. Com a decisão, o Brasil se tornou o segundo país a autorizar a terapia, depois dos Estados Unidos, onde o produto recebeu aprovação acelerada em maio de 2025.
Desenvolvido pela farmacêutica americana AbbVie, o medicamento é indicado para pacientes com tumores do tipo não escamoso que apresentam alta expressão da proteína c-Met e que já passaram por tratamento sistêmico anterior. A identificação desse biomarcador é fundamental para determinar quais pacientes podem se beneficiar da terapia.
A aprovação brasileira foi baseada no estudo clínico de fase 2 LUMINOSITY. Na pesquisa, a taxa de resposta objetiva chegou a 34,6% entre os pacientes com alta expressão de c-Met. Isso significa que essa proporção apresentou redução mensurável do tumor, e não que os participantes tenham sido curados.
Segundo a AbbVie, a previsão é que o medicamento chegue ao mercado brasileiro no primeiro semestre de 2027, após as etapas regulatórias necessárias para a comercialização.
Como funciona o novo medicamento contra o câncer de pulmão?
- O telisotuzumabe vedotina é um conjugado de anticorpo e fármaco, tecnologia que combina um anticorpo direcionado a uma proteína específica com uma substância capaz de destruir células;
- Nesse caso, o anticorpo reconhece a proteína c-Met, presente na superfície das células tumorais. Depois de se ligar ao alvo e ser internalizado pela célula, o conjugado libera o agente citotóxico responsável por interferir no funcionamento celular e provocar a morte da célula cancerígena;
- A proteína c-Met é um receptor envolvido em processos celulares, como crescimento e sobrevivência. Em determinados tumores, sua expressão está aumentada, característica que pode estar associada à progressão da doença e a prognóstico menos favorável;
- De acordo com os dados apresentados no estudo LUMINOSITY, a alta expressão de c-Met está presente em uma parcela dos pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células não escamoso e EGFR selvagem. A identificação desse perfil molecular permite selecionar pacientes para os quais a terapia foi desenvolvida.
Estudo identificou resposta em 34,6% dos pacientes
O estudo LUMINOSITY avaliou o medicamento em pessoas com câncer de pulmão avançado ou metastático que já haviam recebido tratamento anteriormente.
Entre os participantes com alta expressão de c-Met, a taxa de resposta objetiva foi de 34,6%. No grupo com expressão intermediária da proteína, o índice foi menor, de 22,9%. Considerando os pacientes com expressão aumentada de c-Met avaliados na análise principal, a taxa geral de resposta objetiva foi de 28,6%.
A resposta objetiva corresponde à proporção de pacientes que apresentaram redução significativa do tumor, conforme critérios médicos de avaliação. O resultado não equivale à taxa de cura nem significa, isoladamente, que a doença deixou de progredir em todos esses pacientes.
Entre os pacientes com alta expressão de c-Met que responderam ao tratamento, a duração mediana da resposta foi de nove meses na análise publicada do estudo. Esse indicador mede por quanto tempo, em mediana, a resposta ao medicamento foi mantida.

Os efeitos adversos mais comuns incluíram neuropatia periférica, fadiga, diminuição do apetite e edema periférico. A neuropatia periférica pode provocar sintomas, como formigamento, dormência ou dor nas extremidades.
Nos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA) concedeu aprovação acelerada ao Emrelis em maio de 2025, com base na taxa de resposta objetiva e na duração das respostas. A agência estadunidense ressalta que a manutenção da aprovação pode depender da confirmação do benefício clínico em estudos posteriores.
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Quando o medicamento chegará ao Brasil?
Embora a Anvisa tenha autorizado o registro do medicamento, isso não significa que ele estará imediatamente disponível nas farmácias ou hospitais brasileiros.
A próxima etapa envolve a avaliação e a definição do preço pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED). Somente depois desse processo o produto poderá ser comercializado no país.
Segundo a AbbVie, a expectativa é concluir as etapas necessárias para a chegada ao mercado brasileiro no primeiro semestre de 2027.
A aprovação regulatória também não garante a disponibilização automática do Emrelis pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Para que a terapia seja incorporada à rede pública, é necessário um processo específico de avaliação de tecnologias em saúde, conduzido pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec).
