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A Carreira de Clint Eastwood: De Ator Subestimado a Mestre do Cinema

Redação Informe 360

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Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo.

Há os atores, há os bons atores, e há os excelentes atores, que podem dar vida a qualquer personagem de uma forma inesperada e tocante. Clint Eastwood passa ao largo de tudo isso. Ele não é sequer uma estrela, alguém cujo magnetismo pessoal se sobrepõe ao papel que exerce em algum filme.

Como escreveu o crítico de arte Louis Menand na revista New Yorker, alguns anos atrás, “um ator pode trabalhar por anos sem se tornar uma estrela, como aconteceu com John Wayne e Humphrey Bogart nos anos 1930”, e então, de repente, a aparência, o temperamento e o papel em um filme se conjugam e o público passa a enxergá-lo como a encarnação de seus desejos. “Ele se torna não apenas uma estrela, mas um mito”. Clint Eastwood é isso, um mito.

A gênese do mito, para Menand, ocorreu com o filme “Dirty Harry“, de 1971, em que ele interpretava um detetive justiceiro. Hoje em dia, com tantos filmes e séries retratando anti-heróis que desafiam as autoridades para fazer “o que é certo”, é difícil avaliar o impacto do personagem original. “Dirty Harry” (assim como suas sequências) acertou em cheio no que o público americano desejava ver naquele momento. “Por essa razão”, segue Menand, “Eastwood se tornou, como se fala, um ícone. Um homem menor, recebendo tamanha adoração, poderia ter seguido repetindo a si mesmo para sempre”.

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Passei anos admirando essa análise. É tão comum vermos atores aprisionados por algum papel, e Clint conseguiu escapar dessa armadilha (uma das muitas) do sucesso. Para dar uma ideia de como isso é difícil, o ator Matthew McConaughey conta que passou quase dois anos sem trabalho porque só lhe ofereciam papéis em comédias românticas (em que seguiria se repetindo).

Muito além de Dirty Harry

Mas aí veio esta mais recente biografia, “Clint: The Man and the Movies”, do escritor e ex-crítico de cinema Shawn Levy. E eu percebi que Clint jamais correria o risco de se repetir. Nem mesmo uma personagem tão forte quanto o detetive Harry Calahan seria capaz de aprisioná-lo. Porque desde o início, desde muito antes do sucesso, Clint seguiu um caminho único, que o levou a experimentar de forma inimitável os trabalhos de ator, diretor, produtor e até político (foi prefeito da cidade de Carmel, na Califórnia, onde mora).

O início de sua carreira, há sete décadas, foi em filmes tão inexpressivos que ele pensou seriamente em voltar aos trabalhos braçais que fazia antes de conseguir uma vaguinha em um curso de atuação do estúdio Universal Pictures – no qual entrou apenas por ter visto que a sala tinha cerca de 30 mulheres e que, portanto, “ali era o seu lugar”. Quando estava prestes a desistir da carreira, surgiu um papel em uma série de TV (“Rawhide”), que lhe dava um salário mais do que bom para a época. A série não tinha diretor fixo. Assim, Clint conviveu com diversos profissionais; e rondava as câmeras, já tentando aprender como dirigir.

Clint, para dizer o mínimo, não brilhava como ator. Mas seu agente – que possivelmente era atraído por ele – conseguiu-lhe um papel num faroeste filmado… na Itália. Ninguém imaginava na época, mas o diretor, Sergio Leone, e o músico, Ennio Morricone, revolucionariam o gênero western, com tomadas amplas e close-ups dramáticos. Clint se tornou um sucesso estrondoso na Itália, depois em boa parte da Europa, muito antes de ser reconhecido nos Estados Unidos. E absorveu um tanto do estilo de Leone.

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Clint Eastwood no papel central de
Getty ImagesClint Eastwood no papel central de “Por um Punhado de Dólares”, em 1964

Sim, o sucesso pode aprisionar. Para Clint, uma pessoa inquieta e com uma ética de trabalho extrema (“o sonho do meu pai era ter uma loja de ferragens; eu sou o filho dele”, dizia), o sucesso libertou. A partir da década de 1970, começou a dirigir. Dirigiu ou produziu 43 filmes; atuou em 67. Fez músicas (letra ou melodia) em 9. Como diretor, é lendário por jamais gritar “ação!”, por filmar ensaios e declarar que já está satisfeito, economizar no orçamento e cumprir prazos curtos.