Câncer de pulmão deve atingir mais de 35 mil pessoas por ano no Brasil
O câncer de pulmão está entre os tumores que mais provocam mortes no mundo. Segundo estimativas internacionais para 2024, a doença registrou aproximadamente 2,65 milhões de novos casos e mais de 1,8 milhão de mortes.
No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima 35.380 novos casos anuais de câncer de traqueia, brônquios e pulmão para cada ano do triênio de 2026 a 2028, considerando homens e mulheres.
O tabagismo é o principal fator de risco para a doença, embora também existam outros fatores associados, como exposição à poluição do ar e a determinadas substâncias no ambiente de trabalho.
A aprovação do Emrelis amplia as opções de tratamento para um grupo específico de pacientes com câncer de pulmão avançado. O benefício potencial depende das características do tumor, da identificação da proteína c-Met e do histórico de tratamento de cada paciente.
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Saúde
Vírus que afetou Carlos Alberto de Nóbrega pode atingir o coração; entenda

O vírus Coxsackie, conhecido por causar a síndrome mão-pé-boca, geralmente provoca infecções leves, mas, em casos raros, pode atingir o coração e provocar alterações no ritmo cardíaco. Foi o que aconteceu com o apresentador Carlos Alberto de Nóbrega, de 90 anos, que precisou de um marcapasso após uma infecção agravar uma insuficiência cardíaca preexistente.
Internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo (SP), desde a semana passada, o apresentador contraiu o Coxsackie tipo 2. A infecção agravou seu quadro cardíaco, provocando bradicardia, condição em que o coração bate mais devagar do que o normal, e outras arritmias.
A cirurgia para implantação do aparelho, inicialmente prevista para segunda-feira (19), foi adiada para terça-feira (20). Segundo a assessoria, Carlos Alberto está estável e sem complicações. Sua esposa, Renata de Nóbrega, que é médica, também apresentou sintomas da infecção, mas não precisou ser internada.
O que é o vírus Coxsackie?
- Os coxsackievírus pertencem ao grupo dos enterovírus, que também inclui o vírus da poliomielite. Eles são divididos em dois ramos: A e B, associados a diferentes manifestações da infecção;
- O ramo A reúne 23 tipos e está relacionado à síndrome mão-pé-boca, doença contagiosa que afeta principalmente crianças pequenas. Já o ramo B tem seis tipos e é mais associado a complicações em órgãos internos, como coração, pâncreas, fígado e sistema nervoso;
- O tipo 2 existe nos dois ramos. A informação divulgada sobre o caso de Carlos Alberto de Nóbrega, porém, não esclarece a qual deles pertence o vírus identificado no apresentador;
- A infecção é bastante comum e, na maioria das vezes, passa despercebida. Um levantamento realizado na Itália encontrou sinais de contato anterior com o vírus em cerca de sete em cada dez pessoas analisadas;
- Os sintomas geralmente se assemelham aos de um resfriado, uma diarreia ou uma febre de curta duração. Por isso, muitas pessoas se recuperam sem saber qual vírus causou o quadro;
- A transmissão ocorre principalmente pelo contato com fezes contaminadas. O vírus pode continuar sendo eliminado dessa forma por semanas após o desaparecimento dos sintomas. Também pode circular pela saliva e por gotículas respiratórias, além de permanecer em superfícies e objetos, facilitando a disseminação em casas, creches e escolas.
Como o vírus pode atingir o coração?
O Coxsackie entra no organismo pela boca, multiplica-se no intestino e pode alcançar a circulação sanguínea. Pelo sangue, chega a diferentes tecidos e consegue invadir células que apresentam estruturas às quais o vírus se liga.
No coração, essas estruturas estão presentes nas junções entre as células do músculo cardíaco, regiões importantes para a passagem dos sinais elétricos que coordenam os batimentos.
Segundo Ricardo Kazunori, cirurgião cardiovascular da BP — A Beneficência Portuguesa de São Paulo, o vírus pode danificar diretamente as células, enquanto a resposta do sistema imunológico provoca inflamação adicional.
Esse processo pode causar miocardite, inflamação do músculo cardíaco. Quando a inflamação alcança o sistema elétrico do coração, os sinais responsáveis por coordenar as batidas podem ficar mais lentos ou ser interrompidos parcialmente. O resultado pode ser uma alteração do ritmo cardíaco, incluindo a bradicardia observada no caso do apresentador.
Na maioria dos casos de miocardite viral, as falhas de condução são passageiras. Entretanto, há relatos raros de bloqueios elétricos irreversíveis que exigiram a implantação definitiva de um marcapasso, inclusive após infecção pelo Coxsackie B2.
O aparelho emite impulsos elétricos para ajudar a manter o ritmo cardíaco quando o coração não consegue gerar ou conduzir os sinais adequadamente. Ele trata a alteração dos batimentos, mas não elimina o vírus responsável pela infecção.
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Quem corre maior risco de complicações?
Embora a maioria das infecções seja leve, alguns grupos estão mais sujeitos a quadros graves. Entre eles estão recém-nascidos, pessoas com o sistema imunológico enfraquecido e pacientes com doenças preexistentes no coração ou no cérebro.
No caso de quem já tem insuficiência cardíaca, uma inflamação adicional pode agravar o funcionamento de um órgão que já apresenta dificuldade para bombear sangue com eficiência.
Alguns sintomas exigem avaliação médica urgente, especialmente quando há suspeita de comprometimento cardíaco ou neurológico:
- Dor no peito;
- Falta de ar;
- Palpitações;
- Febre persistente;
- Dor de cabeça intensa acompanhada de rigidez no pescoço;
- Confusão mental ou convulsões.
Em bebês, febre acompanhada de dificuldade para mamar, sonolência excessiva ou irritabilidade também exige atendimento imediato.
O Coxsackie pode atingir ainda o pâncreas. Pesquisas investigam possível relação entre infecções persistentes e o desenvolvimento do diabetes tipo 1, mas essa hipótese continua em estudo.
Nos quadros leves, o diagnóstico costuma ser feito com base nos sintomas, sem necessidade de exames específicos. Em situações graves ou atípicas, especialmente envolvendo recém-nascidos e pessoas com imunidade baixa, os médicos podem recorrer a testes que detectam o material genético do vírus em amostras de sangue, líquor ou tecido cardíaco.
Existe tratamento para o Coxsackie?
Não há medicamento específico capaz de eliminar o coxsackievírus, nem vacina disponível contra ele. O tratamento depende dos sintomas e dos órgãos afetados.
Nos casos leves, os cuidados incluem hidratação e medicamentos para aliviar febre e dor. Quando há miocardite, pode ser necessário monitorar o funcionamento do coração e utilizar medicamentos para tratar a insuficiência cardíaca.
Nas formas mais graves, o paciente pode precisar de suporte mecânico para manter a circulação sanguínea. Se a infecção provocar alterações importantes no ritmo cardíaco, um marcapasso pode ser necessário para corrigir o problema elétrico.
A prevenção depende principalmente de medidas de higiene. Lavar as mãos com água e sabão, especialmente após usar o banheiro ou trocar fraldas e antes de preparar ou consumir alimentos, é uma das principais formas de reduzir a transmissão.
Também é importante limpar superfícies e objetos tocados com frequência e evitar compartilhar talheres e itens pessoais durante a infecção. A higiene merece atenção especial durante a gravidez, já que a mãe pode transmitir o vírus ao bebê.
No caso de Carlos Alberto de Nóbrega, a infecção agravou uma condição cardíaca que já existia. A implantação do marcapasso busca corrigir a alteração no ritmo dos batimentos provocada por essa combinação.
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Saúde
Antes desta descoberta, cirurgia significava dor: o avanço que mudou para sempre a história da medicina

Submeter-se a uma cirurgia no passado era como participar de um filme de terror. Sem métodos para evitar a dor, o recurso era a última e mais desesperada tentativa de salvar a vida de um paciente em agonia.