No Oscar, fez dobradinha de melhor diretor e melhor filme duas vezes: “Os Imperdoáveis”, um faroeste que é a melhor autocrítica dos filmes de faroeste já feita; e “Menina de Ouro”, um drama sobre uma boxeadora (que rendeu o segundo Oscar a Hillary Swank, como melhor atriz). Nos dois casos, como em vários de seus filmes, Clint esmiúça sem receios nem rodeios temas polêmicos, pungentes e profundamente humanos. De convicções libertárias (como tantos de seus personagens, avesso à excessiva interferência de autoridades) e conservador (mas também conservacionista), vários de seus filmes transmitem mensagens progressistas. Ou no mínimo obrigam à reflexão.

Os dois Oscars por
Getty ImagesOs dois Oscars por “Os Imperdoáveis”, em 1993

O homem por trás da lenda

A biografia de Levy traz equilíbrio à figura de Clint. Os livros mais parrudos sobre ele haviam sido, o primeiro excessivamente condescendente; o segundo, extremamente ferino. Embora não tenha tido acesso a Clint, o autor consegue trilhar um tom ao mesmo tempo crítico – de suas inúmeras traições, da relativa frieza, dos filhos fora do casamento – e justamente embevecido. Seu trabalho de pesquisa resgata as histórias e a recepção (de crítica e bilheteria) dos principais filmes, e você se pega torcendo para chegar logo aos seus favoritos.

Clint Eastwood tinha 94 anos quando seu mais recente filme, “Jurado Nº 2”, estreou, em 2024. Na época, anunciou que já estava pensando no próximo. De lá para cá, o projeto esfriou; há rumores de que ele tenha finalmente, aos 96 anos, decidido curtir a aposentadoria. Mas, como diz Levy, com Clint nunca se sabe.

*Reportagem publicada na edição 141 da revista Forbes, em maio de 2026.

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Conheça a Nova CEO da HP, Emma Walmsley

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A HP Inc nomeou na quarta-feira (4) a ex-CEO da GSK e membro do conselho da Microsoft, Emma Walmsley, como nova CEO. A executiva vai conduzir a fabricante de PCs por uma escassez de chips de memória que elevou os preços e desencadeou uma forte retração no setor.

Walmsley assume as rédeas da empresa no lugar de Bruce Broussard, que atuava como CEO interino da HP desde fevereiro.

A trajetória da nova CEO da HP

Walmsley, de 57 anos, nasceu em Barrow-in-Furness, no noroeste da Inglaterra. Ela é filha do ex-oficial da Marinha Real Robert Walmsley, que mais tarde atuou como chefe de aquisições de defesa do Reino Unido. Frequentou a St Swithun’s School, em Winchester, e estudou estudos clássicos e línguas modernas na Universidade de Oxford.

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Walmsley passou 17 anos na gigante francesa de cosméticos L’Oréal, na qual ocupou cargos de marketing e gestão em Londres, Paris, Nova York e Xangai. Ela ascendeu ao cargo de gerente-geral da divisão de produtos de consumo da empresa na China, supervisionando marcas como L’Oréal Paris, Maybelline e Garnier.

Liderança da GSK

Walmsley ingressou na GSK em 2010 e assumiu como CEO em abril de 2017, sendo a primeira mulher a liderar a farmacêutica britânica.

Ela supervisionou o spin-off da divisão de saúde de consumo da GSK, hoje Haleon, e atuou para reforçar os negócios de medicamentos e vacinas, embora os investidores, por vezes, questionassem a força do pipeline da empresa.

Também conduziu a companhia durante a pandemia de COVID-19, lidou com a tentativa fracassada da Unilever de comprar seus ativos de consumo e enfrentou pressões dos acionistas ativistas Elliott e Bluebell. Walmsley deixou a GSK no final de 2025, após quase nove anos no cargo.

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Sua saída ocorreu em um momento em que as grandes farmacêuticas enfrentavam pressões das políticas tarifárias dos EUA, escrutínio sobre os preços dos medicamentos e a necessidade de compensar as perdas de receita decorrentes da expiração iminente de patentes por meio do lançamento de novos produtos.

Walmsley faz parte do conselho da Microsoft há sete anos. Em 2020, recebeu o título de Dame Commander da Ordem do Império Britânico pelos serviços prestados à indústria farmacêutica e aos negócios.

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MICE Peru Consolida O País Como Rota Estratégica Da Inovação Corporativa

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Nos dias atuais, uma viagem de incentivo não é mais somente reconhecimento de desempenho. No corporativo, tornou-se ferramenta de transformação cultural e alinhamento estratégico.

Nesse contexto, o Peru se consolida como destino ideal para empresas que buscam elevar a coesão de suas equipes e reter talentos, graças à proximidade geográfica, à conectividade aérea direta e a uma oferta onde gastronomia, ancestralidade e paisagens imponentes convergem para impulsionar inovação e desenvolvimento executivo.

Como capital gastronômica da região, Lima é o ponto de partida perfeito para conectar equipes em um ambiente urbano sofisticado. A cidade convida colaboradores a cocriar por meio de masterclasses culinárias com chefs renomados, jantares de autor em casarões coloniais ou huacas pré-hispânicas iluminadas, e a explorar seus insumos locais. Essas dinâmicas estimulam o trabalho colaborativo e o networking de alto nível.

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O roteiro se aprofunda nos Andes rumo a Cusco e ao Vale Sagrado, onde a imersão na cultura fortalece o sentimento de comunidade. Em oficinas têxteis e atividades agrícolas inspiradas na filosofia ancestral do Ayni (reciprocidade), as equipes vivenciam a colaboração mútua, gerando impacto social nas comunidades e critérios de ESG nos programas de incentivo.

Para convenções executivas e retiros de liderança, Arequipa oferece um ambiente de elegância. Emoldurada pela silhueta do vulcão Misti, a Cidade Branca permite sessões plenárias em casarões de sillar (pedra vulcânica), gastronomia que resgata técnicas centenárias e expedições ao Cânion do Colca.

A poucas horas de Lima, onde as dunas do deserto encontram o Oceano Pacífico, Ica e Paracas emergem como cenário ideal para o pensamento disruptivo e o bem-estar corporativo. A região oferece glamping (acampamentos de luxo) em Huacachina com jantares sob as estrelas, travessias de iate pela Reserva de Paracas e pelas Ilhas Ballestas, além de visitas a vinhedos centenários para masterclasses de pisco, um convite para renovar a visão estratégica da equipe.

No final da jornada, a diversidade territorial do Peru garante alto retorno sobre o investimento em capital humano, transformando cada itinerário em experiência de impacto duradouro para inspirar, reter e consolidar as equipes do futuro

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Como Jerome Cadier Tirou a Latam da Crise e Preparou a Companhia para Crescer

Redação Informe 360

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Na cerimônia militar de apresentação de Jerome Cadier no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva, o CPOR, sua mãe chorava sem parar – não de orgulho, e sim por receio. Não é que temesse uma guerra. Mas achava que seu filho, o caçula de cinco irmãos, era magro demais, frágil demais e “meio fresco para comer”; acostumado a uma “vida boa de classe média”, não aguentaria a rotina no Exército.

Jerome aguentou, é claro. Não só aguentou como fez ótimos amigos, para a vida, e afirma ter aprendido muito. Durante um ano, acordou cedo, cumpriu a rígida rotina do quartel, aprendeu a atirar, dormiu em acampamentos, estudou estratégia de guerra… e, sim, encarou a ração militar sem grandes problemas. Depois de formado, ainda passou dois meses como tenente no Regimento de Cavalaria em Pirassununga, no interior de São Paulo. Muito de sua disciplina e seu estilo de liderança ele atribui à experiência no ambiente militar. “Foi um choque de realidade, de botar o pé no chão, ter de se dedicar e não ter escapatória”, afirma.

O traço que mais se nota dessa herança é provavelmente seu estilo direto, franco, transparente, tanto para falar dos negócios quanto de sua vida pessoal. Aos 56 anos, prestes a completar uma década no comando da companhia aérea Latam no Brasil, Cadier ganhou visibilidade no setor e no mundo dos negócios em geral (principalmente por suas declarações sobre a reforma tributária, a falta de apoio ao turismo e outros temas políticos). Ele atribui esse tom mais enfático ao tempo no cargo. “Hoje eu consigo fazer algumas afirmações com mais tranquilidade”, diz.