Antes de meados do século XIX, os procedimentos cirúrgicos eram extremamente limitados. Os médicos atuavam apenas superficialmente no corpo, fazendo amputações rápidas ou retirando pedras da bexiga. O interior do abdômen, tórax e crânio permanecia completamente intocável pela medicina.
A agilidade do cirurgião determinava o sucesso da intervenção. Os pacientes precisavam ser amarrados ou segurados por homens fortes para não fugirem. Muitos desmaiavam de tanta agonia, enquanto outros morriam na própria mesa de operação em decorrência do trauma avassalador.
De acordo com a Federação Mundial das Sociedades de Anestesiologistas, relatos da época mostram pacientes em pânico tentando escapar antes do primeiro corte. Em um dos casos, um homem correu pelo corredor e se trancou no banheiro. O cirurgião precisou arrombar a porta para carregá-lo de volta à sala de cirurgia.
Em 1841, um jornal de Nova York, nos EUA, descreveu a amputação da perna de um jovem de quinze anos. O garoto gritava terrivelmente enquanto a lâmina atravessava a carne, com o sangue jorrando aos litros e seu pai segurando sua mão em lágrimas.

Anestesia permitiu avanço das cirurgias complexas
O cenário trágico começou a mudar há exatos 180 anos, em 16 de outubro de 1846, quando ocorreu a primeira demonstração pública de anestesia. O evento histórico aconteceu no Hospital Geral de Massachusetts, na cidade de Boston, nos Estados Unidos.
Na ocasião, o dentista William Morton usou éter para adormecer o paciente Gilbert Abbott, permitindo que o cirurgião John Warren removesse um nódulo no pescoço sem dor. Essa apresentação oficial provou ao mundo médico que era possível operar sem causar sofrimento.
A notícia do sucesso em Boston atravessou o Atlântico a bordo de um navio postal. Poucas semanas depois, em dezembro de 1846, os médicos da Europa já realizavam as primeiras extrações dentárias e amputações utilizando a inalação de éter com total sucesso.
A chegada da anestesia revolucionou a medicina e permitiu o avanço da cirurgia moderna. Os médicos puderam trabalhar de forma calma e precisa, explorando finalmente órgãos internos antes proibidos, o que ganhou ainda mais força com as técnicas de higiene e antissepsia.

A busca por compostos mais eficientes avançou no século XIX. Em 1847, o clorofórmio passou a ser adotado por ser mais fácil de aplicar do que o éter, embora apresentasse riscos mais elevados de complicações cardíacas e graves lesões no fígado.
Em 1877, a descoberta da ação da cocaína abriu caminho para a anestesia local. A partir daí, surgiram os bloqueios nervosos e as anestesias espinhal e epidural, que permitiam relaxar a região abdominal do paciente sem a necessidade de um adormecimento tão profundo.
Veneno indígena inspirou relaxamento muscular
Durante o início do século XX, a medicina desenvolveu tubos para controlar a respiração dos pacientes durante o procedimento. Pouco depois, surgiram os medicamentos aplicados diretamente na veia, proporcionando um adormecimento rápido, suave e muito mais agradável do que os gases inalatórios.
A década de 1940 trouxe o uso de relaxantes musculares derivados do curare, um composto originalmente utilizado por indígenas sul-americanos em suas flechas. Na década seguinte, a criação do halotano tornou a anestesia inalatória ainda mais segura e fácil de administrar.
A evolução continuou até transformar a prática em uma ciência complexa. Em entrevista ao Olhar Digital, o médico anestesiologista Leonardo Vanzato, coordenador da Anestesia do Hospital Albert Sabin (HAS/SP), explicou que o papel do especialista se expandiu. Ele ressalta que o organismo continua reagindo ao trauma da cirurgia mesmo durante o sono, exigindo o monitoramento constante das respostas metabólicas e inflamatórias.
“Se em 1846 a grande conquista foi tornar possível operar sem dor consciente, hoje o desafio é controlar o impacto fisiológico da cirurgia e favorecer a melhor recuperação possível”, disse Vanzato. “Essa transformação consolida o anestesiologista como médico do perioperatório, integrando conhecimento fisiológico, tecnologia e tomada de decisão clínica para tornar a cirurgia mais segura e melhorar os resultados que realmente importam para o paciente”.