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Jerome Cadier, ceo latam
Jerome Cadier diante de uma aeronave da Latam, marca cuja criação e implantação ele liderou antes de assumir a operação brasileira

Para essa tranquilidade contribui, sem dúvida, o bom momento vivido pela empresa. Depois do baque da pandemia de covid-19, o que levou a companhia à concordata, Cadier liderou uma reestruturação que vem dando frutos: o número de reclamações dos passageiros despencou, o número de destinos vem subindo consistentemente, os lucros voltaram… e a Latam está investindo em uma nova frota, com aviões um pouco menores, para ampliar ainda mais seu alcance.

A eficiência empresarial, porém, encontra limites. Tanto no imponderável, como um cenário de guerra que faz o preço do combustível disparar, quanto em um contexto que, este sim, pode ser mudado. E daí vem a atuação de Cadier, com o registro de que o Brasil explora muito pouco seu potencial na aviação. O patamar de meia viagem aérea por habitante ao ano, lembra ele, está muito aquém do de outros países e permanece assim há muito tempo.

“O Brasil precisa de uma agenda que aumente a eficiência e reduza os custos do setor, em vez de manter regras que encarecem a operação e de conviver com um dos combustíveis de aviação mais caros do mundo.”

Jerome Cadier, CEO Latam Brasil

Carta branca para mudar

Cadier tem um nome e um sobrenome não muito comuns. É porque são de origem francesa. Seu pai, filho de um casal de franceses radicado no Brasil, nasceu no Rio de Janeiro, estudou na França e voltou ao país no fim da década de 1950 casado com uma francesa. Jerome (pronuncia-se “Jerrôme”) cresceu falando francês e estudou em uma escola francesa.

Não tinha ideia de que profissão queria seguir, mas como era bom em matemática escolheu engenharia de produção – que cursou na Escola Politécnica da USP, tendo entrado aos 20 anos, depois de um ano de cursinho e da temporada no Exército. Nunca trabalhou como engenheiro, mas acredita que o curso tenha lhe burilado a capacidade de resolver problemas.

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Ao sair da faculdade, trabalhou na consultoria McKinsey durante oito anos, durante os quais fez um MBA na Kellogg School of Management, nos Estados Unidos. Em 2002, foi para a Whirlpool, dona de Brastemp e Consul, onde atuou nas áreas comercial e de marketing e chegou a comandar os negócios na Oceania.

Ficou dez anos no grupo, até receber, em 2013, o convite para ingressar na companhia formada pela fusão da brasileira TAM com a chilena LAN, o Latam Airlines Group. “Fui o primeiro executivo que veio de fora e entrou para a Latam”, diz. Mudou-se para Santiago, onde assumiu como diretor de marketing do grupo, com responsabilidades também ligadas à experiência do cliente.

Se hoje o passageiro diz “Latam” com naturalidade, Cadier tem participação direta nessa mudança de vocabulário. Foi ele quem liderou a criação da marca que substituiu TAM e LAN em todos os mercados do grupo. Lançada em maio de 2016 e apresentada durante a chegada da tocha olímpica ao Brasil, a nova identidade completa uma década.

Cadier durante o revezamento da tocha olímpica, em 2016, quando a Latam apresentou sua nova marca ao público
Cadier durante o revezamento da tocha olímpica, em 2016, quando a Latam apresentou sua nova marca ao público

Em maio de 2017, ele voltou para presidir a operação brasileira, que havia perdido espaço e rentabilidade. A fusão reunira empresas em situações diferentes. A TAM enfrentava uma concorrência maior e resultados fracos. A LAN chegava com uma operação rentável e queria ampliar sua presença no Brasil. “A LAN queria a fusão, mas a TAM precisava da fusão”, compara.

Essa diferença teve impacto na condução dos negócios. Respaldados por seus resultados melhores, os executivos oriundos da LAN impuseram à operação brasileira a fórmula que havia dado certo para eles: tornar-se, até onde fosse possível, uma empresa low cost. Fazia sentido lá fora, onde as companhias aéreas sofriam concorrência de rivais de baixo custo. No Brasil, deu errado.

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A Latam aumentou o número de assentos nos aviões (diminuindo o espaço entre eles), cortou serviços e passou a cobrar pela comida. Resultado: a empresa perdeu fidelidade entre os clientes corporativos, de tíquete mais elevado, e a GOL e a Azul avançaram.

“Em pouco tempo, a direção do grupo entendeu que eles também não sabiam como reverter os resultados”, brinca Jerome, e o então presidente global, Enrique Cueto, lhe deu liberdade para rever a estratégia. “Carta branca para você, me diz o que a gente precisa fazer”, disse-lhe. Jerome apostou que era preciso voltar a oferecer o que o brasileiro valorizava.

A estratégia retomava, aliás, a origem da TAM. Seu fundador, Rolim Amaro, ficou famoso pelo atendimento pessoal e cuidadoso, estendendo tapetes vermelhos e destacando pessoalmente os cartões de embarque de passageiros. A companhia voltou a oferecer comida a bordo, melhorou os canais digitais e se aproximou das agências de viagens, especialmente das que atendiam o público corporativo.

A atenção de Jerome aos colaboradores também lembrava a prática antiga: nos primeiros meses à frente da operação brasileira, ao percorrer as bases da companhia, diz ter ouvido de um funcionário em Teresina, no Piauí, que o último executivo a visitá-los havia sido Rolim, duas décadas antes.

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Cadier também tratou de melhorar as métricas. Até então cada área tinha as suas, que eram corretas mas nem sempre levavam ao resultado desejado. Ele trocou os objetivos individuais por um compromisso comum: “Você vai trabalhar com uma meta só, que é o que o passageiro quer”. O que isso muda? O pessoal do aeroporto pode fazer tudo certo, o da manutenção idem, a tripulação também… e o avião não decolar no horário. “Com um objetivo comum, você incentiva o pessoal a pensar em como pode facilitar a atuação de outra área”, diz o executivo.

Há também uma questão estratégica. Pontualidade, por exemplo, é um fator fundamental do serviço. Não só porque agrada ao cliente, mas também porque o atraso sai caro (em horas extras, em diárias de hotel para passageiros de voos cancelados etc.). E combatê-la com eficiência exige fazer escolhas que aumentam o custo: é preciso ter redundâncias – aviões extras prontos a tomar o lugar de algum que apresente defeito, equipes maiores… Os gastos acabam compensando, mas no médio prazo.

E a Latam Brasil chegou a ver melhora nos resultados já entre o final de 2018 e o início de 2019. Com mais pontualidade e satisfação dos clientes, a rentabilidade voltou. O fim da Avianca Brasil, uma rival de baixo custo, ajudou. Tudo parecia tão nos eixos que Jerome lembra de ter concluído: “Fechei um ciclo”. Era hora de pensar no próximo, fosse dentro ou fora da Latam.

A reconstrução da Latam pós-pandemia

O ciclo que o esperava, porém, era de natureza totalmente diferente. Em plenas férias de fim de ano no final de 2019, Cadier esquiava com Thomas, seu filho do meio, então com 10 anos, e uma noite os dois chegaram a jogar um jogo no celular cujo objetivo era… espalhar um vírus pelo mundo.

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Àquela altura já haviam surgido as primeiras notícias sobre uma doença estranha na China. Mas ele só percebeu que a situação iria se agravar semanas depois, quando a ocupação de um voo para Milão caiu para cerca de 40%. A partir daí, com o avanço da pandemia, a procura despencou rapidamente. Houve dias sem nenhum voo no país inteiro. A receita despencou, mas os custos permaneciam (inclusive com passageiros que pediam reembolso das passagens compradas com antecedência).

A Latam entrou em recuperação judicial nos Estados Unidos. A operação brasileira ainda acreditou que pudesse contar com auxílio do governo, mas seguiu o mesmo caminho um pouco depois. E então Jerome decidiu que, se a concordata era inevitável, seria melhor aproveitá-la para uma reconstrução maior. “Nosso objetivo não era sair logo da recuperação judicial, era sair bem”, afirma.

A Latam renegociou contratos, reduziu custos, e ganhou flexibilidade. Só não cortou os investimentos em tecnologia: tratou de automatizar processos. A companhia também manteve projetos voltados para o passageiro, como a Premium Economy nos voos domésticos e o reforço do programa de fidelidade.

Para evitar demissões, Jerome tentou negociar uma redução salarial com os aeronautas, sem sucesso. Os cerca de 2.700 cortes em agosto de 2020 acabaram sendo inevitáveis, diz. “Quando nos recuperamos, recontratamos a maior parte deles.” Hoje, o grupo tem 41 mil funcionários e a Latam Brasil emprega 24.180 pessoas. Antes da pandemia, eram 21 mil. “Isso não diminui o peso das decisões que precisaram ser tomadas naquele momento.”