O trabalho invisível de proteger o paciente
Essa percepção é compartilhada pela médica anestesiologista Fernanda Leite, doutora em Anestesiologia e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo em Bauru (FMBRU-USP). Segundo ela, o controle do sofrimento é apenas a parte visível de uma atuação médica muito mais profunda no organismo do paciente.
“Foi uma conquista enorme, não há dúvidas, mas, hoje, sabemos que a dor consciente é só a ponta do iceberg. A cirurgia é uma agressão ao organismo, e o corpo responde a ela com uma série de alterações: liberação de hormônios do estresse, ativação do sistema nervoso simpático, produção de mediadores inflamatórios e alterações na coagulação e no metabolismo. Essa resposta acontece mesmo com o paciente completamente inconsciente”, afirma Fernanda.
Ela reforça que a anestesiologia moderna aprendeu a modular essa resposta fisiológica combinando técnicas, como a anestesia geral com bloqueios regionais, o uso de analgesia multimodal para poupar opioides, a manutenção da temperatura e a escolha de fármacos conforme o perfil individual. A médica lembra que o cuidado começa na avaliação pré-operatória e se estende até o pós-operatório, reduzindo complicações e o tempo de internação.
“E um dado interessante é que pouca gente enxerga toda essa linha de cuidado, porque quando tudo dá certo, a impressão que todos têm é de que ‘não aconteceu nada’. Esse é o paradoxo da nossa especialidade: o melhor resultado é aquele em que ninguém percebe o que foi feito”, destaca.

Com o monitoramento cerebral e os fármacos modernos, a especialidade se tornou extremamente personalizada. Vanzato ressalta que a tecnologia serve como apoio, mas não substitui a interpretação contínua dos sinais fisiológicos. Além das salas cirúrgicas, esses médicos gerenciam Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), tratam dores crônicas, atuam em partos e lideram equipes de emergência.
Segundo Vanzato, a inteligência artificial e os sistemas automatizados de infusão prometem moldar o futuro da área. O especialista destaca que o foco das próximas décadas será antecipar alterações fisiológicas e personalizar procedimentos conforme as características individuais de cada paciente.
“A automação poderá assumir tarefas repetitivas e ampliar a precisão de determinadas intervenções, mas o julgamento clínico, a responsabilidade pelas decisões e a capacidade de responder a eventos inesperados continuarão sendo competências essenciais do médico”, projeta o médico. “O futuro da especialidade estará na integração entre conhecimento médico, inteligência tecnológica e visão perioperatória, preservando o anestesiologista como responsável por transformar informação em decisões clínicas seguras, individualizadas e centradas no paciente”.
Fernanda concorda com o imenso potencial de recursos como IA, dosagem automatizada e medicina de precisão para antecipar riscos e personalizar a escolha dos fármacos. No entanto, a especialista ressalta que o fator humano permanece sendo o pilar insubstituível da segurança no centro cirúrgico.
“É preciso ser honesto: não existe anestésico totalmente seguro, não existe técnica totalmente segura. Toda anestesia carrega riscos, e nenhuma tecnologia vai eliminá-los por completo”, reconhece. “O que existe, sempre, é um anestesiologista empenhado em promover a máxima segurança ao paciente durante todo o período sob seus cuidados. É esse profissional que escolhe, vigia, reconhece o que foge do esperado e corrige o que é necessário para que tudo saia dentro do esperado e de acordo com o que seja melhor para cada paciente”.
Com o avanço dos equipamentos de monitoramento e medicamentos modernos, a anestesia atingiu níveis altíssimos de segurança. Nos países desenvolvidos, o risco de morte ligado diretamente ao procedimento é inferior a um caso para cada 250 mil cirurgias realizadas.
Da primeira demonstração com éter em 1846 aos recursos de monitoramento atuais, a anestesia permitiu o avanço das cirurgias complexas. Hoje, a especialidade alia tecnologia e conhecimento fisiológico para controlar os impactos do procedimento no organismo, garantindo alto nível de segurança e rápida recuperação ao paciente.
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