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Que a situação era estressante, não há dúvida. Para começar, como administrador estatutário, não era só o emprego de Cadier que estava em jogo; ele corria o risco de perder o patrimônio também caso a empresa sucumbisse. Não menos impactante, nessa época seu casamento (o segundo) ruiu.

Nessa situação, Cadier refinou seu estilo de liderança calcado em comunicação rápida, incisiva e transparente. Chegava a gravar vídeos curtos pelo celular para funcionários que temiam perder o emprego ou ficar sem salário. “A regra era não dourar a pílula”, conta. “Até porque, naquele contexto, como você ia fingir que estava tudo sob controle?”

Em novembro de 2022, a Latam saiu da recuperação judicial nos Estados Unidos, dois anos e meio depois de entrar no processo. Mais enxuta e capitalizada, teve condições de ajustar a frota e a malha. O Brasil, antes visto como uma operação grande mas falha e pouco rentável, ganhou peso na estratégia global. E a perspectiva para a frente é ainda melhor, frisa Cadier. Antes da pandemia, a Latam voava para 44 destinos domésticos. Chegou a 64 e pretende alcançar 67 até o fim de 2026.

“Uma das maiores lições da pandemia foi entender os limites da nossa capacidade de prever o futuro.”

Jerome Cadier, CEO da Latam

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Para ampliar a malha, encomendou 24 unidades do Embraer E195-E2, com opções de outras 50. Com 136 assentos, o modelo terá classes Economy e Premium Economy e permitirá atender mais cidades médias – pela facilidade de operar em aeroportos menores e pelo custo mais ajustado onde a demanda é pequena para os Airbus maiores da frota.

Na primeira fase, prevista até março de 2027, os aviões deverão operar 42 rotas domésticas. Desse total, oito são novas ligações; as demais envolvem a malha existente. A demanda, afirma Cadier, já está surpreendendo, com um volume de reservas maior do que o esperado, principalmente em rotas do agronegócio, como Rondonópolis (MT).

A recuperação não eliminou a exposição às oscilações do setor. No segundo trimestre de 2026, o Grupo Latam teve receita de US$ 4,2 bilhões, 28% acima do registrado no mesmo período do ano passado, embora seu lucro líquido tenha caído quase à metade, para US$ 125 milhões (em grande parte pelo aumento do combustível, de 93,1%). No ano passado, a receita foi de US$ 14,5 bilhões, alta de 11,2% sobre 2024, e a previsão de analistas para este ano é de passar dos US$ 17,3 bilhões. “A gente não tem ideia de quando vai acabar a guerra do Irã e o que vai acontecer com o combustível”, diz. “Uma das maiores lições da pandemia foi entender os limites da nossa capacidade de prever o futuro.”

Bons resultados, no entanto, inegavelmente ajudam a aliviar a tensão. E isso se reflete na vida pessoal. Cadier diz que já trabalhou jornadas mais longas. Hoje procura preservar o tempo com a família. Está no terceiro casamento e tem três filhos: Martina, de 21 anos, da primeira união; e Thomas, hoje com 16, e Chloe, de 14, do segundo casamento. O tempo livre é também uma conquista profissional. Cadier passou a valorizar as equipes capazes de encontrar respostas para os problemas da companhia. “Quanto mais forte é uma organização, menos ela depende do CEO para encontrar as melhores soluções.”

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Jerome Cadier andando de moto, uma de suas paixões, na Itália
Jerome Cadier andando de moto, uma de suas paixões, na Itália

Mesmo assim, desistiu do triatlo. “Toma tempo demais”, define. Cadier esquia desde criança e já praticou também corrida. Hoje prefere pedalar, fazer mountain bike nos fins de semana e andar de moto, uma de suas paixões. Também não abre mão de dormir cerca de sete horas por noite – algo essencial em seu cargo, afirma. “Em aviação, uma crise pode irromper a qualquer momento, e você precisa estar 100% alerta, descansado e disposto.”

Jerome Cadier em uma prova de corrida em São Paulo

*Reportagem publicada na edição 145 da revista Forbes, de setembro de 2026, que traz a lista dos Melhores CEOs do Brasil.

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